Neste livro José Paulo Paes evita, de um lado, a efusão confessional de um sentimentalismo estranho à nossa época; recusa, de outro, a frieza dos meros exercícios virtuosísticos de linguagem. Com extremo apuro técnico, mas sobretudo com o que se poderia chamar de 'distinção' de alma - um recanto, uma compostura, uma serenidade frente às próprias emoções -, o autor faz uma poesia que, sem ser confessional, é íntima, cheia de lembranças e experiências biográficas. Fala de seus pais, de amigos mortos, da perna que teve de amputar, mas não cede nunca às tentações da autopiedade e do desespero. É o livro de quem aprendeu a pesar com calma o próprio sofrimento, e depois o expressa, com intensidade, a meia voz.
José Paulo Paes foi um poeta, tradutor, crítico literário e ensaísta brasileiro. Tendo estudado química industrial na cidade de Curitiba (entre 1945 e 1948), durante muitos anos José Paulo trabalhou em laboratório farmacêutico. Todavia, paralelo a essa profissão jamais deixou de lado a literatura, cujo interesse foi lhe passado pelo avô que era livreiro, sendo que ainda nos tempos de aluno em Curitiba, já colaborava com a revista Joaquim, dirigida por Dalton Trevisan. Dessa temporada paranaense nasce seu livro de estreia, O aluno, de 1947, fortemente influenciado pela poesia de Carlos Drummond de Andrade, o qual o respondeu com o conselho de evitar a imitação de vozes alheias. Em 1949, transfere-se para São Paulo, quando passa a colaborar com os jornais Folha de S. Paulo, O Estado de S. Paulo, O Tempo, Jornal de Notícias e Revista Brasiliense, aproximando-se de escritores modernistas como Graciliano Ramos, Jorge Amado e Oswald de Andrade. Conhece também Dora, sua mulher por toda a vida a quem dedicou Cúmplices, de 1951, seu segundo livro. Por falta de um estudo melhor, sua obra foi comparada às dos poetas da Geração de 45, tendo inclusive participado de uma antologia na companhia de Haroldo de Campos e Décio Pignatari, quando eram chamados de “Novíssimos”, ou seja antes da eclosão da poesia concreta, à qual Zé Paulo soube com inteligência absorver, cujos resultados apareceram em seu livro Anatomias de 1967, apresentado justamente por Augusto de Campos. Mais que poesia concreta seu livro aproveitava um ritmo mais oswaldiano, como nos poemas “L'affaire Sardinha” (que fora publicado em 1962 na antologia Violão de Rua, da UNE) e o conhecido “Epitáfio para um Banqueiro” Por volta de 1963, Zé Paulo dá início a um trabalho editorial intenso à frente da Editora Cultrix, abandonando o trabalho como químico, dedicando-se a partir de então integralmente à literatura. Na companhia de Massaud Moisés foi organizador do Pequeno Dicionário de Literatura Brasileira, publicado pela Editora Cultriz em 1967. Em 1981,José Paulo aposenta-se como editor, dando início a um dos mais competentes trabalhos de tradução entre os escritores brasileiros, verteu para o português autores de diversas línguas, como Charles Dickens, Joseph Conrad, Pietro Aretino, Konstantínos Kaváfis, Laurence Sterne, W. H. Auden, William Carlos Williams, J.K. Huysmans, Paul Éluard, Hölderlin, Paladas de Alexandria, Edward Lear, Rilke, Seféris, Lewis Carroll, Ovídio, Níkos Kazantzákis, entre outros tantos. Seu reconhecimento na matéria resultou em sua nomeação como Diretor da oficina de tradução de poesia no Instituto de Estudos da Linguagem (IEL) da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). Em 1986 vem a público o livro Um por todos, reunião de seu trabalho até então, apresentado pelo crítico Alfredo Bosi. Vem ainda da década de 1980 seu interesse pela poesia infantil, com a qual alcançou grande êxito entre as crianças. Em 1989, Zé Paulo lança pela coleção Claro Enigma, organizada por Augusto Massi, o livro "A poesia está morta mas eu juro que não fui eu", título extraído do poema "Acima de qualquer suspeita". Na década de 1990 dá sequência ao seu trabalho, lançando diversos livros de ensaios, poemas infantis, traduções e poesia, sendo um dos mais bem recebidos "Prosas seguidas de odes mínimas", livro no qual reflete um momento difícil de sua vida, quando tem uma perna amputada, como pode-se ler no poema "Ode à minha perna esquerda": Ao falecer em 1998, deixou inédito o livro "Socráticas" que veio a público em 2001.
