Hello, Brasil! Livro escrito pelo psicanalista e colunista Contardo Calligaris na virada dos anos 80/90, quando estava mudando de sua terra, Itália, depois de ter morado na França e Suiça; publicação reeditada e atualizada agora.
Calligaris diz que hoje não teria condições de escrever esse livro, agora se sente um brasileiro e não consegue ver o país com olhar estrangeiro, como diz Nietzsche: “Para saber qual o prédio mais alto é preciso se afastar da cidade”.
O livro é extremamente esclarecedor e traz visões muito interessantes sobre o Brasil. Vai além das inúmeras teorias que cada cidadão tem, desde não ter frio, não ter passado por guerra.. escreva aqui a sua teoria (………).
Como é de sua profissão ele faz uma “análise”, no sentido psicanalítico, muito interessante, tendo dezenas de conclusões que se somam e pode-se dizer que não mudou nada nessas quase três décadas, só ampliou.
Gosto muito de análise do comportamento humano, mas meus conhecimentos de psicologia não vão além do senso comum, então posso falar muita bobagem aqui, mas vamos lá: Grotescamente falando buscamos reconhecimento e vivemos em eterno conflito com as figuras dos pais, falar da representação da mãe e do pai complica, pois é muito mais complexo que eu, leigo, acho que entendo.
Então o livro é muito baseado nisso, reconhecimento e as figuras assumidas pela Pátria ( A etimologia de pátria nos leva “pater”, “pai”) e desejos reprimidos e busca de prazer. O autor baseia muito da análise em duas figuras; o colonizador e o colono, o primeiro como aquele que busca apenas a exploração dos recursos, ou prazer ao máximo sem se preocupar com os danos causados, pois não pretende plantar raízes no local que explora. Já o colono, como figura que busca o reconhecimento na nova terra que não encontrou na sua Pátria anterior.
“Esse país não presta”, foi o que mais o autor ouviu ao anunciar que trocaria a Europa pelo Brasil. E fala da vergonha e orgulho, ao mesmo tempo, da corrupção, malandragem e do jeitinho brasileiro. Uma espécie de medo da cura como se a doença também fosse uma virtude.
Colocarei muitos fragmentos de anotações que fiz nas páginas: Calligaris fala muito da figura do colono que busca a imagem da terra mãe como uma fantasia, existe o esforço de conseguir o passaporte dela, mas pouquíssimo esforço em aprender a língua a história e a atualidade desse local. Como o órfão que quer a certidão de nascimento completa, mas não o convívio de quem o abandonou.
Muitas vezes se diz, - estou buscando a cidadania sem especificar de qual país, pois no esteriótipo do “colono” existe a carência de reconhecimento como cidadão, não existe o sentimento de pertencer a um lugar.
Outra característica do brasileiro é o “atirar para todos lados”, sem se ater a um único dogma, seja em religião, linha de pensamento, técnica profissional, mas sempre com o objetivo de assimilar as partes mais convenientes. Não que se deva buscar a rigidez de uma técnica, mas todas as técnicas estudadas devem ser feitas de modo completo. Aqui se cria a velha desculpa de ser eclético, flexível, que na verdade se resume a ser disforme, algo flexível tem forma clara, se ajusta as circunstâncias, mas tem uma forma definida no seu estado original.
A corrupção é status, é demonstração de poder, quanto mais corrupto maior a demonstração de poder, então, de alguma forma, no Brasil, alguns admiram e respeitam corruptos. Lembrando que essa é uma análise psicanalítica do autor, onde muitas manifestações são inconscientes e negadas conscientemente.
Educação é meio, a solução é mais em baixo e o conceito de cultura não é conhecimento de indivíduos e sim registros e historias de uma nação, seja literatura, lendas ou receita de culinária, histórias de cidades, lugares. Infelizmente nossa historia é “re”-escrita em curtos espaços de tempo, desde a proclamação da república (ou golpe militar), nossa história é apagada e re-escrita num intervalo médio de 20 anos.
Crianças — O autor ficou espantado em suas primeiras recepções que fez em sua casa, quando inúmeros convidados traziam crianças, coisa incomum na Europa, e quando se faz por lá é mencionado junto com explicações do motivo. Aqui no Brasil existe uma fantasia de que as crianças serão tudo que os pais não conseguiram conquistar, são uma versão fantasiosa de melhoria e esperança dos pais. O autor já comentou, na sua coluna semanal do jornal Folha de SP, inúmeras vezes, a idolatria da infância no Brasil, seja na falta de controle sobre crianças, como no de não se assumir como adulto em muito marmanjo(a)s por ai.
A falta de respeito, ou interesse, às regras, aqui se fala das teorias e técnicas psicanalíticas, onde o autor dava palestras sobre autores (ele conviveu com Lacan e Foucault), consagrados e também de suas teorias já estabelecidas, e as mesmas eram adaptadas e plagiadas sem o mínimo de vergonha, ou mesmo de percepção da cópia. Como se o fato de pagar por uma palestra, ou livro, da direitos irrestrito de usá-las como se fosse próprio. E também o sincretismo cultural, pega-se uma parte conveniente de cada cultura e cria-se o seu pensamento, como se a colagem de diversos itens gerassem algo original ou particular. Assim vejo muito da formação religiosa de muitos brasileiros, pega-se a religião básica, digamos a católica, acrescenta-se um pouco de espiritismo, uma pitada de budismo e um tanto de fantasia e cria-se uma nova religião, mesmo que as partes sejam de dogmas conflitantes.
