Edição portuguesa: Barricada de Livros, 2025
#spinoff – Cristina Morales
“Uma eurocêntrica de esquerda diria que Galindo fala da sociedade boliviana e que esse contexto não é transmutável à minha situação de opressão barcelonesa. A essa branquinhocêntrica temos de responder o seguinte: (…) E tu não tens um altar laico para as musiquinhas burguesas de Simone de Beauvoir e de Simone Weil, não tendo nascido na Paris nem na Berlim de entreguerras? (…) A essa gaja de merda há que recordar-lhe que nos subúrbios do progresso também se pensa, também se escreve e também se usa o que se pensa.” – “Leitura Fácil”, Cristina Morales
Foi Cristina Morales, escritora espanhola, que pôs o nome de María Galindo no meu radar e tudo se alinhou com a publicação recente de “Feminismo Bastardo” pela editora anarquista Barricada de Livros. Explica assim a autora o seu manifesto:
“É por causa dessa domesticação colonial do desejo erótico sexual que prefiro falar de bastardismo e não de mestiçagem. Houve, mistura, sim, a mistura foi tão vasta que abarcou a sociedade inteira, sim, mas não foi uma mistura livre e horizontal; foi uma mistura forçada, submetida, violenta ou clandestina, cuja legitimidade esteve sempre sujeita à chantagem, à vigilância e à humilhação. A mestiçagem é uma meia-verdade à qual, tirando-lhe o manto da vergonha e da hipocrisia, se chama bastardismo.” – “A Despatriarcar! Feminismo Urgente”
María Galindo é uma activista anarco-feminista que nasceu em 1964 na Bolívia e, nos anos 80, estudou teologia e psicologia em Roma, foi tradutora em Itália, cuidadora de doentes na Alemanha e trabalhadora sexual na Bélgica. Esta “fucking anti-Antígona, puta, blasfema e, ainda por cima, sabichona” como a caracteriza Paul B. Preciado no prólogo, além de cineasta e escritora, fundou o colectivo Mujeres Creando em 1992, que intervém no espaço público através da rádio livre Deseo, de performances e grafitagem, sendo visíveis nas paredes de La Paz palavras de ordem como: “O feminicídio é a única pandemia que não se declara em quarentena”, “Perante o poder não te empoderes, rebela-te”, “A única igreja que ilumina é a que arde”, “Não se pode descolonizar sem despatriarcalizar”.
“Feminismo Bastardo” reúne artigos e discursos dos últimos 30 anos, o que a meu ver, causa alguma dispersão e, por vezes, a sensação de que a autora dispara para todos os lados, mas são prova do activismo muito vivo e do espírito combativo e indomável daquela que Paul B. Preciado considera a inventora do feminismo do século XXI, apelidando-a com admiração de “rata urbana e condor dos Andes”. É no capítulo 4 , “Dicionários que enganam, definem mulher pública como puta e homem público como político”, que se encontram os textos mais corrosivos, subversivos e essenciais.
A febre da conquista da festa como cenário de liberdade para as mulheres é uma das molas do feminicídio: muitas mulheres são assassinadas com as suas melhores roupas e quando a vontade de viver batia com mais força nos seus peitos. Ali mesmo somos violadas ao som da banda. No dia a seguir, quando os nossos corpos são recolhidos, quando sai a crónica policial do sofrido, a sociedade inteira culpa-nos da nossa própria morte violenta e injusta porque tivemos a ousadia de ir à festa, de transgredir na festa a lei do macho, porque ousámos comportar-nos com devassidão, quebrando cadeias invisíveis. A conquista da festa é, do meu ponto de vista, mais transcendente, mais transformadora que a conquista do voto. Se não posso dançar na tua revolução, a tua revolução não me interessa.
Tal como o tigre, não posso negar as minhas riscas, ou seja, o facto de ser uma branca heterossexual de classe média - nada a fazer - mas gostei de conhecer as ideias subversivas desta mulher GLBT (gorda, livre, boliviana e teimosa), percebendo em que pontos a minha luta de privilegiada diverge inerentemente da sua, mas confirmando o carácter universal do feminismo, venha ele de que corpos vier, seja ele praticado e defendido como for.
Eu não dou a outra face, o que estou a propor frente aos insultos é não pôr o coração, não pôr a pele, não ser vulnerável a essa ofensa nascida da debilidade existencial. É possível fazê-lo se rompes com o controlo social, com o que dirão e tiras ao outro o poder de governar a tua vida. É possível fazê-lo se perceberes que, no caso das mulheres, o regime social é de chantagem absurda: se acatares e te submeteres, serás insultada; se te rebelas e afirmas a tua liberdade, serás insultada também. Denegrir e insultar uma mulher é socialmente necessário para a controlar e a definir continuamente. Insultar-te é um acto político de poder para te paralisar; rir do insulto é um acto político para afirmares a tua liberdade.