«[...] Um mero sorriso, um meio sorriso, um sorriso simples. Já agora teu, mãe, já agora triste. E de quem mais havia de ser — um sorriso numa altura dessas. Depois do fim. Senão o teu, mãe única. Com os teus mil rostos.»
Cansado de escutar o sangue a ranger nas curvas apertadas do coração, acalentas o sonho: um barco no mar a afundar-se: sem capitão, sem ratos, sem espavento um único tripulante a bordo: tu"
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"Espero um dia ter de esperar-te, com a ansiedade dos que perderam tudo ou quase, menos talvez a memória E espero humildemente vir a merecer-te, cometer um acto heróico e merecer-te, ser outra e a mesma pessoa — e merecer-te Espero estar bem triste para quando enfim chegares poder dar-te o mais autêntico: a memória, a tristeza Espero a grande disponibilidade de poder esperar à vontade quero o espaço, todo o espaço — e muita falta de ar Espero a paciência de adivinhar-te e a sufocação de ver-te ou a graça de poder continuar à espera —indefinidamente Espero, ardentemente espero que o tempo passe e a morte não exista e eu apenas à tua espera rodeado de livros, sem perceber nada Espero, já agora, que no final, como quem completa um puzzle afinal mais simples do que parecia, tu simplesmente venhas"
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"Quem vive para o amor está lixado não tarda, que o amor é um amplo espaço vazio sem cor nem forma e um silêncio tumular por perto. Mau, muito mau para se levar alguém. Mas tu vieste e de imediato tudo fora já decidido como quando alguém nasce e olha em torno — pouco importa se estranha ou não a paisagem. Tínhamos o nosso espaço e tínhamo-nos a nós, um ao outro por natural companhia era amor, tudo indicava. Podia-se morrer disso. E tínhamos o tempo todo para ver."
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Esta partilha não assinala nem um começo, nem um fim de leitura — trata-se de um livro que está comigo há pouco mais de um mês e tem sido uma preciosa companhia. Há semanas participava (pouco, e mais como observadora) numa conversa onde o tema da "posse" surgiu: na altura não me manifestei, mas as duas pessoas em questão concordavam que a posse dos livros é algo sobrevalorizada. A minha discórdia não se fez ouvir, nem essa discórdia serviria para o avançar da conversa: afinal, opiniões são opiniões, percebi o fundo das mesmas e aceitei-as com à vontade... a minha, guardei-a para mim e só a partilho com quem a quiser ler (o facto de estarem aqui, de lerem, de me seguirem, é voluntário, não me imponho perante nada nem ninguém e prefiro estar assim, só assim). Entendo que a posse possa ser sobrevalorizada, quantas vezes não imaginei que morria e que a minha humilde biblioteca ficava esquecida, ou talvez pouco e mal apreciada por quem a herdasse... e quantas vezes não imaginei a possibilidade de um desastre que alagasse todos os livros, ou que os fizesse arder... são objectos que estimo acima de muitos outros, e nem sequer sou especialmente materialista, mas sei que, apesar do sofrimento, iria ultrapassar a perda deste espólio. Mas, ainda assim, valorizo a posse. E muito. Ler poemas dispersos com recurso a um computador ou a um telefone não é uma experiência equiparável à sensação (corpórea, física, sensual — e a minha ligação ao mundo é feita com base nestes pilares) de agarrar na capa de um livro, de o abrir, de o folhear. Quero saber que, de madrugada, às duas da manhã, me posso levantar da cama e ir buscar um livro (ou mais): dentro deles encontro sempre algo de novo, um conforto e uma companhia nocturna que não me falha desde há muitos anos. O Rui Caeiro veio inscrever-se neste espaço de silêncio e não dou a leitura por iniciada nem por concluída: está intermitente, desde o dia 14 de Abril, e acompanha-me discretamente durante a noite... tal como os músculos que temos no lado esquerdo do peito vão trabalhando sem que nos apercebamos deles, também os seus poemas vão surgindo e criando ritmos dentro de mim.
“Espero um dia ter de esperar-te, com a ansiedade dos que perderam tudo ou quase, menos talvez a memória E espero humildemente vir a merece-te, cometer um ato heroico e merecer-te, ser outra e a mesma pessoa – e merecer-te Espero estar bem triste para quando enfim chegares poder dar-te o mais autêntico: a memória, a tristeza Espero a grande disponibilidade de poder esperar à vontade quero o espaço, todo o espaço – e muita falta de ar Espero a paciência de adivinhar-te e a sufocação de ver-te ou a graça de poder continuar à espera – indefinidamente Espero, ardentemente espero que o tempo passe e a morte não exista e eu apenas à tua espera rodeado de livros, sem perceber nada Espero, já agora, que no final, como quem completa um puzzle afinal mais simples do que parecia, tu simplesmente venhas”
Nasceste para dormir, para sonhar, para esquecer. Quem disse que nasceste para viver? E, no entanto, faças o fizeres é sempre a vida o bem que mais se gasta. A tua vida. Se te quedares inerte, esperando que o tempo não dê por ti, dormires, sonhares, tergiversares, esqueceres - é sempre a mesma a erosão sofrida, como idêntico é o bem que se consome. Aconteça o que acontecer, é sempre a vida a coisa mais maltratada. A tua vida. Mas não adianta pensá-lo, dizê-lo. Mas não adianta viver.
Espreitar a alma dum poeta, editor da extinta &etc, crítico, homem bom e alentejano de Vila Viçosa feito lisboeta. Recolha definitiva de livrinhos, artigos, pequenos textos, poemas o que for. Para ler e reler ao longo da vida. Um livro que não se esgota.