Há pouco mais de um século, no final do ano de 1904, o Brasil vivia uma crise social e sanitária. Enquanto o país tentava se ajustar à recente mudança de sistema de governo, de Império para República, proliferavam-se as moléstias causadas pelo saneamento precário, e por mosquitos e ratos, como a varíola, a febre amarela e a peste bubônica. O epicentro da crise era a então Capital Federal do país, a cidade do Rio de Janeiro, em que essa crise social se transfigurava em uma crise urbanística. O Rio era uma cidade caótica, de urbanização colonial, despreparada para comportar a própria população, que crescia cada vez mais. Além de destino de emigrantes de todas as partes do país e do mundo, no alvoroço de seu ambiente social coabitavam os herdeiros da escravidão, recém-libertos, e uma elite que buscava repelir toda a cultura não dominante, ou seja, dos pobres e de matriz africana. Nada que não tenha persistido – ou se intensificado – com a passagem do século. A solução encontrada para a crise urbanística foi uma reforma geral na cidade, em que os moradores de cortiços foram escorraçados para os morros da cidade. A solução para a epidemia foi a vacina compulsória, idealização do sanitarista Oswaldo Cruz, o que gerou uma revolta na população.
Sendo bem sincerona? A parte final - que na verdade é um conteúdo extra sobre história, com um linguajar estilo livro escolar mesmo - foi mais interessante do que a própria história da graphic novel.
Uma boa história com pano de fundo histórico passado na cidade do Rio de Janeiro do Bota Abaixo de Pereira Passos. A arte em estilo cordel é muito boa.
Na minha época de colégio, tive poucas aulas de História do Brasil, pois a professora estava preocupada em nos ensinar outras questões relevantes, em especial política, sociologia e economia. Não conhecia muito da Revolta da Vacina, sabia somente que Oswaldo Cruz era um dos responsáveis pela vacinação obrigatória, e foi interessante ver como a história se repete nos tempos atuais, com pessoas lutando contra a ciência, políticos aproveitando doenças para espalhar a sua agenda "desenvolvimentista", os pobres sendo empurrados para longe das vistas do "progresso", os militares usando as doenças e as discussões sociais para tentar um golpe de estado... Gostei da arte feita pelo André Diniz, que remete aos desenhos dos cordéis. Também foi muito legal a retrospectiva dos cartuns e charges da época, que transformam a edição quase em um documento que registra parte esquecida da nossa História. No entanto, achei muito fraco o conflito humano central do livro, com um rapaz que vai para a capital do país tentar vencer na vida para conquistar o orgulho do pai. Foi uma trama um pouco óbvia que acabou enfraquecendo o contexto político em que a narrativa se passa. Mas, ainda assim, mais ganhos na leitura - e na belíssima edição da Darkside - do que decepções.
Gostei bem mais do que imaginava, achei muito interessante o paralelo que o autor faz da crescente insatisfação com as medidas do governo e a frustração que o personagem principal tem com a sua própria vida. Eu não sou uma leitora ávida de quadrinhos, mas achei super acessível. O posfácio e as charges acrescentam contexto a história e como sempre a edição da Darkside está impecável.
Vale o Investimento. Essa HQ tem uma dobradinha de sucesso, o artista André Diniz, com seu traço refinado e incrível e a edição da Darkside com todos os requintes que a obra merece: capadura, posfácio do historiador Luiz Antonio Simas e uma coleção de charges históricas que ilustravam os jornais da época. Mais detalhes em resenha no Papo de Quadrinho.
Eu adoro essas ilustrações estilo cordel. A história em si eu não curti muito e o protagonista me gerou certa antipatia. Mas a edição da Darkside é simplesmente divina, trazendo um posfácio maravilhoso e charges que circularam em jornais e revistas da época, o que achei incrível. Para além disso, é inevitável não tecer comparações entre a época na qual se passa a história e os dias atuais. É necessário (sempre) combater a desinformação.
