Veio-me um desejo infantil de me livrar de mim mesma, de me esquecer de como vivo e de como sou, de deixar de me sentir o meu eterno centro e periferia...
Irene Lisboa sintetiza os seus sentimentos com tanta precisão e cria um ambiente tão melancólico, que a minha vontade é copiar para aqui todas as frases que marquei, que excedem decerto em número qualquer outro livro que eu tenha lido, mas sei que tenho de acrescentar algo. Antes de mais, dizer que Irene Lisboa é uma das muitas autoras esquecidas do século XX, apesar de ter escrito contos, poemas, novelas e crónicas e de ter sido elogiada por grandes vultos das letras como Jorge de Sena, João Gaspar Simões e José Régio.
Creio que não são as criaturas que individualmente me enervam, mas a sua comédia e os seus jogos de conjunto... No fundo, a J. sente tão bem como eu me sinto, esta grande e inconfortável secura em que se vive. Que se importa aquela gente com os nossos dramas? (...) Dor respeitável para o português é só a da fome. Esse é que é o drama que o compadece e o não afronta.
Estas notas que nos surgem pelo punho de Irene Lisboa são extremamente introspectivas, dando-nos uma profunda análise daquilo que ela observa, das conversas que tem, dos passeios que dá, mas revelam-nos muito pouco sobre a sua vida e sobre a identidade das pessoas com quem se dá, a quem geralmente se refere por iniciais. Sendo um texto de carácter diarístico, não parece ter sido redigido com o intuito de ser lido por outros, visto que não nos é dado o contexto das situações nem informação suficiente sobre as pessoas com quem se relaciona.
Só de pensar na perfeita indiferença, ou na perfeita serenidade, o coração se me aperta. Penso que será a antecipação da morte. Mas não é só este pensamento que me aflige. É também o medo de deixar de ser o que julgo ser. E ainda a desconfiança de que sou muito pouco, isso que sou... que a minha sensibilidade foi sempre pobre e desperdiçada!
A solidão que serve de título a este livro é palpável e opressiva. A autora não é uma solitária, visto que faz visitas a conhecidos, dá passeios com amigos e está muitas vezes na companhia das suas alunas, mas é quando chega a casa que a angústia se instala, porque é um espaço que está vazio.
É uma coisa pobre e de má tradução. Estou-me referindo à solidão e ao estado interiormente deprimido daqueles a quem tudo falta. O calor humano, a reciprocidade das relações, o interesse dos outros, a sua companhia! Esta solidão ninguém a tem chorado, talvez pelo seu aspecto mesquinho, de párias... Mas é mais comum do que se julga.
Outra das preocupações frequentes de Irene Lisboa é a escrita, desde os bloqueios criativos que a assolam até à dificuldade de publicar e à preferência pelo anonimato.
Na boca, parece-me que a sentia na boca, se me formou esta frase. Frase que adiantava uma ideia de frouxo contorno. Levanto-me, vou buscar tinta e volto com a frase, mas sem a memória da ideia. Eu gostava realmente de reter, de fixar impressões e os esboços de conceitos, que de momento a momento me agitam. Mas não é possível! A própria plástica de língua dificilmente os distingue, os individualiza.