Caminhamos com os olhos ausentes
quando recordamos, não é já com a memória
mas com o seu futuro
Não tivesse escolhido o inferno
e estaria agora dentro da terra
uma casca morrendo de si própria
Sei que imagino a minha vida no altíssimo
nuvem elegante sempre branca
e renasço cada vez mais vezes
por tempo demasiado curto
Ouso e danço com a cabeça entreaberta
um pensamento de pássaros soltos
que se prendem na distância
Sou, no café do bairro, os pés certos na hora incerta
movimento-me na minha brutalidade honesta
cumprimento a mesma gente de febre viva nas axilas,
de corpos sentados soltando pasto e vida,
olhos secos de perfume
Que seria de mim sem esta calma de aprender
a disfarçar um rosto
se não me desfigurasse a cada gesto lúcido
com os braços abertos na manhã da minha vida
se não escrevesse estas palavras
que não servem para mais nada útil
que não seja um registro de sopro
Porque ov azio não se enche de peito
nem desta luz vertical que parte as janelas
nem do canto sagrado onde te descalças para ser
nem das outras coisas que se empoeiram
como navios em extremo
Eu não o preencho nunca
O meu vazio é a calma e a ordem da certeza
A minha carne pendurada na fachada do teu rosto
Um saco roto que carrego em divindade
Despejo-o repetidamente e ele a mim
Que assim nos mantenhamos sempre"
"estamos diante de uma iconografia, que busca a unidade do documento fotográfico, mas só encontra sua aura cósmica, realmente um impulso (violento) do universo. (do posfácio de ótavio campos)
não conhecia , e comprei por se tratar de uma mulher que fala da própria experiência com a loucura e os hospitais psiquiátricos, achando que conseguiria um diálogo com a minha pesquisa sobre alda merini. o que só seria possível se eu decidisse ressaltar o quão diferentes elas são. sampaio busca evidenciar o tanto que o "eu" está dissoluto, se volta para convenções que são inevitavelmente repensadas -- a mulher enquanto mulher, a loucura, as relações sociais, o estar no espaço (e aqui, me lembro muito das imagens do ozu: tudo o que resta de humano sem ninguém em cena), a relação com os objetos, drogas. "o que resta, junto da experiência psiquiátrica, é um resíduo do movimento." e os restos são muitos: do movimento, sim, mas também pedaços desse eu desfeito, urina, partes do corpo, fragmentos de momentos, enfim tanta coisa. e, nisso, uma visão de mundo singular.
o que podemos perceber é, na verdade, um registro de mundo ou de um descompasso entre o 'eu' e o 'mundo', pois, como no poema, cada um ocupa seu polo de sentido.
talvez algo semelhante entre a poeta portuguesa e a italiana seja o encarar da loucura como fonte de criação, porta aberta a tantos novos sentidos