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A Importância do Pequeno-Almoço

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“Uma mulher que prepara o pequeno almoço. A mesa posta, o pão, o café, a fruta, o leite.”
Assim se inicia o posfácio do novo livro de Francisca Camelo, por Marília Garcia.

A Importância do Pequeno-almoço é um livro de poesia, lançado pela chancela da editora Fresca, ancorado nos elementos fundamentais da existência de uma mulher no dia a dia, questionando os processos de produção e sustento de uma sociedade que depende do trabalho invisível dessa mesma mulher.

174 pages, Unknown Binding

Published January 1, 2020

About the author

Francisca Camelo

7 books19 followers

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Displaying 1 - 16 of 16 reviews
Profile Image for Paula Mota.
1,691 reviews576 followers
August 3, 2024
3,5*

juramento à lucidez

eu sei que não é assim
que devia ser outra coisa
menos bruta-dura-mal-
educada, tu dizes:

devias aprender
a conversar
com os meus silêncios


não saberás mas
há uma eternidade
que esperto dar-te
o que nunca recebi

diz-se que o amor não espera
e que se esperarmos não será amor

assim como assim
vou ficando por mim
lambo o que posso
quando chove alguma esperança
e sonhos que me caem na boca
estrelas distraídas na aterragem
mas o céu não cai assim,
é o que dizem,
o céu segura-se
em fios de forças invisíveis

concluo com tudo isto
que devia ter lido mais
sobre o cosmos
para eventualmente dar vida
àquilo a que chamam
mistério da fé
glória a vós, senhor
é isso que gostarias de ouvir?

eu sei,
não fales mais

eu sei que não é
eu sei:
não é assim.

*********************************

como cair: manual de instruções

o melhor elogio
que já me fizeram
foi depois de uma queda
em que apesar de ter ido
de frente ao asfalto
sem tempo para
preparar o tombo com as mãos
a cara não tocou no chão
e levantei-me
miraculosamente
Intacta
that was the most graceful fall ever
disse atrás de mim uma inglesa

impressionada com a precisão
da minha auto-salvação
o truque é não criar danos
mas aterrar perto do chão o suficiente
para que fique a dúvida

é algo que se treina:
absorver os desastres
prevenir a queda depois da ruptura de ligamentos
olhar de frente o chão
e ainda assim manter os dentes:

saber cair
é uma ciência

[Obrigada, Celeste!]
Profile Image for Paula  Abreu Silva.
392 reviews114 followers
March 29, 2022
"TRABALHO DE EDIÇÃO

hoje apanhei porrada
de um poema
consegui ler de rajada
algumas palavras
fósforo
estômago
solidão

a apanhar porrada
que fosse de um poema mais conceptual
estou cansada de pedradas metafóricas

mas é necessário
na poesia como no amor
algum trabalho de edição
corta, cose
(e como em tudo é o corte
o mais difícil)

cortamos para que doa
e simultaneamente
tem de doer no sítio certo para que se aprenda
o mapeamento da cirurgia

é tão difícil amar uma poeta, dizias-me
(já se sabe,
amores para toda a vida
serão sempre os mais trabalhosos)

mas não te esqueças, querido:
estás sempre a tempo
de começar a escrever short stories."
Profile Image for maciel.
153 reviews41 followers
Read
May 16, 2021
poesia portuguesa é 10/10. o resto do mundo nem sabe o que perde.
Profile Image for la poesie a fleur de peau.
508 reviews62 followers
November 3, 2021
"let's just say
if you were a cigarette
i'd smoke you
until my lips
burst
into flames."

***

"não se vê a olho nu
mas o pavio da vela
divide-se em dois

eu queria ser pavio de vela
mas ou ardo sozinha
ou me extingo escuridão
adentro."

***

"A Importância do Pequeno-almoço" foi uma fiel testemunha da solidão. Foi um dos livros que escolhi como companhia durante uma fase de retiro (ausência, ascese, distanciamento físico, e por aí fora) e uma das melhores surpresas que viria a ter nessa mesma fase; o meu primeiro contacto com a autora deu-se há uns meses, com "O Quarto Rosa" (outro livro que me impressionou pela positiva, ainda que essa atracção se tenha apoiado noutras forças), e não sei se esperava um pendor de humanismo tão forte - digo humanismo, mas podia dizer feminismo ou consciência cívica e política - ou a incorporação de referências como as notas de texto (que, a meu ver, funcionam como autênticos alicerces da realidade: forma-se mesmo uma linha contínua onde notícias e dados factuais estabelecem um diálogo com o poema, passam a ser parte integrante uns dos outros). O resultado é uma colectânea de poemas onde parecem ecoar as vozes de tantas outras mulheres (poemas polifónicos, talvez): quando os leio e releio consigo imaginá-los a serem recitados, em simultâneo, por uma multidão que se reveja neles... que conheça o lado da vítima de assédio (verbal, físico), que conheça o lado do erotismo, que conheça o lado do amor maternal/protector, que conheça o lado das frustrações e das lutas diárias...
Profile Image for Rafaela Perpétua.
250 reviews18 followers
May 15, 2023
eu, que não sou a leitora mais assídua de poesia – apesar de trabalhar para isso – descobri a francisca camelo numa sessão de poesia do pedro lamares.

