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Solidão: notas do punho de uma mulher

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4ª ed.

Irene Lisboa foi uma escritora ousada nas suas propostas, como tal foi muitas vezes silenciada e remetida para um esquecimento revelador de uma profunda injustiça. A publicação das obras desta autora pela Editorial Presença, procura precisamente restituir o reconhecimento devido, a esta figura de relevo da literatura portuguesa. «Solidão II» é já o décimo volume e surge na sequência de «Solidão I», dois dos livros que Irene Lisboa considerou como os mais reveladores da sua intimidade. Uma intimidade revelada através do que nos conta de si na relação com o Outro e o Mundo, através da notação do banal, dos registos de paisagem e personagens e da tematização da solidão e da melancolia.

163 pages, Paperback

First published December 1, 1965

54 people want to read

About the author

Irene Lisboa

26 books8 followers
Por Paula Morão
«Irene Lisboa (n. Casal da Murzinheira, Arruda dos Vinhos, 1892; m. Lisboa, 1958), formada pela Escola Normal Primária de Lisboa, fez estudos de especialização na Bélgica, em França e na Suíça; foi professora do Ensino Infantil e depois Inspetora Orientadora desse grau de ensino, até ser afastada, primeiro para funções burocráticas, e depois definitivamente, por recusar um lugar em Braga (na prática, uma forma de exílio para uma pedagoga incómoda pelas suas ideias avançadas). Usou, entre outros de menor importância, o pseudónimo João Falco, que abandonou no início da década de quarenta. Ao longo da sua vasta obra, escreveu literatura para crianças e jovens, textos de pedagogia, crónicas e novelas centradas na descrição de quadros e personagens da vida comum, mas sempre dando passagem para o núcleo intimista e autobiográfico que unifica toda a obra, a começar pelos dois livros de poemas, de 36 e 37. Com as variações que os diferentes géneros implicam, pode dizer-se que o seu estilo é marcado pela oralidade e pela naturalidade, construídas como efeito retórico que rasura um aturado trabalho de escrita. Isto é desde logo visível nos livros para crianças e jovens, em que a oralidade, muito trabalhada, não se compadece com facilidades nem infantilismos, abordando as mais variadas temáticas de modo a que subjaz profunda informação pedagógica.

O estilo da autora de Solidão caracteriza-se por frases em geral curtas, apresentadas como fragmentos de diálogo ou de monólogo interior, ou então os textos parecem ser o registo imediatista de cenas vistas, mas a que as subtis intervenções críticas ou explicativas da voz narradora dão contornos de anotações fazendo-se ao ritmo da consciência. O próprio sistema de títulos e subtítulos dá indicações nesse sentido, ao usar termos como "apontamentos" e "notas", ou ao remeter para a matéria banal e insignificante; é o que sucede com o oxímoro o pouco e o muito, usado como título em 1956, ou com o verso de uma quadra popular que titula em 55 o livro para crianças Uma mão cheia de nada outra de coisa nenhuma. Junte-se a isto o uso do ritmo sincopado de um discurso cantabile, oralizante e próximo da corrente de consciência, em que o ato de contar é charneira entre o mundo e o eu; não lhe interessa definir exatamente o que escreve nem apresentar obra acabada, e por isso optou, primeiro, por provocatoriamente não distinguir verso e prosa ("Ao que vos parecer verso chamai verso e ao resto chamai prosa" é a abertura programática do livro de 1937), e mais tarde por publicar apenas crónica, conto ou novela – ou seja, géneros de cariz inacabado.[...]
http://cvc.instituto-camoes.pt/seculo...

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Displaying 1 - 4 of 4 reviews
Profile Image for Paula Mota.
1,678 reviews572 followers
April 15, 2021
Veio-me um desejo infantil de me livrar de mim mesma, de me esquecer de como vivo e de como sou, de deixar de me sentir o meu eterno centro e periferia...

Irene Lisboa sintetiza os seus sentimentos com tanta precisão e cria um ambiente tão melancólico, que a minha vontade é copiar para aqui todas as frases que marquei, que excedem decerto em número qualquer outro livro que eu tenha lido, mas sei que tenho de acrescentar algo. Antes de mais, dizer que Irene Lisboa é uma das muitas autoras esquecidas do século XX, apesar de ter escrito contos, poemas, novelas e crónicas e de ter sido elogiada por grandes vultos das letras como Jorge de Sena, João Gaspar Simões e José Régio.

