3,5*
Fui a criança mais assistida, mais amparada, mais pelo-amor-de-Deus-coma-alguma-coisa, mais sopinha-na-boca, mais frutinha-cortada, mais bota-ela-na-balança-para-ver-se-engordou, mais magrinha-assim-é-perigoso-pegar-virose. Contudo, sofri de obesidade mórbida de pensamentos, em silêncio.
“Você Nunca Mais Vai Ficar Sozinha” é o primeiro romance de Tati Bernardi e, estando escrito em breves capítulos em que a protagonista se dirige sobretudo à enfermeira que a acompanha na enxurrada de exames e análises que caracterizam o martírio da grávida, é o formato perfeito para esta autora que se celebrizou como colunista e contista.
É difícil ser-se mãe e futura mãe, mas também não é fácil ser-se filha, e se se pertencer a uma família louca como a de Karine, não é de todo pera doce ser-se sequer neta ou sobrinha.
Minha avó, mãe da minha mãe, era portuguesa e me apelidou de Caganita. Porque eu era medrosa, tinha colite nervosa e sobretudo porque ela não gostava de nenhuma garota que se aproximasse do meu avô. (...) Quando ela ficava muito irritada com as pessoas, falava duas obscenidades absolutamente espetaculares: “Vai para a cona da tua mãe!” e “Caralhos me fodam!”
Mas a mãe de Karine não é menos intensa e irascível, roçando mesmo a neurose e o narcisismo.
Uma vez eu voltei tarde de uma festa e fui direto para a cama. De roupa, sapato e maquiagem. Acho que só colei o chiclete na parede a capotei. Ela me acordou berrando do seu quarto “você dorme muito fácil, filha da puta! Eu não dormi te esperando e agora não vou mais dormir de ódio!”
Karine tem com a mãe uma relação de amor/ódio, oscilando entre a dependência e a rebeldia em relação ao atabafamento materno, mas esta obra não deixa também de ser uma declaração de inabalável amor filial.
Tati Bernardi escreve com piada, é inegável, mas ao querer esticar ao máximo cada situação inusitada ou ridícula, perde, por vezes, as rédeas da narrativa. Debate com um enorme à-vontade as relações sociais, familiares e sexuais, mas o estilo coloquial e o tom desempoeirado acabam por ser excessivos, como por exemplo no humor escatológico, que devia ser banido assim que se completa o ensino básico. Básico é a palavra-chave. Não há nada que me interesse menos em literatura do que o que se passa na tripa alheia. Poderiam dizer-me que é inevitável na condição de grávida, mas quando a obsessão por cocó e cu se estende a toda a família, torna-se uma conversa de... disso mesmo.
Em relação à gravidez, este livro tem tiradas muito astutas e levanta questões pertinentes com que todas as mães devem ter-se identificado uma vez ou outra, mas a posição “not like other girls” da protagonista perante tudo o que é convenção ou tradição parece-me forçada.
Minha mãe acha que mulher que tem filha mulher nunca mais se sente só. Fiquei aliviada e horrorizada. E depois só horrorizada. Como alguém vai escrever um roteiro premiado de cinema se não ficar sozinha? Como alguém vai deitar no chão do banheiro com as pernas apoiadas na borda da banheira até passar a angústia se não ficar sozinha?