A prevalência do nome em relação ao sobrenome, talvez por eu ter sido criado em região de alemães, onde se pergunta o sobrenome antes, eu não tenha percebido isso mais cedo, mas realmente esse fenômeno de inventar nomes, buscar nomes estrangeiros, ou mesmo usar sobrenomes como nome próprio. E chegar o usar o “Junior” para nomes diferentes entre filho e pai. Isso de alguma forma é refundar o indivíduo, “des-ligar” ele, talvez de uma herança não desejada da história dos pais, resetar o passado e criar uma nova história. E essas rupturas e recomeços reflitam na falta de “cultura”, de continuidade, criando fragmentos sem uma linha mestra.
O ressentimento, como a penalização do outro que tem algo que eu não tenho, seja pelo esforço dele ou a falta do meu. O ladrão que prefere o risco de um roubo a mão armada do que o furto que pode render mais. Calligaris fala de como na Europa crimes acontecem, mas na maioria as escondidadas, sem o confronto entre o criminoso e a vítima (custo/benefício), já no Brasil existe o desejo inconsciente do criminoso de subjugar sua vítima, de se impor diante do prazer que o objeto roubado poderia causar a vítima.
O consumo como status, o autor fala de como se impressionou, nos primeiros tempos, do desperdício; de numa mesa de bar, quando um copo de cerveja ficava quente, pedia-se uma nova garrafa gelada e jogava-se o líquido fora, enquanto um europeu pediria para colocar o copo na geladeira por um tempo, algo “vergonhoso” aqui. Isso iluminou muito meu pensamento e compreensão do consumismo brasileiro, não pelo desejo de ter algo, mas de mostrar que pode trocar frequentemente de roupas e objetos, até desperdiçar, só pelo status. E pensando bem, vejo o desperdício como um vício brasileiro. Lembrando uma história contada por uma pessoas que ouviu uma funcionaria falando de sua patroa: -Olha só essa calça velha, a maioria das roupas da fulana são do tempo que comecei a trabalhar aqui.
Também naquela época, eu morei em PoA no mesmo período, a placa de indicação mais conhecida da cidade não era de nenhum ponto turístico e sim da famosa “O Iguatemi é por aqui”. Ter um shopping é bem mais interessante do que ter uma praça, museu ou parque conhecido para os brasileiros.
No Brasil a vida não vale tanto assim, visto a falta de investimento em segurança, serviços de socorro, trânsito, valores de seguros, tudo relacionado a saúde, manutenção e prevenção da vida. Frase do autor: “Aqui a vida é medíocre porque a vida é barata”.
O atender telefone.. na Europa — Aqui quem fala é fulano e gostaria de falar com o Beltrano, ele está? No Brasil — Alô DE ONDE FALA? Isso demonstra bem o caráter invasivo do brasileiro, o que muitos chamam de frieza no europeu (quando falo europeu, coloco a posição do autor que é de lá, mas pode ser de outros locais) pode-se chamar de respeito a individualidade, já quando se fala que brasileiro é um povo caloroso, quente, normalmente é dizer que é invasivo, beijos, abraços, invasão de espaço e privacidade sem conhecer e saber se a pessoa aceita esse comportamento.
Calligaris, na época, fica impressionado com a quantidade de meninas de 10 anos vestidas e pintadas como sex simbols, só depois descobre o fenômeno Xuxa, e como psicanalista desvenda o segredo do sucesso da apresentadora. Na verdade ela fazia sucesso com os adultos e as meninas procuravam imitá-la para ter a atenção do pai e os meninos a cultuavam como desejo possível diante também do pai (Freud, Lacan e outros devem explicar.. ou não..). Sempre achei estranho isso, no Brasil normalmente apresentadoras infantis passam da “vida loka” para programas matutinos, nos EUA é o contrário, de infantil pra vida loka, vide Britney Spears, Lindsay Lohan e outras que meu conhecimento não alcança.
Aqui vem um nó psicanalítico, que diz; os ideais das crianças nunca são os pais, mas sim os “ideais” dos pais, então como imigrantes, nossos ideais não são os países de origem e sim seus ideais, confuso? Para mim faz sentido, acabamos criando fantasias europeias, asiáticas, africanas, falo aqui das mais comuns no Brasil. Esquecemos que alguém migrou em busca de algo melhor, pois onde estava, não estava bom, excluindo os escravos que foram forçados a sair.
O livro vai muito além do pouco descrito aqui, falo das partes que mais me chamam a atenção e das que compreendo, mesmo que ao meu modo. Aconselho a leitura, para mim um banho de água fria em algumas esperanças, nem com remédios de tarja preta (vermelha ou verde oliva para outros), se resolve, mas prefiro conhecer o terreno que piso do que me iludir em devaneios ufanistas.
Cada vez mais acredito que somos um povo estético, queremos parecer cultos, sábios, espertos, modernos, bacanas, ricos, bonitos, “sexies”, mas sem nenhum esforço. Queremos “estar” em vez de ser, parecer em vez de realmente sermos, tanto é que temos um verbo para ser e estar, enquanto no inglês só existe um o “to be”. Enquanto quisermos parecer uma nação somente por uma seleção de futebol ou algum ganhador de medalha, de um esporte que nem conhecemos, e no dia seguinte vamos parecer o maior entendido desse assunto, enquanto tivermos opinião, sem embasamento, para tudo, seremos um país somente de aparências, um dos maiores consumidores de modas, artigos de beleza, redes sociais, cirurgias plásticas e ficaremos aguardando nosso Nobel de alguma coisa.