Nesta reunião de crônicas, Leo Aversa reflete sobre as dores e as alegrias da paternidade, ora como pai, ora como filho. Histórias comoventes que divertem e aguçam a nossa percepção para a poesia das pequenas coisas do dia a dia.
O que se espera de um pai nos anos 20 do século XXI? Como era ser filho nas décadas de 1970 e 1980? Em Crônicas de pai talvez não estejam exatamente as respostas a essas perguntas, mas os leitores vão, junto com o autor, abrir os armários e as gavetas da memória para refletir sobre elas.
Com histórias que vão do nascimento à pré-adolescência de seu filho Martín, e da relação transformadora de ser cuidado e agora cuidar e acompanhar o pai, Leo Aversa percorre um caminho de lembranças ternas da juventude, casos hilários da relação com Martín e reflexões sobre ser um pai e um filho em constante evolução. Alimentação infantil, grupos de WhatsApp da escola, lembranças de Natais de outrora, partidas de futebol e videogame, busca por aprovação, caça a baratas voadoras e lições de vida para pais e filhos, nada escapa à caneta de Leo.
Nesta coletânea de crônicas, que reúne histórias inéditas e algumas das melhores já publicadas na sua coluna n’O Globo, Leo Aversa prova que ser pai é um aprendizado e ser filho é um talento. Histórias comoventes, engraçadas e corriqueiras, como o dia a dia de todos nós, se intercalam nesta obra que é o retrato de três gerações de homens unidos por laços de amor e cuidado. Em edição de luxo, com capa dura, pintura trilateral e projeto gráfico de Aline Ribeiro, o livro ainda conta com as belas e sensíveis ilustrações da artista Poeticamente Flor e apresentação de Adriana Calcanhotto.
Foi uma experiência tão boa ler este livro. A cada dia lia duas ou três crônicas antes de dormir, a fim de descansar a mente com um pouco de leveza. E, de fato, muitas me fizeram rir; enquanto que outras, devido ao teor mais existencial ligado à paternidade e a esse complexo que chamamos de vida, com a carga que possuem as relações humanas, emocionaram-me mais. Achei que foram bem escritas, com reflexões interessantes – destas que o cotidiano traz –, com uma ironia inteligente e com uma sensibilidade tocante. Exercer qualquer função parental, especialmente aqui a paterna, não é nem um pouco fácil, e, à medida que os anos passam, cada vez mais vamos nos dando conta disso. Meus parabéns ao autor que, ao seu modo, soube retratar um pouco do amor, dos desafios, das lutas e glórias de ser tanto pai quanto filho.
Crônicas de Pai - Leo Aversa Lido 09/11/2023 📖 Nota: 3.5 ⭐ ⭐⭐⭐⭐ Premissa ou Primeiras Impressões ⭐⭐ Protagonista(s) ⭐⭐⭐⭐ Personagens secundários ⭐⭐⭐⭐ Conexão com a História ⭐⭐⭐⭐ Page-Turner ⭐⭐⭐ Temas importantes ou Representatividade ⭐⭐ Universo ou Ambiente ⭐⭐⭐ Escrita ou Narrativa ⭐⭐⭐⭐⭐ Frases ou Citações
Eu amei demais, ter filhos é muito difícil, é muita responsabilidade, a gente tenta acertar, faz o nosso melhor, mas é muito difícil, muito fácil de errar, eu amei todo o livro, as formas como ele fala do crescimento do filho, da relação com o pai que tem alzheimer, tudo muito lindo, tocante, e sincero, e bem escrito.
Me emocionou em vários momentos, me fez rir, chorar... Gosto das crônicas e já lia no jornal, mas a edição do livro deu ainda mais sentido. Gostei muito.
quando peguei pra ler achei que ia ser algum adulto tentando ser jovem mas acabando sendo brega; descobri um livro leve e fofo, mesmo nas breguices, e talvez se eu reler mais pra frente vai ter outro peso.
