Quotidiano Instável é o título da coluna publicada por Maria Teresa Horta no suplemento «Literatura & Arte» do jornal "A Capital", entre 1968 e 1972. Inicialmente concebida como um espaço de crónica, a coluna assumiu progressivamente um carácter ficcional, especialmente notório quando lemos as crónicas reunidas num livro como agora acontece.
A belíssima prosa poética de Maria Teresa Horta acaba assim por ser lida como uma unidade ficcional, a prenunciar o primeiro romance da escritora, Ambas as Mãos sobre o Corpo, que Eduardo Prado Coelho incensou como uma obra-prima.
Maria Teresa de Mascarenhas Horta Barros was a Portuguese feminist poet, journalist and activist. She is one of the authors of the book Novas Cartas Portuguesas (New Portuguese Letters), together with Maria Isabel Barreno and Maria Velho da Costa. The authors, known as the "Three Marias," were arrested, jailed and prosecuted under Portuguese censorship laws in 1972, during the last years of the Estado Novo dictatorship. The book and their trial inspired protests in Portugal and attracted international attention from European and American women's liberation groups in the years leading up to the Carnation Revolution.
Das "três Marias" é o primeiro livro que leio de Maria Teresa Horta e tal como a Maria Velho da Costa será para continuar a descobrir. Crónicas lindíssimas.
Acima de tudo, mais do que crónicas, estes textos não são só palavras - são formas de estar, pensar e sentir. Acredito que só quem já amou, com paixão, dor, alegria, provação e ternura consiga entender, mesmo que superficialmente, o que se passa nestas páginas. São muitas as palavras que MTH escreve sobre quem mais a inspirou desde sempre, o seu marido Luís, uma autêntica musa no masculino. Se o olhar desgastasse o papel, este livro estaria feito em fiapos. As crónicas são curtas, como mini-contos, mas bastante complexas, rebentando de significado, metáforas, um vai-e-vem entre o sujeito "eu" e uma terceira pessoa. São textos que desafiam as barreiras entre o real e o imaginário, através da narração da paixão, da sensualidade, da sexualidade, da família e das relações em geral numa voz que eleva o amor à condição de mito real, pela sacralização das imagens e raciocínios invocados. Tive de ler cada crónica várias vezes, para recolher tanta informação quanto possível, informação essa que alimenta os sentidos de variadas formas, imagens ricas. Mesmo assim, sei que, cada vez que releio alguma, consigo retirar mais um pouco do que antes... Porque é prosa, mas poderia ser poesia, o que MTH escreve é um fio de consciência que nos cabe destrinçar, que não se sabe bem como ou onde começa.
quando leio não ficção, crónicas/contos ou poesia, o meu ritmo de leitura torna-se mais lento. por essa razão, tento sempre intercalar com um livro de ficção/romance, lendo mais que um livro em simultâneo. no entanto, o que acaba por acontecer é que quando o faço, os outros livros ficam pausados, por vezes até durante meses, mesmo que esteja a apreciar a leitura.
foi o caso deste livro de crónicas da maria teresa horta. comecei a ler “quotidiano instável” porque uma amiga me sugeriu como iniciação à escrita da autora, por ser mais simples e sem necessidade de contexto. e foi uma agradável experiência. gostei muito da sua escrita: belíssima e extremamente poética, o que me fez sublinhar imensas frases ✨
como diz maria teresa horta, de 85 anos, numa entrevista que deu há 3 anos em relação aos livros que a avó lhe narrava: não, não percebia, mas achava muito bonito. foi assim que me senti em algumas das suas crónicas. nem sempre percebi onde me levavam as suas palavras, mas era, sem dúvida alguma, para um local de extrema beleza, algo que a poetisa faz questão de ter na sua escrita e na sua vida.
“(…) foi a poesia que a salvou do sofrimento, da incompreensão, da banalidade, de um certo quotidiano insuportável”, e isso revela-se, também, nestas crónicas, que foram publicadas na sua coluna do jornal “a capital”, entre 1968 e 1972, e que juntam realidade e ficção.
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muitas vezes, a arte leva-me a querer saber mais dx artista. descobri o episódio do podcast “a beleza das pequenas coisas” e maravilhei-me ao ouvir maria teresa horta falar sobre a sua vida, a sua escrita e o seu “amor eterno”, luís. que mulher incrível, que mulher apaixonada. ri bastante, emocionei-me e arrepiei-me durante quase 1h30 que valeu muito a pena. portanto, recomendo muito ouvirem esta entrevista e lerem maria teresa horta: mulher, poetisa, jornalista, referência do feminismo em portugal. eu, certamente, irei ler e ouvir mais.
As coisas modificam-se com a memória... debruço-me da janela sobre o espaço imenso da cidade... que as coisas modificam-se com a memória... e lá em baixo os carros aparecem e desaparecem depressa, impacientes; porém as pessoas ficam às vezes paradas nos passeios a falarem umas com as outras ou simplesmente a olharem à roda como que indecisas ou exaustas.