Publiquei esta resenha no Jornal da Cidade (Poços de Caldas/MG) em 10 de julho de 2021:
Esta graphic novel foi lançada num momento muito oportuno, algo que a editora Darkside fez questão de ressaltar na contracapa. A Revolta da Vacina ocorreu em 1904, no Rio de Janeiro, e já foi tema de ao menos um ótimo romance: Sonhos Tropicais, de Moacyr Scliar, lançado em 1992 e vencedor do prêmio Jabuti em 1993. Ressoa agora na pandemia da Covid-19, com a diferença de que à época a população era desinformada e premida por políticas de gentrificação de gestores elitistas e racistas, como muito bem explana o excelente posfácio desta história em quadrinhos, escrito pelo historiador Luiz Antônio Simas. Agora, como bem sabemos, os anti-vaxxers, os celerados obscurantistas de extrema direita que fazem campanha contra vacinas chegam a influir nas decisões de um presidente neofascista e genocida, que delas desdenhou não por falta de informação, hoje abundante, mas pela fé (não há outra palavra) na mentira e nas notícias falsas. O resultado está aí: um massacre com mais de meio milhão de mortos. Cuidem-se, quem sabe não sobrevivemos para ver o quadrinista André Diniz ganhar os prêmios HQ Mix e Angelo Agostini (as grandes premiações dos quadrinhos brasileiros) de melhor HQ de 2021 por esta obra? Potencial há. Diniz lança mão de um expediente semelhante ao de Scliar: o período logo anterior à Revolta da Vacina, sua eclosão e consequências são pano de fundo para a ficção, mas o drama aqui não é o do sanitarista Oswaldo Cruz, mas sim de um aspirante a caricaturista, Zelito, recém-chegado do Ceará para trabalhar na imprensa carioca. A tensão não é só política e social, há uma trama familiar e amorosa que retorce seu caráter e leva-o (e ao leitor) a rumos imprevistos. O traço de Diniz é facilmente reconhecível e bastante pessoal, mas não deixo de pensar que deva ter ao menos alguma influência de Jô Oliveira. Aliás, o caráter algo pedagógico da obra (poderia e deveria ser adotada por escolas, talvez até seja a intenção dos editores), reforçado pela seleção de cartuns da época num apêndice após o posfácio, me faz lembrar da HQ Hans Standen, um Aventureiro no Novo Mundo, de Oliveira. A diferença primordial é que este procurava ser didático, o que levava a diálogos artificiais e uma narrativa que procurava ser fiel aos registros de Standen, um dos primeiros viajantes a aportar no Brasil, enquanto Diniz constrói uma narrativa robusta, com personagens com profundeza psicológica. Daniel Souza Luz é jornalista, revisor, professor e escritor
Rio de Janeiro, Brasil, 1904. A então capital federal do Brasil era uma cidade onde acontecia uma tragédia sanitária. Milhares de pessoas morriam a cada ano de peste bubônica, varíola, dengue e febre amarela. Nações estrangeiras, basicamente europeias, chegaram a proibir que seus navios ancorassem no Rio de Janeiro em função do alto número de marinheiros que retornavam doentes depois de perambular pelas ruas, bares e bordeis na então capital do Brasil. Para fazer frente a essa situação, o presidente do Brasil, Rodrigues Alves (1848/1919), deu carta branca ao prefeito do Rio, Pereira Passos (1836/1913). Inspirado nas reformas feitas anos antes na cidade de Paris, o prefeito, assessorado pelo pioneiro sanitarista, médico, epidemiologista e infectologista Oswaldo Cruz (1872/1917), iniciou uma política de “higienização” que incluía planejamento urbano, abertura de largas avenidas, construção de infraestrutura de esgotos, eliminação dos cortiços e vacinação obrigatória da população. O problema é que estas medidas foram tomadas “de cima para baixo”, de forma autoritária e elitista, sem qualquer tipo de orientação ou auxílio à população do Rio de Janeiro. Privadas de suas moradias, sem destino em função dos despejos e obrigadas a submeter-se a uma vacinação cujo sentido e, ou utilidade desconheciam, milhares de pessoas oriundas da população mais desfavorecida, revoltaram-se e protagonizaram a célebre “Revolta da Vacina” que deixou um triste legado de mais de duzentos mortos e milhares de feridos. Foi nesse polêmico episódio de nossa história em que o premiado ilustrador e roteirista carioca André Diniz, nascido em 1975, ambientou a sua graphic novel “A Revolta da Vacina”. Ilustrada com esmero com desenhos quase “impressionistas”, a graphic novel conta a história de Zelito, um jovem candidato a ilustrador. Nascido no Ceará, o jovem, sonhando com um emprego num jornal que reconhecesse o seu talento, se desloca ao Rio de Janeiro, justamente no contexto que gerou a “Revolta da Vacina” em que ele acaba se envolvendo. Mais um belo e bem editado trabalho a cargo da editora “Darkside” que conta, também, com um belo texto sobre a Revolta da Vacina a cargo do historiador, escritor e professor Luiz Antônio Simas e com uma ótima seleção de charges sobre a Revolta da Vacina feitas no “calor da hora”. Excelente!