De início peguei este livro por ser leitura obrigatória do vestibular da Unicamp, que irei prestar esse ano. Não estava dando nada para ele, ainda por ser um livro de poemas, um gênero textual que não sou muito fã, porém, fui bastante surpreendida, com prosas profundas, impactantes e que me fez refletir assim que lia cada uma delas!
Recomendo esse livro para aqueles que já são fã de livros de poemas, como também quem ainda não leu nada e quer ter uma primeira vez com esse estilo. Claro, mesmo sendo um livro ótimo, ainda não senti que mereceria uma nota maior, mas não por ser ruim, e sim como eu já tinha dito, não sou tão fã do gênero, mas independe de tudo isso, foi uma ótima leitura!
“Aos óculos Só fingem que põemo mundo ao alcancedos meus olhos míopes. Na verdade me exilamdele com filtrar-lhea menor imagem. Já não vejo as coisascomo são: vejo-as como eles queremque as veja. Logo, são eles que veem,não eu que, mesmo cônsciodo logro, lhes sou grato por anteciparem em mimo Édipo curiosode suas próprias trevas.”
tem umas partes difíceis de entender, mas é uma leitura que não esperava ser divertida e fácil. me surpreendeu, algumas vezes até gargalhei em voz alta
🧩 Estrutura da obra: • Dividida em duas partes principais: 1. “Prosas” 2. “Odes Mínimas”
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✍️ Parte 1 – “Prosas” • Apesar do título, são poemas com tom narrativo e reflexivo, próximos da prosa poética. • José Paulo Paes chamava de “prosas” porque não se considerava poeta tradicional. • Temas principais: • Passagem do tempo e efemeridade da vida. • Crítica social e moral. • Relações familiares e existência humana. • Memória e ironia da vida. • Estrutura temática: • Cada poema apresenta um personagem de uma família, criando um retrato simbólico da sociedade. • Tons predominantes: • Ironia, melancolia e reflexão filosófica. • Observação crítica do cotidiano.
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🌿 Parte 2 – “Odes Mínimas” • Reinterpretação das odes clássicas (tradicionalmente grandiosas). • Paes cria “odes mínimas”: curtas, simples e dedicadas a coisas do cotidiano. • Temas e características: • Valorização do banal e do simples. • Poesia nas pequenas coisas do dia a dia. • Humor e ironia. • Reflexão sobre o próprio ato de escrever poesia (metapoesia). • Influência do minimalismo modernista e de Oswald de Andrade. • Função das odes: transformar o trivial em poético e provocar reflexão com brevidade.
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💡 Características gerais da obra: • Linguagem concisa e direta, com poucas palavras e muito significado. • Ironia e acidez – aproximação com Carlos Drummond de Andrade. • Poesia crítica e acessível, que une reflexão e simplicidade. • Influência do Concretismo – valorização da forma visual, das pausas, aliterações e quebras. • Mistura de prosa e verso, rompendo fronteiras entre os gêneros literários. • Mitologia pessoal: memórias de infância e lembranças adultas. • Valorização da brevidade e da profundidade. • Simplicidade e profundidade coexistem – leveza para temas penosos e peso para o banal. • Crítica social e existencialismo (influência de Sartre). • Poesia pós-modernista: filosófica, autocrítica e observadora.
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🎯 Principais temas: • Cotidiano e banalidade. • Crítica à sociedade contemporânea. • Reflexão sobre o tempo e a finitude. • Questionamento do papel da poesia e do poeta. • Existência humana e busca de sentido. • Humor, ironia e desencanto.
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🧠 Importância e interpretação: • Mostra que a poesia está no simples, não apenas no sublime. • Propõe uma visão crítica e filosófica do mundo moderno. • Representa uma síntese madura da poesia brasileira moderna. • Faz o leitor refletir sobre a condição humana e o valor do olhar poético sobre o cotidiano.