A arquitetura de o meu corpo humano liga cada uma das emoções, memórias e sensações a uma parte do corpo ou a determinados órgãos: da cabeça aos rins e aos tornozelos, dos olhos às mãos e ao coração, há sempre uma relação entre as partes do corpo - e o sofrimento que habita a nossa vida, a nossa memória e as marcas que deixamos ao passar. Depois de uma demorada interrupção na sua produção poética, Maria do Rosário Pedreira regressa com um livro cheio de beleza e iluminação, como uma aula de anatomia que procura os segredos de cada recordação.
«É o meu corpo // humano: vê, ouve, / toca, pensa e // dói-lhe. // Volto porque / preciso muito / que me amem.»
MARIA DO ROSÁRIO PEDREIRA nasceu em Lisboa, em 1959. Licenciou-se em Línguas e Literaturas Modernas, na variante de Estudos Franceses e Ingleses, pela Faculdade de Letras da Universidade Clássica de Lisboa (1981). Possui ainda o curso de Língua e Cultura do Instituto Italiano de Cultura em Portugal. Como escritora, tem já publicados vários trabalhos de ficção, poesia, ensaio, crónicas e literatura juvenil, procurando neste último género a transmissão de valores humanos e culturais. É co-autora da colecção O Clube das Chaves e autora da colecção Detective Maravilhas.
Mãe, oxalá eu nunca tivesse largado a tua mão: com o menino ao colo, fez-se a estrada maior do que o meu desespero, amarrotou-se de velho meu coração tão claro. Eu tinha catorze anos antes
do estrondo, catorze anos e meio antes do teu grito, quinze anos cumpridos quando afastei o véu dos teus cabelos: se me dizias sempre que não fosse para longe, porque pediam o contrário os teus olhos parados? Ainda por cima, mãe, chegar
ao campo foi como bater a uma porta cansada - mil tendas que eram velas remendadas, barcos para ficar de novo pelo caminho. Trouxeram-nos mantas cheias de perguntas; tentaram-me com doces para me pôr no lugar; mudaram ao meu irmão a fralda com as mãos frias. Mãe, eu disse-lhes que
o menino era meu; e agora, quando ele procura os teus seios no meu corpo sem formas, cubro com o teu véu os meus cabelos e canto-lhe baixinho canções de açúcar. Não sei que idade tenho, mãe, mas oxalá eu nunca tivesse largado a tua mão."
Maria do Rosário Pedreira consegue escrever o corpo de forma poética sem que o seja difícil, rebuscado ou floreado. É o corpo e a emoção da maturidade da vida, com essa consciência, com essa ternura, com essa aceitação e alguma melancolia também. E é tudo bonito. O verdadeiro enlevo.
Embora ache que "O meu corpo humano" tenha a intenção de analisar a relação de uma mulher com o seu corpo, com o seu corpo já velho; não posso deixar de sentir que é antes de tudo um livro sobre perda: do corpo, da família, da inocência. Não consigo descrever o quanto este livro me tocou. Recomendo-o a todos os que já perderam. PS: Gostei particularmente dos seguintes poemas: ouvidos; dentes; pele; ventre. ________________________ Ainda gostei mais do livro nesta releitura [30.01.02023]
Uma escrita que não desilude. A poeta disse, numa entrevista, que, para si, a escrita de poesia era um processo terapêutico; enquanto leitora, agradeço cada palavra, que recebo também como terapia. Poemas que são um antídoto para a alma.
Nesse tempo feliz, era tudo grande: a casa, a praia, os prédios, o pinhal, os pais de toda a gente - e o mar, claro, muito maior do que hoje. Entrávamos na água
e, mal passávamos a barreira das algas, perdiamos o pé. E como era bom ter medo e dar a mão a alguém debaixo de água; como era bom saber que podiamos
furar a vaga em caracol das marés vivas, porque o braço comprido do pai chegaria em segundos para enlaçar a nossa cintura e logo nos devolver à praia. Hoje, a bainha
da espuma dá-nos apenas pelo joelho, Mas, afinal, de que nos vale sermos grandes se nem mesmo aqueles que nos amam são capazes de salvar-nos de nós próprios?
Chegou ontem pelo correio, e comecei a ler Perdida nas palavras à procura do sentido do título , parei, não queria ler depressa de mais. Mas hoje de manhã numa quase compulsão não consegui parar de ler. Ontem eram poemas de amor, fortes Os de hoje falam de tudo, violência doméstica, violação, o lado mais negro de vidas que se perdem, de migrantes, da morte, da saudade E o aperto crescente que senti rebentou em lágrimas que não contive e como a própria autora escreveu: "Eu vi a guerra de todas as maneiras na minha cabeça sem nunca lá ter estado." Os poemas são fortes, tocantes, comoventes. Que me fazem sair da bolha, do aconchego onde insisto em me esconder de tão revoltada que fico com o que vejo em volta. Continuo à procura de mim nos livros de poesia que leio, e a busca contínua, ainda que em cada livro, e nalguns em muitos dos poemas, vá buscar um pedacinho..... A escrita é exemplar, madura, sem medos, O livro é imperdível
Poesia é despir os sentimentos e coloca-los em forma de verso... Primeira vez que leio algo da autora e confesso que gostei muito mais do que esperava! O livro é dividido em três partes, dividindo o "meu" e o "teu" corpo. Bastante fácil de se ler, ideal para refletir sobre os problemas que se passam à nossa volta (especialmente na segunda parte) e para refletir sobre nós mesmos (primeira e terceira parte). "Mas, afinal de que nos vale sermos grandes se nem mesmo aqueles que nos amam são capazes de salvar-nos de nós próprios?"
Tão bom e tão original…poemas para cada parte do corpo humano, numa escrita que nos convida a pensar em assuntos do dia-a-dia de forma bonita e, por vezes, até comovente.
Servir-se de cada parte do corpo para um mote que origina um poema. É esse o modus operandi da Maria do Rosário Pedreira neste pequeno volume, que nos prende.
Ouvi o poema "Costas" há dois meses no podcast "O poema ensina a cair" e desde então nunca mais me saiu da cabeça. Tive de comprar o livro. "Costas" é o meu poema preferido, confere. Mas todos os outros têm uma beleza indescritível e são também, quase sempre, desconcertantes. É, com certeza, dos melhores livros de poesia que já li. 🤍
"Nesse verão, passeámos no campo e ouvimos a voz da terra contar segredos sobre nos. Não muito longe do lugar onde uma casa respirava pela chaminé como um ser vivo, achámos uma porta quase-velha deitada ao chão, fechada para o deslumbramento da manhã. Eu quis ir ver o que escondia, mas disseste que devíamos deixar o passado atrás da porta. Íamos - lembro-me bem - de braço dado."
Cada parte do corpo uma emoção. Belíssimo livro! Um dos meus preferidos é cabeça " Com um livro na mão, eu vejo, perfeitamente nítidos, todos os séculos."