No século XIX deixamos de ser colônia de Portugal, mas seguimos sendo governados por monarcas. E o que aconteceu durante o Brasil Império? A professora da Universidade de São Paulo Miriam Dolhnikoff mostra como o Brasil forjou, naquele período, muito de sua identidade que ainda hoje permanece. Pois o país foi uma construção que resultou de disputas entre projetos e interesses diversos que se deram ao longo do século XIX. Proclamada em 1822, a independência marca o início de um longo processo: o da transformação da América portuguesa em uma nação, a construção política e social do Brasil. Continuidades, rupturas, mudanças parciais e outras mais profundas marcam a história da nação que começou a ser construída no início do século XIX.
Trata-se de um livro pequeno e que, portanto, jamais conseguiria abordar toda a história do Brasil Império. No entanto, eu recomendaria a obra por três motivos.
A autora parece ser a única que consegue explicar a diferença política que motivou o surgimento dos partidos Liberal e Conservador na década de 30 do século XIX. Com essa explicação, fica muito mais fácil entender as modificações legislativas que se seguiram desde que a Regência, sob o comando de Feijó, havia promulgado o Código de Processo Criminal, de 1932, e o Ato Adicional de 1834.
Além disso, é a única obra que eu li que explica o motivo da criação de um Gabinete da Conciliação, em 1853, sob a chefia de Honório Hermeto Carneiro Leão, o marquês do Paraná. É em seu gabinete que será aprovada a reforma eleitoral que vinha sendo discutida no Parlamento desde 1846, conhecida como Lei dos Círculos (1855). Dois aspectos cruciais que uniram Liberais e Conservadores moderados nesse período foram o voto distrital e a inelegibilidade de magistrados nos distritos onde exerciam jurisdição. Assim, durante o Império, foram aprovadas mudanças na legislação eleitoral em 1842, 1846, 1855, 1875 e 1885.
Por fim, essa é a única obra que explica com clareza por que Dom João VI decidiu invadir a Banda Oriental por duas vezes, em 1811 e 1816, anexando-a em 1821 como Província do Império, status que se manteria até sua independência em 1828, como República Oriental do Uruguai. Sua posição em relação às guerras platinas vai ao encontro da tese de Francisco Doratioto: a da consolidação dos Estados Nacionais na região. A participação do Brasil na Guerra Grande (1839-1851) contra Rosas e Oribe também é explicada de maneira bem clara em comparação a outros livros (inclusive os especializados no tema).
Isso não obstante, a autora equivoca-se, na minha opinião, ao identificar o gérmen da abolição da escravidão em uma das rebeliões do período regencial: a Revolta dos Malês (1935). Pelo fato de a rebelião ter sido conduzida por negros muçulmanos, não há que se falar em fim da escravidão, uma vez que os próprios negros muçulmanos eram a favor da escravização de não-muçulmanos. Vê-se que a condição para tanto não estava na raça, mas na lógica de povo conquistado – lógica essa que remonta ao século VIII e que, portanto, já estava presente na Península Ibérica dominada pelos mouros.
Um livro muito bem escrito e com bastante conteúdo a cerca do período do Brasil Império (1822-1889). A autora se destaca pela análise sóbria com que conduz sua narrativa, sem cair em simplificações ou generalizações que até estudiosos da área acabam cometendo.
Em 176 páginas nós conseguimos entender o complexo processo de independência do Brasil (que não foi algo inequívoco, mas uma dentre as muitas opções que se apresentavam à época) a construção da identidade nacional, a construção do Estado, revoltas internas, a complexa dinâmica política da época, as guerras externas e a proclamação da República. Para alguém que deseja ler um único livro para ter uma boa visão sobre o período imperial do Brasil, eu recomendo este sem dúvida alguma.