Na ausência de Marie, que ninguém sabe se e quando ela voltará de Montreal, Serge tomou a decisão de cuidar de seus negócios a partir de agora. É necessário abastecer Notre-Dame-des-Lacs, que carece de tudo desde que seu Armazém geral caiu em desuso. Infelizmente, não é tão simples. Os fornecedores de Saint-Simon, que só confiavam em Marie, recusam-se a dar crédito a Serge. A tensão aumenta na aldeia, dividida em dois grupos: aqueles que sentem saudades de Marie (especialmente os homens) e aqueles que estão felizes por ela ter partido (especialmente as mulheres), não a perdoando por ter “cometido um erro”. Enquanto isso, Marie diverte-se loucamente em Montreal, sai e multiplica os amantes. Mas ela tem saudades da aldeia …
CHARLESTON
Nada corre bem em Notre-Dame-des-Lacs! Desde o regresso de Marie e Jacinthe de Montreal, um novo vento sopra na aldeia: as moças da aldeia aproveitam os lindos tecidos trazidos para fazer novos vestidos, os homens ensaiam o Charleston e as velhas, claro, estão escandalizadas. Marie, por sua vez, aproveita mais do que nunca a sua viuvez. É hora de colocar as coisas em ordem! Excepto… quando o padre propõe eleger um novo presidente, ninguém quer concorrer!
Régis Loisel is a cartoonist living in Montreal, Canada. Since the 1970s Loisel has become one of the most decorated French comic artists, especially in the fantasy genre. Loisel has won several awards at the Angoulême International Comics Festival, including the lauded Grand Prix in 2002.
Em “Ernest Latulippe”, voltam várias personagens a Notre-Dame-des-Lac. Marie parece ter saído da casca em Montreal, mas é sabido que a nossa casa é onde mora o nosso coração. Será que os aldeãos conservadores e mesquinhos aprenderam a dar valor à dona do armazém?
- Charleston – 4*
No volume 7, os loucos anos 20 chegam à pequena aldeia perdida nas florestas do Quebec. É necessário eleger um autarca que oriente e chefie os habitantes, mas visto que as mulheres não podem votar e os lenhadores estão prestes a partir, a borga torna-se prioridade, inspirada pelos vestidos e a música da moda, regada com muito licor de ameixa.
Após a leitura do primeiro volume, Marie (do qual já falei, comparando com a edição da Casterman), eis que fui prosseguindo lentamente pelos restantes volumes da série, até ao sétimo, tornando-se numa das leituras favoritas deste ano.
Esta série foi lançada inicialmente pela Asa em Portugal, mas entretanto, foi adoptada pela Arte de Autor que, não só lançou os novos volumes, como reeditou os primeiros.
A história
Marie vive numa pequena vila no interior do Canadá. Ficou viúva relativamente jovem, mas sentiu despertar-se novamente para a vida com a chegada de Serge, um forasteiro que, para além de a ajudar, inaugura um pequeno restaurante. Serge é um homem diferente dos outros – em mais sentidos do que Marie percebe inicialmente.
A vida nesta pequena vila é pacata, mas bastante comunitária. Todos sabem da vida de todos, sobretudo um pequeno grupo de velhotas beatas que tenta influenciar o novo padre de acordo com o que acham estar correcto ou errado.
Crítica
A história é contada pelo falecido marido de Marie que a observa, ainda que faça poucos comentários. Na prática, é como se seguíssemos Marie e outras personagens para obter uma visão mais abrangente. Desconhecemos os pensamentos, mas assistimos às conversas e a outros momentos fulcrais.
No decorrer dos vários volumes vamos percebendo como decorre a vida em comunidade. Cada um tem um papel a exercer, e Marie é uma peça fundamental, tanto por tomar conta do Armazém Central (a única loja da vila) como por possuir uma carrinha com a qual ajuda os restantes habitantes, sobretudo para urgências médicas.
Mas a vida em comunidade não é só parceria. Estando as existências interligadas, todos se metem na vida de todos, sobretudo um grupo de velhotas beatas, que, entre os ciúmes de uma vida que já não podem viver e a camada de religiosidade, se acham na posição de julgar tudo e todos.
Apercebemo-nos, também, da sazonalidade, com os homens a partirem para o comércio de peles por longos meses, voltando sujos e pouco civilizados. Esta existência, no meio da natureza, é, para além de dura, perigosa, estando sujeitos a ataques de ursos ou outros acidentes. Após o retorno dos homens existe um período de adaptação, tanto por parte dos homens, como daqueles que ficaram na vila e agora os recebem.
Ainda que a história seja, sobretudo, focada, na dura vida da vila no interior do Canadá, vislumbramos, por breves momentos, a glamorosa visa nas cidades: o charleston está na moda, bem como novos vestidos e penteados.
Mas tudo isto é contexto, ou enquadramento. O ponto fundamental de Armazém Central são as personagens. E não apenas Marie. Cada uma é caracterizada de forma especial, mostrando complexidade e dimensão. A cada uma são dados detalhes específicos que a fazem única e envolvente – por vezes, de forma caricata; e apesar dos dramas que vivem, é impossível não ler sem um sorriso!
A par com o texto, os desenhos são fabulosos. As paisagens são realistas, mas, ainda, assim, as personagens destacam-se pela sua expressividade. As posturas são fluídas e a sucessão de imagens transmite movimento e emoção. As expressões estão carregadas de sentimentos e percepcionamos parte da narrativa pelo que nos apresentam.
Conclusão
Armazém Central é uma leitura fenomenal. Mais suave do que outras leituras de Loisel (Peter Pan é muito bom, mas torna-se psicologicamente pesado e El Gran Muerto está impregnado de urgência constante) torna-se cativante por todos os aspectos, quer narrativos, quer visuais. É fascinante e envolvente! Sem dúvida uma grande leitura!
Achei o capítulo 7 um pouco repetitivo, tirando isso, continua a ser uma bela história sobre o desenvolvimento pessoal dentro de uma comunidade bastante especial. Estou bastante curiosa para saber como vai terminar as aventuras pessoais de cada personagem, sinto um grande carinho por todas elas e sinto que a despedida vai ser dolorosa.
A série Armazém Central é fenomenal, não apenas por um argumento muito bem construído (sustentado pelo vasto leque de personagens que apresenta e que vamos descobrindo a pouco e pouco, à medida que a série vai avançando), mas também pelas ilustrações, não necessariamente realistas, mas extremamente bem executadas. Apesar de neste volume (especialmente no livro 7, Charleston) a história parecer não evoluir substancialmente, não deixamos de ter vontade de ler o que virá a seguir.
E finalmente regresso a Notre-Dame-Des-Lacs. Depois dos primeiros três livros fiquei ansiosamente à espera dos capítulos seguintes. Uma história com muitas histórias dentro e sobre tantas coisas, o amor, a amizade, a entreajuda, a tolerância, o luto, o perdão. Um pequeno mundo dentro de uma aldeia isolada. Livros que me fizeram sorrir e até sofrer juntamente com as personagens. E o final é tão bonito e emotivo!
Por cá continuamos a ver a evolução e transformação de toda uma aldeia com o passar dos tempos… Desde as intrigas, o desprezo, à amizade e ao amor, emoções variadas são o que sentimos a cada virar de página. Como tem sido habitual nos volumes anteriores, este final deixa-nos sempre a querer mais!
Apesar de neste livro parecer que a história não se desenvolve, ao mesmo tempo fiquei com a sensação de que anda ao ritmo certo. Quando comprei os últimos volumes, a Sra. disse-me para ler com muita calma, mas é impossível.