meu deus! como é que a poesia pode ser tão mais bonita sendo ouvida? (a partir desse dia comecei a ler poesia em voz alta) é tão mais fácil chegar até nós. pelo menos eu senti assim.

o “poema ao assédio” foi um dos poemas que me ficou na memória, então, aproveitei esta #primaverapoética para trazer este livro da poetria. foi uma boa escolha.

esta é uma coletânea de poemas feministas e é uma “análise distanciada do que é existir enquanto mulher”, nas suas múltiplas faces: na arte, na política, na vida, (n)o seu corpo, nas relações romântico-afetivas, no sentir.

é uma espécie de luta que se faz em conjunto, como mulher, mas que, também, se faz por todas aquelas mulheres que podíamos ter sido ou que podemos vir a ser: porque é uma luta diária esta de ser-se mulher, com todos os privilégios que nos diferenciam, mas com todas as dificuldades que nos aproximam.

a solidão é ultrapassada na compreensão desta união feminina, de partilha, empatia e informação: “estamos solas, mas estamos aqui”.

neste livro curto encontramos, para além de poesia na nossa língua portuguesa, alguns poemas em inglês. encontramos, também, referências a notícias, biografias e outras informações que motivaram a escrita de vários destes textos. e, quase sempre, epígrafes de outras obras feministas e no feminino, que servem, quem sabe, como referência a futuras leituras.



livro lido para a iniciativa #primaverapoética da carolina @singularidade.dos.livros e da sofia @ensaiosobreodesassossego
Profile Image for R.
42 reviews
June 10, 2024
"se tivesse músicas favoritas
talvez fossem estas
falta apenas
a truth do kamasi washington
não percebo nada de jazz
mas qualquer coisa ali
já me impediu de saltar umas quantas vezes
um pouco como a poesia
um pouco
como algumas
destas memórias."

//

"os elefantes são dóceis, é um facto
mas gravam nos olhos rotas de imigração:
não removem nenhuma carcaça do caminho
e a memória deles
tal como a poesia
será sempre
a última coisa a morrer."
Profile Image for Sofia Costa Lima.
Author 4 books127 followers
Read
October 3, 2025
Tenho gostado de explorar a poesia da geração mais jovem, diferente daquela que vamos conhecendo, e gostei de me cruzar com a poesia da Francisca, que não conhecia. Senti que a poesia foi, aqui, usada como arma, como megafone para chamar a atenção para as dúvidas e os medos da autora, mas também para brincar com as palavras e mostrar que um poema nem sempre tem de ser sobre algo sublime ou inalcançável.
Profile Image for Matilde Inês.
13 reviews
April 20, 2023
Uma poesia completamente diferente do que estou habituada. Gostei imenso. É bom ler livros escritos por mulheres a falar sobre mulheres. (Omg demorei um mês certinho)
Profile Image for Andreia Morais.
462 reviews33 followers
Read
March 23, 2024
TW: Referência a Violação, Assédio, Morte, Violência, Mutilação Feminina; Linguagem Explícita

O discurso ecoa em surdina: "não saias de casa sem tomar o pequeno-almoço", "o pequeno-almoço é a refeição mais importante", "qual foi o teu pequeno-almoço?". Foi a partir deste momento do nosso dia que a Francisca Camelo nos levou a refletir sobre o quanto esta tarefa é mais uma representação do posto social que nos foi atribuído à nascença e o que é isto de ser mulher.

Os seus poemas, tão reais, que parecem uma história versada, são-nos servidos passo a passo, como se fossemos, todos juntos, confecionar este grande pequeno-almoço: para alguns indigesto, porque coloca em evidência o patriarcado, o medo, a solidão, a diminuição, a violência, a necessidade que ainda temos de, enquanto mulheres, nos fazermos visíveis. E, aqui, faço uma pequena nota para referir o quanto adorei "Manifesto de Identidade".