Escrever crônicas é, muitas vezes, trazer o leitor para dentro da sua casa. Nessa incessante busca pelo cotidiano que, na maioria das vezes, caracteriza a escrita da crônica, parece um movimento perfeitamente natural que o escritor se volte ao que encontra na sua própria residência (nada seria mais cotidiano do que isso).
E se, por sorte, o escritor ainda tiver uma criança em casa? Isso facilita bastante o seu trabalho de encontrar temas para as crônicas, considerando que as crianças geralmente fazem com muita naturalidade aquilo que o próprio cronista almeja, ou seja, subverter as visões de mundo dominantes e oferecer algo totalmente original.
Leo Aversa também teve em casa uma criança (hoje já crescida) e, mais do que isso, transformou sua própria situação na dinâmica doméstica no tema de seu livro de crônicas, chamado de “Crônicas de pai” (Intrínseca, 2021). Seu objetivo com o livro, porém, parece não ter sido só juntar algumas divertidas histórias caseiras.
A relação da crônica com o tempo é nítida desde a época em que o gênero consistia em um relato sequencial de eventos históricos. Quando se transformou, na França, em um gênero voltado aos acontecimentos da cidade, havia igualmente o vínculo com tempo, manifestado pela própria periodicidade do jornal que o publicava.
Por muito tempo, inclusive, prevaleceu a ideia de que o texto da crônica envelhecia junto do restante do jornal, não tendo, portanto, mais que um interesse passageiro. Já no século 20, críticos como Tristão de Athayde e Massaud Moisés não achavam que um livro de crônica fizesse sentido, pois já nasceria totalmente envelhecido.
Toda essa reflexão foi feita para dizer que o objetivo de Leo Aversa com seu livro de crônicas é justamente o oposto, ou seja, o da permanência. Suas crônicas foram escritas e reunidas em livro precisamente para vencer a passagem do tempo. É que Leo quer registrar o que viveu com o filho para que, um dia, ele conheça as histórias.
Sua crônica, portanto, é inicialmente antídoto contra o apagamento da memória, o que se torna ainda mais relevante por sabermos que de fato perdemos muitas das lembranças do tempo de pequenos, justamente as que tendem ser mais agradáveis para a gente. Eis que a crônica moderna, de repente, também é registro histórico.
Deve haver nisso, também, uma relação com a fotografia (Leo Aversa é fotógrafo). A crônica talvez possa ser considerada igualmente uma espécie de instantâneo, por meio do qual os afetos permanecem. O interessante é que, se um fotógrafo apela à crônica, talvez as imagens não necessariamente valham mais que mil palavras.
Enquanto busca fixar o tempo, o cronista, inevitavelmente, compara a sua própria época com a do filho. Os conflitos decorrentes das diferenças geracionais estão entre as melhores possibilidades na crônica de pais e filhos. Algumas coisas são realmente melhores hoje (o cronista cita o bullying, felizmente não mais aceito).
Há, pois, as memórias do próprio Leo quando criança, confrontadas com as que está construindo com seu filho. Em um movimento muito natural, o filho olha para frente, e o pai olha no retrovisor. Há reflexões variadas sobre aquilo que se perde com o crescimento, mas também aquilo que se mantém apesar do tempo.
Chega-se ao período da adolescência, quando o pai deixa de ser o herói do filho e se torna, como diz o cronista, um zé-ruela. Mas é sempre com afeto que Leo olha para essa relação, sabendo que também não pode impedir a frustração dos filhos (o que ele também tematiza, assim como os pais que tentam terceirizar a criação).
Também é muito significativo que, além de falar do filho, Leo use essas crônicas para falar do pai, diagnosticado com Alzheimer. De certa forma, o que ele faz com esses textos é juntar as pontas da vida, enquanto tenta captar alguns instantes de beleza e aproveitar o que existe de bom antes que o tempo passe e tudo se perca.
Tudo isso é narrado em meio a episódios simples do dia a dia (o próprio cronista brinca que é o “Capitão Cotidiano”, um super-herói doméstico), normalmente com tom de autoironia, pois uma das graças da crônica é quando o cronista se dá mal. Certas frases ou desfechos podem parecer “fáceis”, mas a leitura é muito válida.