“Uma mulher que prepara o pequeno almoço. A mesa posta, o pão, o café, a fruta, o leite.” Assim se inicia o posfácio do novo livro de Francisca Camelo, por Marília Garcia.
A Importância do Pequeno-almoço é um livro de poesia, lançado pela chancela da editora Fresca, ancorado nos elementos fundamentais da existência de uma mulher no dia a dia, questionando os processos de produção e sustento de uma sociedade que depende do trabalho invisível dessa mesma mulher.
eu sei que não é assim que devia ser outra coisa menos bruta-dura-mal- educada, tu dizes:
devias aprender a conversar com os meus silêncios
não saberás mas há uma eternidade que esperto dar-te o que nunca recebi
diz-se que o amor não espera e que se esperarmos não será amor
assim como assim vou ficando por mim lambo o que posso quando chove alguma esperança e sonhos que me caem na boca estrelas distraídas na aterragem mas o céu não cai assim, é o que dizem, o céu segura-se em fios de forças invisíveis
concluo com tudo isto que devia ter lido mais sobre o cosmos para eventualmente dar vida àquilo a que chamam mistério da fé glória a vós, senhor é isso que gostarias de ouvir?
eu sei, não fales mais
eu sei que não é eu sei: não é assim.
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como cair: manual de instruções
o melhor elogio que já me fizeram foi depois de uma queda em que apesar de ter ido de frente ao asfalto sem tempo para preparar o tombo com as mãos a cara não tocou no chão e levantei-me miraculosamente Intacta that was the most graceful fall ever disse atrás de mim uma inglesa
impressionada com a precisão da minha auto-salvação o truque é não criar danos mas aterrar perto do chão o suficiente para que fique a dúvida
é algo que se treina: absorver os desastres prevenir a queda depois da ruptura de ligamentos olhar de frente o chão e ainda assim manter os dentes:
"let's just say if you were a cigarette i'd smoke you until my lips burst into flames."
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"não se vê a olho nu mas o pavio da vela divide-se em dois
eu queria ser pavio de vela mas ou ardo sozinha ou me extingo escuridão adentro."
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"A Importância do Pequeno-almoço" foi uma fiel testemunha da solidão. Foi um dos livros que escolhi como companhia durante uma fase de retiro (ausência, ascese, distanciamento físico, e por aí fora) e uma das melhores surpresas que viria a ter nessa mesma fase; o meu primeiro contacto com a autora deu-se há uns meses, com "O Quarto Rosa" (outro livro que me impressionou pela positiva, ainda que essa atracção se tenha apoiado noutras forças), e não sei se esperava um pendor de humanismo tão forte - digo humanismo, mas podia dizer feminismo ou consciência cívica e política - ou a incorporação de referências como as notas de texto (que, a meu ver, funcionam como autênticos alicerces da realidade: forma-se mesmo uma linha contínua onde notícias e dados factuais estabelecem um diálogo com o poema, passam a ser parte integrante uns dos outros). O resultado é uma colectânea de poemas onde parecem ecoar as vozes de tantas outras mulheres (poemas polifónicos, talvez): quando os leio e releio consigo imaginá-los a serem recitados, em simultâneo, por uma multidão que se reveja neles... que conheça o lado da vítima de assédio (verbal, físico), que conheça o lado do erotismo, que conheça o lado do amor maternal/protector, que conheça o lado das frustrações e das lutas diárias...
eu, que não sou a leitora mais assídua de poesia – apesar de trabalhar para isso – descobri a francisca camelo numa sessão de poesia do pedro lamares.
meu deus! como é que a poesia pode ser tão mais bonita sendo ouvida? (a partir desse dia comecei a ler poesia em voz alta) é tão mais fácil chegar até nós. pelo menos eu senti assim.
o “poema ao assédio” foi um dos poemas que me ficou na memória, então, aproveitei esta #primaverapoética para trazer este livro da poetria. foi uma boa escolha.
esta é uma coletânea de poemas feministas e é uma “análise distanciada do que é existir enquanto mulher”, nas suas múltiplas faces: na arte, na política, na vida, (n)o seu corpo, nas relações romântico-afetivas, no sentir.
é uma espécie de luta que se faz em conjunto, como mulher, mas que, também, se faz por todas aquelas mulheres que podíamos ter sido ou que podemos vir a ser: porque é uma luta diária esta de ser-se mulher, com todos os privilégios que nos diferenciam, mas com todas as dificuldades que nos aproximam.
a solidão é ultrapassada na compreensão desta união feminina, de partilha, empatia e informação: “estamos solas, mas estamos aqui”.
neste livro curto encontramos, para além de poesia na nossa língua portuguesa, alguns poemas em inglês. encontramos, também, referências a notícias, biografias e outras informações que motivaram a escrita de vários destes textos. e, quase sempre, epígrafes de outras obras feministas e no feminino, que servem, quem sabe, como referência a futuras leituras.
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livro lido para a iniciativa #primaverapoética da carolina @singularidade.dos.livros e da sofia @ensaiosobreodesassossego
"se tivesse músicas favoritas talvez fossem estas falta apenas a truth do kamasi washington não percebo nada de jazz mas qualquer coisa ali já me impediu de saltar umas quantas vezes um pouco como a poesia um pouco como algumas destas memórias."
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"os elefantes são dóceis, é um facto mas gravam nos olhos rotas de imigração: não removem nenhuma carcaça do caminho e a memória deles tal como a poesia será sempre a última coisa a morrer."
Tenho gostado de explorar a poesia da geração mais jovem, diferente daquela que vamos conhecendo, e gostei de me cruzar com a poesia da Francisca, que não conhecia. Senti que a poesia foi, aqui, usada como arma, como megafone para chamar a atenção para as dúvidas e os medos da autora, mas também para brincar com as palavras e mostrar que um poema nem sempre tem de ser sobre algo sublime ou inalcançável.