Com uma escrita que oscila entre a ternura e a dureza, percebemos que há inúmeros momentos em que estamos sozinhas, mas que continuamos aqui, a resistir.
Profile Image for MT.
201 reviews
June 8, 2021
“de quem é o corpo
se me lês em detalhe
ao pequeno-almoço
o manual masculino
sabiamente pensado para
viagens não ponderadas

de quem é o corpo
se te vens
indevidamente
enquanto o meu útero desfeito
em flores canta o prazer
de se refazer todos os meses

de quem é o corpo
se na minha arca de noé
não houve nunca pombas
que definam tempo de regresso
a terra firma

de quem é o corpo
se sabendo da deriva
antecipas um terceiro corpo
que não chegando já chegaria
com direito a carta de despejo

de quem é o manual
de quem é o discurso
de quem é a viagem
se por me calar à janela
consinto que sejam
as tuas invasões
a definir o marco territorial
do meu útero

e sobretudo
de quem é o corte
quem é aqui porta-estandarte
se a diferença entre
o que entra e o que fica
depende somente da força
com que a minha mão
decide guardar
um punhado de nozes.”
103 reviews16 followers
July 4, 2025
Desde sempre ouvi dizer que "o pequeno-almoço é a refeição mais importante do dia", mas raramente me perguntei: quem é que o preparou? Quem fez de mim, de nós, seres capazes de acção através da energia nutricional e emocional que nos foi fornecida? E o que dizer do trabalho feito para que se pudesse chegar ao momento quase-ritual do pequeno-almoço posto na mesa, fresco, vaporoso, pronto a ser devorado?

[...]

só quem come o pequeno-almoço
tem a boca demasiado cheia
para perceber o fundamental:

é que sem elas
[as mulheres]
o mundo não chegaria sequer
ao meio dia.

---

falta dizer o que
ninguém diz destas
mulheres errantes
�� que a solidão é o preço
a pagar pela resistência:
a errância
está no adn
como língua nativa
às vezes seria mais fácil
aprender a brincar às donas de casa
ignorar o patriarca debaixo do tapete
e os anelares encontrados
debaixo da ponte

(...)
sabes, o que não se diz
nunca sobre a errância
é que quando se diz errância
diz-se sobre tudo:
liberdade.


---

recalling that wait at the table,
(you weren't there yet, life
wasn't there yet, honey,
this happened
even before big bang

and sitting there, simply achieving this sense of being truly lost,
that was at last the proof that someone created the world out of solitude,
god was probably the loneliest man in the universe
designing a lover of his own so he could wait for someone to dine with)

realizing i was simply there, just like before all the beginnings
i knew the night would end up
under the weight of a black hole:

"not my home"
Profile Image for Joaquim Igreja.
123 reviews1 follower
November 23, 2024
Poesia no feminino, marcada por ser de uma mulher, sim, na primeira pessoa. Às vezes um pouco militante demais para o meu gosto. Mas com uma força lírica total e a capacidade de nos dar murros no estômago perante o que nos cerca sem o vermos. Poesia dura, dos gestos quotidianos e das interrogações interiores sobre as palavras, os gestos, as decisões. Poemas que se leem num repente e pedem releitura logo a seguir.
Vejam por exemplo o poema com o título "nem todos os deuses":
"deus não conforta
deus não para o autocarro
quando estou manca e preciso
dessa viagem
deus não responde de volta
quando lhe chamo nomes
nem ajuda a pagar a renda
quando a conta da eletricidade
é demasiado alta
deus tem dívidas de jogo
e não paga
deus não prega uma rasteira
àquele rapaz nojento
que um dia na rua
me tocou e fugiu
deus não tem visto as notícias
deus não presta satisfações
e como quase todos os homens
não sabe satisfazer
e como quase todos os homens
deus não presta
mas não sabe."
Profile Image for Yasmina.
72 reviews
October 19, 2021
En este poemario hay mucha rabia. Pero también hay canto, devenir, herencia. Estampas y grabados de una vida femenina, una vida que sobrevive al dolor de otras. La denuncia de Francisca Camelo por un mundo feminicida me lleva por momentos a las escenas de Chantal Akerman: aislamiento, invisibilidad, rutina.

El tiempo es relativo en ausencia de repetición. El pequeño almuerzo se convierte así en un ritual, pero también en una coordenada esencial. Conocer los días de mercado, calcular los días que necesita una fruta para madurar, llevar toda la compra hasta casa... detrás de todo esto está la poesía de Camelo.

Los poemas no son denuncia. Es la denuncia quien sirve al poema. Este pequeño regalo que me llevo de Oporto me lo deja claro. La mejor lucha es la que se hace sin esperanza. Y en el mundo de hoy, donde las mujeres mueren para que podamos creerlas, también se escribe para hablar de ellas.
Profile Image for Nonô ♡.
26 reviews1 follower
August 8, 2024
A importância do pequeno almoço parece algo tão abstrato e aleatório e a Francisca conseguiu levar isso para como a mulher é vista e usada. Estranhamento fez sentido. Este livro reúne temas desde capitalismo, a assédio sexual, a amor, ódio, raiva, erotismo e muito feminismo. Acho que toda a gente devia ler isto.
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