A presente coleção reúne a obra completa de Maria Judite de Carvalho, considerada uma das escritoras mais marcantes da literatura portuguesa do século XX. Herdeira do existencialismo e do nouveau roman, a sua voz é intemporal, tratando com mestria e um sentido de humor único temas fundamentais, como a solidão da vida na cidade e a angústia e o desespero espelhados no seu quotidiano anónimo.
Observadora exímia, as suas personagens convivem com o ritmo fervilhante de uma vida avassalada por multidões, permanecendo reclusas em si mesmas, separadas por um monólogo da alma infinito.
O quarto volume reúne dois livros de crónicas - A Janela Fingida (1975) e O Homem no Arame (1979) - e uma coletânea de contos - Além do Quadro (1983).
MARIA JUDITE DE CARVALHO nasceu em Lisboa a 18 de Setembro de 1921. Estreou-se com o livro de contos Tanta Gente, Mariana (1959) e foi galardoada com o Prémio Camilo Castelo Branco pela colectânea As Palavras Poupadas (1961). Além de contos, publicou romances e crónicas, cultivando também o jornalismo. Na sua obra reflecte-se o dramatismo da solidão do mundo urbano, onde há muita gente e pouca alma. Publicou Paisagem Sem Barcos (1965), Os Armários Vazios (1966), Flores ao Telefone (1968), Os Idólatras (1969), Tempo das Mercês (1973), A Janela Fingida (1975), O Homem no Arame (1976), Além do Quadro (1983), Seta Despedida (1995), A Flor que Havia na Água Parada (1998) e Havemos de Rir? (1998). Reuniu parte das suas crónicas em Este Tempo (1992) e Diário de Emília Bravo (2002, póstumo). Foi condecorada pela Presidência da República com o Grande-Oficialato da Ordem do Infante D. Henrique, em 1992 e recebeu, a título póstumo, o Prémio Vergílio Ferreira, pelo conjunto da sua obra, em 1998.
Este quarto volume da obra completa de MJC é composto por dois conjuntos de crónicas e um de contos. As crónicas — A Janela Fingida (1975) e O Homem no Arame (1979) —, embora muitíssimo bem escritas, estão um pouco datadas e não me conquistaram.
Já o conjunto de contos Além do Quadro (1983) vale por todo o volume. É aqui que MJC nos brinda com a sua escrita depurada, melancólica e introspectiva, onde o banal se torna maravilhoso.
"O que eu diria se soubesse falar dos atores sem palco, dos atores não profissionais mas com uma enorme, incontrolável vocação histriónica, desses que atuam todos os dias por aí, onde calha. O palco onde se exibem é do tamanho do mundo, do nosso-deles pequeno mundo, e então os espectadores não sabem, hão de sempre ignorar que são espectadores e que eles estão a representar o seu eterno papel. Sabê-lo-ão eles próprios?" 72
Cada vez mais me convenço de que o grande talento de Maria Judite de Carvalho é este, o de fazer de todos nós atores de uma tragédia irrelevante e sem palco. E fazendo-o, transforma cada um de nós em protagonistas de grandes e únicas peças cujo cenário é o do dia a dia - parece mesquinho e pequeno, mas revela-se tão grandioso quando é ela quem o narra!
Ainda que as crónicas não sejam o meu forte - nunca foram e mesmo que MJC seja exímia também neste contexto, a fraqueza é minha que não aprecio o estilo -, poupo todo o meu tempo e boa vontade para a pequena coletânea de contos final, onde ela verdadeiramente exibe todo o seu talento. MJC é uma alma que gosta de ver sofrer e superar o/pelo sofrimento - poderia apostar - que redime os pobres e os doentes (muitos apenas de coração), os párias e os inconformados, e deles conta a história como se cada vida fosse um mundo de tão grande importância como qualquer outro. É essa humanidade, e a poesia e perspicácia com que aponta o dedo às nossas fraquezas que faz dela uma grande escritora. Aliada à sua procura pelo lado sombrio de cada vida, a economia de meios de que faz uso torna-a das contistas mais fascinantes que tenho vindo a descobrir.