The end of the 19th century and the beginning of the 20th was very busy in Brazil with the newly proclaimed Republic and political instability. At the time the story takes place, Rio de Janeiro was the capital of the country and it is in Rio that much of the story will take place. Zelito, the main character, leaves the Northeast with the dream of becoming an illustrator and he arrives in the context of the reforms of Pereira Passos, the mayor of Rio at the time. There was demolition of tenements and the expulsion of the poorest population from the center of the city, causing the hills around the city to be occupied.
And besides all this, a sanitary reform was going on to fight the black plague, yellow fever and smallpox, which coincidentally was the one that killed the most foreigners and this was not good for the image that the government wanted to convey abroad. The Instituto Seroterapico Federal (currently Fiocruz) was created and was under the responsibility of Oswaldo Cruz, a scientist, public health doctor and epidemiologist who was responsible for the mandatory vaccination measure for the population. The working class suffered the most from urban reforms, home invasions, authoritarianism and truculence. There was no campaign to explain and raise awareness among the population about viruses, which was still a new concept (they were discovered only in 1892 and electron microscopes in 1942) and this caused a strong anti-vaccination current to grow in various sectors of the population.
On November 11, 1904, people took to the streets of Rio in protest against mandatory vaccination, which added to discontent with the government. The army was called in and the business got ugly and there were deaths of militants and also deportation to forced labor camps in Acre. As a result, the vaccine requirement was suspended.
I loved the timing of @darksidebooks when republishing this comic, which underwent some changes in its relaunch, you can find the first publication with the name "Z de Zelito" from 2013. In fact, the focus of the comic is Zelito and how he will end up in the revolt, and the conflict is just a backdrop. The comic is very cool, super different art with a great text and historical context.
Leitura super agradável e rápida, afinal, são mais imagens do que texto em si. O posfácio nos leva a uma viagem histórica e contexto da época. Em alguns momentos senti raiva do personagem principal, Zelito, precisei me lembrar a todo momento a época e o ambiente em que ele cresceu para entender o porquê de ele ser como é. No mais, adorei as artes, o conteúdo rico do livro e as charges da época que dão um tom histórico ao quadrinho! Recomendo muito a leitura!
Fiquei surpresa que tinha uma história e não só algo não-ficcional. Porém, não é um personagem amável. Toda a construção da história combina com o tom de revolta e caos da história. No geral, podia ser um pouco mais extenso e explorar mais o personagem, porque algumas coisas ficaram meio atropeladas.
O ano é 1904, mas não é difícil fazermos um certo paralelismo com o mundo da actualidade... Se bem que, ficamos a saber quando chegamos ao fim da história, esta revolta da vacina no Rio de Janeiro do início do século XX teve como motivação um golpe de Estado. Gosto sempre de ler um livro novo de André Diniz. E este não foi excepção.
Quando foi que descobriram uma máquina do tempo e jogaram toda a humanidade nela? Essa é a sensação que eu tive ao ler essa historia.. dizem por aí que o passado ruim tem que ser lembrado para não ser repetido, parece que a lembrança anda em falta pelo nosso Brasil, então vamos lembrar?
Roselito é um jovem adolescente/jovem adulto chatão demais, se acha é o "bambambam". Quer obrigar os outros a fazerem o que ele quer, é arrogante, não pede desculpa e acha que pode falar e fazer o que bem quiser. Esse personagem me deu raiva e preguiça. Ele é tão chato e tão possível de existir na vida real ou ter existido que já fico "ressabiada" se conhecer alguém como ele kkkkkkkk. Amei as charges colocada no fim do livro sobre a Revolta da Vacina, uma forma de ver o olhar de ilustradores da época sobre o acontecido. Sobre o traço da HQ, achei diferente dos que já li, gostei. Gostei do final de Roselito, achei foi até pouco pra esse chato 😂😂😂😂😂😂 Apaixonada por essa capa da DarkSide.
