É impressionante como o Tom King consegue ser tão bom roteirista, propondo e desenvolvendo temas tão sensíveis em quadrinhos de super heróis. Somado ao roteiro, a arte do Mitch Gerads é absurdamente linda, com traços detalhados, que potencializam a conexão do leitor para com os personagens. Em continuidade do volume anterior, temos agora a seguinte situação para o Senhor Milagre: ele será pai e agora é o Pai Celestial, substituindo o Órion que foi morto na edição anterior.
O Scott, que no volume anterior, tentou escapar da vida, agora tem dois novos papeis que exigem que o personagem esteja bem a todo momento, pois ele se tornou a figura central de Nova Gênese, e também precisa exercer seu papel de pai e marido, o qual é muito bem detalhado por King.
É bizarro como a vida possui seus momentos de coincidência, porque eu comprei esse gibi em 2023, mas só agora que realizei a leitura, e é um momento em que no Brasil, a pauta em questão é a escala de trabalho 6x1, que tomou proporções absurdas e a todo momento possui novos desdobramentos. E por coincidência, eu vejo muito dessa problemática sendo explorada na obra do Tom King. O Scott está pressionado em seu trabalho, pois está acontecendo uma guerra entre Nova Genese e Apokolips, e ele sendo o Pai Celestial, comanda todas as tropas envolvidas. Além disso, ele precisa ajudar a Barda em casa, cuidando do filho. Mas quando ele está na sua vida civil, é mostrado que o Scott reveza com a Barda para poderem atuar na Guerra, porque precisam cuidar do filho e não possuem uma babá a todo momento, e ele também precisa fazer suas apresentações enquanto Senhor Milagre, para conseguir dinheiro para casa.
Ainda nesse âmbito, o paralelo que King cria entre a vida no trabalho e a vida pessoal do Scott, por meio dos senhos do Mitch Gerads e da técnica de 9 quadros por páginas é excelente. Em uma pagina você acompanha uma batalha sangrenta e o personagem tendo que seguir firme e forte, e na outra pagina ele está em casa com seu filho e a esposa, tendo que organizar o aniversario da criança, por exemplo, mas ao mesmo tempo fica conversando por meio da caixa materna com seu exército, mostrando que ele não possui folga. Até quando o Scott e a Barda se deitam no sofá, o papel de pai e mãe de ambos é ativado quando o nenê chora, deixando-os sem descanso.
Sob esse prisma que o King aborda da vida pessoal do herói, eu acho que é o grande acerto do roteirista, pois conecta muito o leitor com o personagem, mostrando problemas do dia a dia que nossa sociedade enfrenta sendo vivida também por heróis.
Além disso, a representação dos pensamentos ruins do Scott por meio do “Darkseid is” ainda está presente, mas com menor frequência, indicando uma possível melhora da saúde mental do personagem.
Por fim, há uma cena que destaco desse volume 2, que é quando o Scott está tomando banho e ele começa a se fechar, ir se abaixando, até que ele deita em posição fetal e chora. Isso para mim é um resumo da temática que o Tom King propôs em trabalhar no quadrinho. O personagem praticamente sobrecarregado se “despedaça” no banho e fica sem reação.