Livro de maturidade, Esconderijos do tempo aprofunda as iluminações de Mario Quintana sobre a memória, a velhice, a morte e a própria poesia.
O ano de 1980 foi marcante na biografia de Mario Quintana: o poeta publicou Esconderijos do tempo e recebeu o prêmio Machado de Assis, da Academia Brasileira de Letras, pelo conjunto de sua obra literária. O livro reúne os textos que escreveu com mais de 70 anos. É, portanto, uma obra de maturidade, mas, ao mesmo tempo, uma clara demonstração da juventude, do frescor que Quintana conseguiu preservar em seus livros ao longo de toda a sua trajetória.
O livro é constituído de 50 poemas geralmente breves e de versos livres ou em prosa, havendo apenas um soneto. Quintana praticamente se utiliza de todos os metros, das redondilhas menores e maiores aos versos longuíssimos. Explora, inclusive, e com excelente efeito, seqüências de versos de uma única sílaba. Há canções e danças, aparentando o poema à música, além da forte coloquialidade em muitos poemas, chegando-se mesmo à utilização de formas tipicamente orais da fala. Diferindo um pouco de seus livros anteriores, não são muitas as pequenas cenas do cotidiano e da natureza que tanto o singularizam.
I was born in Alegrete, on the 30th of July 1906. I believe that was the first thing that happened to me. And now they have asked me to speak of myself. Well! I always thought that every confession that wasn’t altered by art is indecent. My life is in my poems, my poems are myself, never have I written a comma that wasn’t a confession. Ah! but what they want are details, rawness, gossip...Here we go! I am 78 years old, but without age. Of ages, there are only two: either you are alive or dead. In the latter case, it is too old, because what was promised to us was eternity. I was born in the rigor of the winter, temperature: 1 degree °C; and still I was premature, which would leave me kind of complexed because I used to think I wasn’t ready. One day I discovered that someone as complete as Winston Churchill was born premature - the same thing happened to Sir Issac Newton! Excusez du peu... I prefer to cite the opinion of others about me. They say I am modest. On the contrary, I am so proud that I think I never reached the height of my writing. Because poetry is insatisfaction, an affliction of self-elevation. A satisfied poet doesn’t satisfy. They say I am timid. Nothing of the sort! I am very quiet, introspective. I don’t know why they subject the introverts to treatment. Only for not being as annoying at the rest?
It is exactly for detesting annoyingness, the lengthiness, that I love synthesis. Another element of poetry is the search for the form (not of the form), the dosage of words. Perhaps what contributes to my safety is the fact that I have been a practitioner of pharmacy for five years. Note that the same happened with Carlos Drummond de Andrade, Alberto de Oliveira, Erico Verissimo - they well know (or knew) what a loving fight with words means.
O POETA É BELO O poeta é belo como o Taj-Mahal feito de renda e mármore e serenidade O poeta é belo como o imprevisto perfil de uma árvore ao primeiro relâmpago da tempestade O poeta é belo porque os seus farrapos são do tecido da eternidade
Uma recomendação da Celeste, aqui no Goodreads, este livro que data de 1980, de um poeta brasileiro com uma longuíssima carreira literária, que se iniciou em 1940 e se estendeu até 1994. A poesia de Mário Quintana é despretensiosa, mas é terna e surpreendente, partindo de um grande poder de observação, do quotidiano e de uma forte imaginação. Ele, porém, define-a muito melhor do que eu:
SE UM POETA FALAR NUM GATO Se o poeta falar num gato, numa flor, Num vento que anda por descampados e desvios E nunca chegou à cidade... Se falar numa esquina mal e mal iluminada... Numa antiga sacada... num jogo de dominó... Se falar naqueles obedientes soldadinhos de chumbo [ que morriam de verdade... Se falar na mão decepada no meio de uma escada de caracol... Se não falar em nada E disser simplesmente tralalá... Que importa? Todos os poema são de amor!
Muito me arrependo de não ter lido antes Mario Quintana e a poesia brasileira modernista em geral. Meu primeiro contato com eles foi com Cecília Meireles há coisa de ano e meio e nos últimos meses tenho me deparado com gigantes como Mario Bandeira, Drummond, Menotti Del Picchia e agora Mario Quintana. Este autor de Porto Alegre me mostrou versos intimistas, leves, belos e de uma simpleza que só os melhores conseguem. Fazer resenhas de obras de poesia é algo que não vejo possível sem alguma mini-amostra que exemplifique o talento (ou a falta dele) do autor. Obrigado, Mario Quintana:
Há um grande silêncio que está à escuta... E a gente se põe a dizer inquietamente qualquer coisa, qualquer coisa, seja o que for, desde a corriqueira dúvida sobre se chove ou não chove hoje até a tua dúvida metafísica, Hamleto! E, por todo o sempre, enquanto a gente fala, fala, fala o silêncio escuta... e cala.
os poetas sempre sabem falar do tempo e da passagem do tempo, aquilo que marca a vida e ao mesmo tempo fica só nesse lado, quando atravessamos para o outro, obscuro.
O meu conhecimento sobre Mario Quintana sempre se limitou a poemas avulsos. Lia um, encontrava outro, sabia mais um de cor. Essa foi a primeira vez que li um livro seu do começo ao fim e tive uma sensação de "passou e nem senti". Reconheci alguns poemas, mas os demais não me tocaram. Talvez tenha sido a seleção, talvez tenha sido o meu momento. De qualquer forma, continuo gostando do Mario Quintana e sua imensa delicadeza.