Apesar do título e de estarmos a viver uma pandemia em que o tema da vacina é um assunto quente, este livro não trata directamente do COVID-19, mas da pandemia da varíola no início do século XX no Rio de Janeiro. Será que a história se repete?
A história
Com a morte do irmão, resta a Zelito tentar prosperar e fazer o pai orgulhoso. Convicto de tal possibilidade, faz uma aposta com o pai onde promete que em seis meses no Rio de Janeiro se tornará num artista famoso e digno do orgulho familiar. Rumando à grande cidade, descobre uma existência bastante diferente da imaginada. Sem rendimentos, sem contactos e sem o nível de desenho necessário, Zelito consegue finalmente um emprego como ajudante num jornal, achando que desta forma ganhará a visibilidade de que necessita.
Paralelamente, no Rio de Janeiro, existe uma pandemia de varíola que não parece desacelerar, com vários mortos. As autoridades tentam impor a vacina como forma de controlo, obrigando à apresentação do comprovativo para a matrícula nas escolas, obtenção de empregos, entre outros. Esta obrigatoriedade gera receios crescentes, que se vão tornando em revolta popular, principalmente quando alguns tentam usar estes receios em vantagem de uma agenda política.
Entre as aspirações pessoais e a pandemia, Zelito vai-se transformando numa personagem cada vez mais instável. O seu feitio orgulhoso e o temperamento fazem com que vá desperdiçando as poucas oportunidades que se lhe apresentam, ao procurar, de forma pouco adequada, algo mais.
Crítica
André Diniz usou personagens e factos históricos para criar uma narrativa que é muito actual. Um século depois da Revolta da Vacina podemos ver os mesmos debates e as mesmas preocupações, bem como uma semelhante manipulação social e política. A ignorância da população volta a ser usada para contrapor os benefícios da ciência, provocando mortes e doenças desnecessárias.
De forma a não apresentar apenas a Revolta da Vacina, a história é contada na perspectiva de uma personagem que se encontra no Rio de Janeiro na época. Isto permite, também, explorar outros conflitos mais pessoais. Esta personagem é, no entanto, conflituosa ou mesmo desagradável. Tem óbvios problemas em perceber o que é essencial num relacionamento e em progredir em termos pessoais e profissionais. Mas a forma em que nos é apresentada não origina empatia por parte do leitor.
Em termos visuais, A Revolta da Vacina apresenta o estilo habitual de André Diniz, a preto e branco, com personagens esquematizadas e sem grandes indicadores de localizadores de acção. Ainda assim, funciona bem com a narrativa.
Conclusão
Este trabalho de André Diniz confronta o passado com o presente, recordando que alguns eventos se repetem muitas décadas depois. Esta confrontação é, também, uma forma de falar da pandemia actual e de como é usada para fins políticos.
Gostoso de ler em um dia e se informar sobre essa revolta "estranha" que tivemos na nossa História brasileira, que, sem nenhuma novidade nesse país, aconteceu por conta do descaso social com a população mais pobre e, principalmente, contra o negro, por conta da mentalidade de eugenia da época. Além disso, um fato que não sabia antes de ler esse livro foi a tentativa de golpe pela estabilidade social presente da ex-capital do país, o Rio de Janeiro. O traço das ilustrações são muito bons, me lembrando das ilustrações dos livros de cordel, e a narrativa criada pelo André, mesmo que banal, é agradável de acompanhar. O posfácio tem um pequeno recorte sobre a história dessa revolta escrito pelo historiador Luiz Antônio Simas, que falaram sobre a higienização não apenas como forma de reformar a capital, mas também fruto de interessantes socioeconômicos. Ainda há um material excelente de charges publicadas na época de 1904 sobre a revolta e sobre a imagem que o povo tinha da vacinação, das reformas higienista e de Oswaldo Cruz. É sempre necessário lembrar essa História, e a Darkside fez bem ao lançar esse livro nesses tempos de pandemia, porque, mesmo as condições daquela época serem bastante diferentes, ainda há quem diga que vacinas são mais maléficas que benéficas. A diferença, entres outras coisas, é que antes não se tinha informação. Hoje, ser contra a vacinação é só crueldade e egoísmo. Fique em casa e, quando for a hora, vacine-se.