Creio que não são as criaturas que individualmente me enervam, mas a sua comédia e os seus jogos de conjunto... No fundo, a J. sente tão bem como eu me sinto, esta grande e inconfortável secura em que se vive. Que se importa aquela gente com os nossos dramas? (...) Dor respeitável para o português é só a da fome. Esse é que é o drama que o compadece e o não afronta.

Estas notas que nos surgem pelo punho de Irene Lisboa são extremamente introspectivas, dando-nos uma profunda análise daquilo que ela observa, das conversas que tem, dos passeios que dá, mas revelam-nos muito pouco sobre a sua vida e sobre a identidade das pessoas com quem se dá, a quem geralmente se refere por iniciais. Sendo um texto de carácter diarístico, não parece ter sido redigido com o intuito de ser lido por outros, visto que não nos é dado o contexto das situações nem informação suficiente sobre as pessoas com quem se relaciona.

Só de pensar na perfeita indiferença, ou na perfeita serenidade, o coração se me aperta. Penso que será a antecipação da morte. Mas não é só este pensamento que me aflige. É também o medo de deixar de ser o que julgo ser. E ainda a desconfiança de que sou muito pouco, isso que sou... que a minha sensibilidade foi sempre pobre e desperdiçada!

A solidão que serve de título a este livro é palpável e opressiva. A autora não é uma solitária, visto que faz visitas a conhecidos, dá passeios com amigos e está muitas vezes na companhia das suas alunas, mas é quando chega a casa que a angústia se instala, porque é um espaço que está vazio.

É uma coisa pobre e de má tradução. Estou-me referindo à solidão e ao estado interiormente deprimido daqueles a quem tudo falta. O calor humano, a reciprocidade das relações, o interesse dos outros, a sua companhia! Esta solidão ninguém a tem chorado, talvez pelo seu aspecto mesquinho, de párias... Mas é mais comum do que se julga.

Outra das preocupações frequentes de Irene Lisboa é a escrita, desde os bloqueios criativos que a assolam até à dificuldade de publicar e à preferência pelo anonimato.

Na boca, parece-me que a sentia na boca, se me formou esta frase. Frase que adiantava uma ideia de frouxo contorno. Levanto-me, vou buscar tinta e volto com a frase, mas sem a memória da ideia. Eu gostava realmente de reter, de fixar impressões e os esboços de conceitos, que de momento a momento me agitam. Mas não é possível! A própria plástica de língua dificilmente os distingue, os individualiza.
Profile Image for Rosa Ramôa.
1,570 reviews84 followers
December 29, 2014
Amor

Aqueles olhos aproximam-se e passam.
Perplexos, cheios de funda luz,
doces e acerados, dominam-me.
Quem os diria tão ousados?
Tão humildes e tão imperiosos,
tão obstinados!
Como estão próximos os nossos ombros!
Defrontam-se e furtam-se,
negam toda a sua coragem.
De vez em quando,
esta minha mão,
que é uma espada e não defende nada,
move-se na órbita daqueles olhos,
fere-lhes a rota curta,
Poderosa e plácida.
Amor tão cheio de Amor,
Que sensível és…
Sensível e violento, apaixonado.
Sensível e violento, apaixonado.
Tão carregado de desejos!
Acalmas e redobras
e de ti renasces a toda a hora.
Cordeiro que se encabrita e se enfurece
e logo recai na branda impotência.
Canseira eterna!
Ou desespero, ou medo.
Fuga doida à posse, à dádiva.
Tanto bater de asas frementes
tanto grito e pena perdida…
E as tréguas, amor cobarde?
Cada vez mais longe,
mais longe e apetecidas.
Ó amor, amor,
que faremos nós de ti
e tu de nós?
Profile Image for Ero9uu.
2 reviews
April 11, 2023
"Fugir do desejo"
"Prisioneira da liberdade"
"Virgindade sentimental"
"(...)alguma vez o doce sentimento de nos bastar aquilo que recebemos na vida?
Não, porque esse sentimento deve ser apenas pressentido, apenas desejado, nunca perfeitamente conhecido(...)"

"Outros levam-me a estudar-me e a descobrir-me, é neles que me pretendi projetar e até reconhecer e entender"

"Têm me faltado com certeza, as paixões e os prazeres dos outros. Por isso me gasto com as ilusões e as preocupações mentais(...)"


Profile Image for Dinis Contente.
31 reviews
October 10, 2024
"Os anos e a marcha da inteligência, o afinamento da sua estrutura não neutralizam nem impersonalizam a sensibilidade.
Nem o mal nem o bem esquecem! Sobretudo o mal. Tanto dura o rancor como o amor."

mais um clássico instantâneo encontrado no sotão
Displaying 1 - 4 of 4 reviews

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