Uma poesia completamente diferente do que estou habituada. Gostei imenso. É bom ler livros escritos por mulheres a falar sobre mulheres. (Omg demorei um mês certinho)
O discurso ecoa em surdina: "não saias de casa sem tomar o pequeno-almoço", "o pequeno-almoço é a refeição mais importante", "qual foi o teu pequeno-almoço?". Foi a partir deste momento do nosso dia que a Francisca Camelo nos levou a refletir sobre o quanto esta tarefa é mais uma representação do posto social que nos foi atribuído à nascença e o que é isto de ser mulher.
Os seus poemas, tão reais, que parecem uma história versada, são-nos servidos passo a passo, como se fossemos, todos juntos, confecionar este grande pequeno-almoço: para alguns indigesto, porque coloca em evidência o patriarcado, o medo, a solidão, a diminuição, a violência, a necessidade que ainda temos de, enquanto mulheres, nos fazermos visíveis. E, aqui, faço uma pequena nota para referir o quanto adorei "Manifesto de Identidade".
Com uma escrita que oscila entre a ternura e a dureza, percebemos que há inúmeros momentos em que estamos sozinhas, mas que continuamos aqui, a resistir.
“de quem é o corpo se me lês em detalhe ao pequeno-almoço o manual masculino sabiamente pensado para viagens não ponderadas
de quem é o corpo se te vens indevidamente enquanto o meu útero desfeito em flores canta o prazer de se refazer todos os meses
de quem é o corpo se na minha arca de noé não houve nunca pombas que definam tempo de regresso a terra firma
de quem é o corpo se sabendo da deriva antecipas um terceiro corpo que não chegando já chegaria com direito a carta de despejo
de quem é o manual de quem é o discurso de quem é a viagem se por me calar à janela consinto que sejam as tuas invasões a definir o marco territorial do meu útero
e sobretudo de quem é o corte quem é aqui porta-estandarte se a diferença entre o que entra e o que fica depende somente da força com que a minha mão decide guardar um punhado de nozes.”
Desde sempre ouvi dizer que "o pequeno-almoço é a refeição mais importante do dia", mas raramente me perguntei: quem é que o preparou? Quem fez de mim, de nós, seres capazes de acção através da energia nutricional e emocional que nos foi fornecida? E o que dizer do trabalho feito para que se pudesse chegar ao momento quase-ritual do pequeno-almoço posto na mesa, fresco, vaporoso, pronto a ser devorado?
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só quem come o pequeno-almoço tem a boca demasiado cheia para perceber o fundamental:
é que sem elas [as mulheres] o mundo não chegaria sequer ao meio dia.
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falta dizer o que ninguém diz destas mulheres errantes �� que a solidão é o preço a pagar pela resistência: a errância está no adn como língua nativa às vezes seria mais fácil aprender a brincar às donas de casa ignorar o patriarca debaixo do tapete e os anelares encontrados debaixo da ponte (...) sabes, o que não se diz nunca sobre a errância é que quando se diz errância diz-se sobre tudo: liberdade.
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recalling that wait at the table, (you weren't there yet, life wasn't there yet, honey, this happened even before big bang
and sitting there, simply achieving this sense of being truly lost, that was at last the proof that someone created the world out of solitude, god was probably the loneliest man in the universe designing a lover of his own so he could wait for someone to dine with)
realizing i was simply there, just like before all the beginnings i knew the night would end up under the weight of a black hole:
Poesia no feminino, marcada por ser de uma mulher, sim, na primeira pessoa. Às vezes um pouco militante demais para o meu gosto. Mas com uma força lírica total e a capacidade de nos dar murros no estômago perante o que nos cerca sem o vermos. Poesia dura, dos gestos quotidianos e das interrogações interiores sobre as palavras, os gestos, as decisões. Poemas que se leem num repente e pedem releitura logo a seguir. Vejam por exemplo o poema com o título "nem todos os deuses": "deus não conforta deus não para o autocarro quando estou manca e preciso dessa viagem deus não responde de volta quando lhe chamo nomes nem ajuda a pagar a renda quando a conta da eletricidade é demasiado alta deus tem dívidas de jogo e não paga deus não prega uma rasteira àquele rapaz nojento que um dia na rua me tocou e fugiu deus não tem visto as notícias deus não presta satisfações e como quase todos os homens não sabe satisfazer e como quase todos os homens deus não presta mas não sabe."
En este poemario hay mucha rabia. Pero también hay canto, devenir, herencia. Estampas y grabados de una vida femenina, una vida que sobrevive al dolor de otras. La denuncia de Francisca Camelo por un mundo feminicida me lleva por momentos a las escenas de Chantal Akerman: aislamiento, invisibilidad, rutina.
El tiempo es relativo en ausencia de repetición. El pequeño almuerzo se convierte así en un ritual, pero también en una coordenada esencial. Conocer los días de mercado, calcular los días que necesita una fruta para madurar, llevar toda la compra hasta casa... detrás de todo esto está la poesía de Camelo.
Los poemas no son denuncia. Es la denuncia quien sirve al poema. Este pequeño regalo que me llevo de Oporto me lo deja claro. La mejor lucha es la que se hace sin esperanza. Y en el mundo de hoy, donde las mujeres mueren para que podamos creerlas, también se escribe para hablar de ellas.
A importância do pequeno almoço parece algo tão abstrato e aleatório e a Francisca conseguiu levar isso para como a mulher é vista e usada. Estranhamento fez sentido. Este livro reúne temas desde capitalismo, a assédio sexual, a amor, ódio, raiva, erotismo e muito feminismo. Acho que toda a gente devia ler isto.