Além do quadro ⭐⭐⭐⭐ Aeroporto ⭐⭐⭐ Colega de carteira ⭐⭐⭐⭐⭐ Aqui em parte nenhuma ⭐⭐⭐⭐ Leandro ⭐⭐⭐ A noite indigna ⭐⭐⭐⭐⭐ A Estela, coitada ⭐⭐⭐⭐⭐ Os inocentes ⭐⭐⭐ Adília e as vozes ⭐⭐⭐⭐⭐ A riqueza ⭐⭐⭐⭐ Aquele azul ⭐⭐⭐⭐⭐ Correspondências urgente ⭐⭐⭐⭐⭐
"A minha alma sente-se muitas vezes magoada e também estarrecida (entre outras coisas), talvez porque a uso com exagero desaconselhável, não a escovo nem a penduro no cabide das almas, até à próxima ocasião, cuidadosamente escolhida entre as ocasiões. Uso-a como uma farda, que posso eu esperar? Devia usar a alma como uso o pregador de esmeraldas que não tenho. Devia vesti-la, enfim, só em ocasiões em que não houvesse o menor perigo de ela se magoar, se sujar, se estarrecer, como disse. Em ocasiões de sorrisos maquinais, frases bem maquilhadas, gestos de cetim e veludo, risos de cristal, cenários intactos. Coisas de agradar às almas sensíveis. Mas eu visto-a e saio para a rua e nem sequer levo guarda-chuva. Vamos ambas para o trabalho, andamos pela rua às horas de ponta, atravessamos perto dos homenzinhos verdes-marcianos-assassinos. E pensamos no porquê daquele cego, além, e daquele velho de fato mais velho ainda, se possível, todo encolhido dentro dum raio de sol tão frio, e daquela criança que não sabe e talvez nunca venha a saber nada de nada. E ainda no porquê daquela mulher, essa ajuizada, vê-se à distância, consciente de que este não é dia nem lugar para usar a alma, e que por isso caminha sem ver o velho, nem o cego nem a criança. É bela e feliz, só vê aquilo que quer ver, não sente nada que não queira sentir. Deixou a alma pendurada entre o casaco de vison e o vestido de alta costura. Sabe-a toda. Agora eu... Por isso chego a casa e tenho que lavar a minha alma, que a coser, que a passar a ferro. Não vai durar muito, assim tratada... Mas que hei de eu fazer?" - Crónica "Dor de Alma", da coletânea "O Homem no Arame".
Este quarto livro das Obras Completas da Maria Judite trata-se de uma coletânea de crónicas da autora. Estão, como sempre, muito bem escritas. No entanto, acabei por não me prender assim tanto a estas como já me aconteceu aos contos, nos outros volumes da coleção, tanto que demorei muito tempo a acabar o livro. Ainda assim, ler Maria Judite é sempre um deleite, portanto recomendo igualmente este volume, se estiverem interessados na obra da autora.
As janelas mostram-nos diferentes paisagens, mas, quando abrimos as suas portadas, não sabemos bem a extensão desse mundo, nem a quantidade de memórias que guardam.
Neste quarto volume, Maria Judite de Carvalho embala-nos por esta perspetiva, como se cada conto e cada crónica fosse uma janela nova, da casa de alguém que não conhecemos, mas que podíamos ser nós, alguém próximo. E é fascinante como, escrevendo sobre várias pessoas sem nome, nos inclui a todos, como nos torna quase protagonistas.
Os cenários do dia a dia elevam-se pela narração, pelo olhar atento aos detalhes e por conjugar com tanta mestria problemas, vivências, amores e angústias.
As palavras da autora transbordam humanidade. Mas também sombra e poesia
“O homem buscou na memória um azul semelhante, mas não conseguiu encontrar nenhum, porque o céu do seu mundo era acinzentado, as águas - raras - eram opacas, e nunca vira flores. Tudo tinha ficado assim desde a guerra, a última, a guerra enorme, quando os homens tinham morrido em tão grande número e as cidades haviam sido destruídas. “
E de novo um volume de textos intemporais, sobre "homens raros", mulheres dócilmente frágeis, a quem nos damos a uma intimidade rara, condutores donos de razão, burocratas, madâmes ou mulheres a dias. E a cada texto, vogamo-nos aos detalhes.
Um dos livros de crónicas de Maria Judite de Carvalho, publicado no volume IV das Obra Completas que a Minotauro publicou nos últimos anos. Este volume corresponde a um selecção de textos publicados em 1968 e 1969 no "Diário de Lisboa" e outras publicações, e que foi publicado em livro numa primeira edição em 1975. Se Maria Judite de Carvalho foi uma “observadora exímia, as suas personagens convivem com o ritmo fervilhante de uma vida avassalada por multidões, permanecendo reclusas em si mesmas, separadas por um monólogo da alma infinito”, esse mundo que é observado se plasma nestes textos curtos de prazeirosa leitura.
(Sobre "O homem no arame") "O homem no arame" Obras Completas Volume IV, de Maria de Judite de Carvalho, Minotauro, Lisboa, 2019 (li de 10/10/2020 a 21/10/2020)