Um menino sem nome perde o pai aos três anos, vítima de uma fatalidade, e precisa encarar mais um dia dos pais na escola. Como se faz para participar da celebração de uma existência que lhe foi negada? Ele decide escrever uma carta para o pai morto a fim de contar como está se sentindo. A partir daí, o que se desenrola é uma correspondência maníaca em que aparecem as tantas elaborações possíveis de um luto, as dores do crescimento, a errática construção das masculinidades, a convivência com a ausência. Apresentando uma narradora inusitada, este é um romance sobre precisarmos da imaginação para viver e sobre a lenta despedida que é a vida.
um menino na véspera de uma apresentação do dia dos pais não sabe como dizer que não tem pai e começa escrever cartas para ele, já morto.
uma escrita que fluí, principalmente quando chegamos na dipirona como protagonista: o remédio que foi administrado incorretamente no hospital ao pai do menino. trazendo a situação à tona, o filho busca elaborar o seu luto de uma paternidade que não aconteceu, já que era pequeno demais para ter tido um pai, mas filho o bastante pra sentir falta dele.
por isso, jamais ele vai ser o filho, por não ter vivido, mas sempre esse homem será seu pai. todos os caminhos percorridos ao conhecermos esse luto chegam nelas: a morte e a certeza de que nada do que fizer, vai fazer voltar a vida do pai. Thiago arrasa em trazer um jogo de vozes único e surpreendente: temos cartas, pensamentos, reflexões e o fato de termos a dipirona como narradora foi o que me prendeu na história, assim como aprender aceitar o passado e o luto a partir das breves lembranças e sobreposições de situações que a vida levou ao filho.
os deslocamentos narrativos, divisões de narrativas e trocas de escrita em cada formato fazem a leitura ser única e criar libertação do que comumente lemos como um romance linear. mesmo sendo uma leitura triste, me deixou com um sentimento agridoce pelas reflexões realistas que encontrei na história. um ótimo livro!