Mulher a inventar o corpo, a boca cheia de vestígios de pântano, de heras, de lodo, de incomunicabilidade. Mulher segurando a máscara, preparando-se para o esconderijo, para a fácil loucura de já não ser real. Mulher de perfil, tão pendurada, tão sem olhos frontais, provocando-se a própria obra que a inclui, desmotivando-se de tudo o que não for matéria, soltando-se de todos os que a vêem bem. Mulher enchendo-se de bronze, tapando-se com a escultura que ela fará
É SÓ HUMOR NEGRO, AMOR (Cutelo e nariz de palhaço sobre madeira, 2018)
Sempre que se expunha ao ridículo, pensava que os humoristas também eram casados. Alguns até talvez fossem alvo de admiração dos seus cônjuges. Não resistia ao humor, mesmo quando sabia que ia ficar feia, desgrenhada, nada misteriosa.
Não tenhas medo, amor, é só humor negro. Eu até conheço outros mas prefiro o negro Porque dá mais jeito ao exagero, à estupefação.
Não há razão para desconfiança, amor, É só humor negro: daquele que não te faz rir porque tu sempre preferiste a discussão.
Inteligência não é a primeira palavra que me ocorre quando penso em poesia, mas no caso de Filipa Leal, aplica-se na perfeição. São textos despretensiosos, coloquiais, criativos, sarcásticos, mas reveladores de uma tremenda argúcia, em que, graças às referências culturais e experiências de vida, o leitor (pelo menos esta leitora) facilmente se sente próximo e se identifica com o que está escrito. Estando dividido em três partes, Exposição de Escultura, Projecto Político e O Quadrado do Panamá, é no primeiro segmento que se encontram os meus poemas preferidos, com títulos tão irreverentes como “A Primeira Tinta (Tinta de Choco sobre Cabeleira – 2007)” e “O Fim do Cinismo” (Cinza e chaves sob fita-cola, 2017).
DEIXEI DE SER SIMPÁTICA (Barro 2016)
Estou calada a escolher-te. Recuso a simpatia da infância póstuma, do pós guerra ao real, do trabalho de ser eu. Ouve os homens que tenho na barriga. Gritam mal, enchem-me de dor e de dobra. Fico aqui atirada pela noite, mexendo-me pouco, com medo da adulta que vês mal porque está escondida, barricada, disfarçada de buraco onde possamos ser outros ainda mais vazios. Deixei de ser simpática precisando ainda da alegria da rua, da alegria que a rua furou, rua escorregada de óleo e de pétalas. Estou calada e estragada a escolher-te e tu apareces e desapareces nos degraus da cama grande. É como se subisses ou descesses a insónia pela roupa tão lavada. Temos insónias separadas. Ouves? Estou tão calada.
"Eu nunca quis que ficasses, entendes? Que viesses. Queria que quisesses de mim esse minuto certo, essa rua húmida de ser norte. Queria que me quisesses certa, exacta, como o minuto onde me pudesses encontrar. Eu ser gente, entendes? Eu nunca quis de ti o sonho do sono ou da viagem. Nunca te pedi o pequeno-almoço, a ternura. Nunca te disse que me abraçasses por trás, que adormecesses. Eu nunca quis que me desses casa e filhos e lógica. Que me convidasses para dançar. Queria os teus olhos a fecharem-se comigo por dentro e tu por dentro de mim.
Queria de ti um minuto. Um minuto."
Excerto d'"O Minuto Certo".
***
Não me identifiquei com a escrita da Filipa Leal, mas houve uma excepção, e que grande excepção: estava no comboio, a regressar a casa depois de um dia de trabalho, e sentia que os poemas pelos quais passava tinham impressa a realidade física, demasiado física, em que já nos movemos (ginásios que ainda não se frequentam, medo de ladrões, fios de mangas nos dentes: okay, confesso que aprecio o humor dela), e depois chegou esse "Minuto Certo" — veio sem ser anunciado, veio rasgar com uma camada de resistência que estava a criar à poesia da Filipa Leal, e é por causa dele que vou querer continuar a explorar a obra da autora (que conheço pouco, muito mal: vou dar prioridade ao "Vem à Quinta-Feira", mas estou muito curiosa em relação ao "Adília Lopes Lopes").
"Dizia-te do minuto certo. De um minuto certo do amor. Dizia que queria olhar para os teus olhos e ter a certeza de que pensavas em mim. Que me pensavas por dentro. Que eu era a tua fantasia, o teu banco de trás. O teu desconforto de calças caídas, de pernas caídas da rua que não estava fechada porque nenhuma rua se fecha para o amor"
Gosto de Filipa Leal. Mentira, gosto muito -mesmo muito - da Filipa Leal. Vou sempre com expectativas elevadas para cada livro. Vou sempre com a ideia: é para sublinhar tudo, marcar tudo. Reter tudo. Não aconteceu aqui. Atenção, o livro - a poesia que compõe este livro - não é má. Não é “assim-assim poesia”. Mas procuro em poesia um toque mais, uma espécie de abraço. Ao ler este livro, os braços ficaram abertos mas não se fecharam para me consolar.
Sendo um bom livro, é mais irregular do que "Vem à quinta-feira", de que gostei mais. Este tem poemas magníficos, como o primeiro (aliás a primeira secção é mais bem conseguida) e outros algo pobres, como "Sujar as mãos", por exemplo. Globalmente lê-se com prazer, mas esperava mais.
"O avô Mário e a avó Isabel traziam-nos muito a Vigo quando éramos crianças. Não me lembro de nada. Só da lavanda puig. Só dos caramelos. Só de não haver nada em Portugal e Vigo ter El Corte Inglés. Ontem lembrei-me que, daqui, os avós me levaram a minha primeira, e única, Barbie. Era (se bem me lembro) a Barbie-Viagem. Tinha uma saia de tule e, do avesso, de veludo travada e na mão (se bem me lembro), a mala. A mala estava (se bem me lembro) vazia, como sempre está quando somos crianças. O avô Mário morreu na véspera de Natal. Lembro-me bem. Eu tinha 16 anos e a mala começou a pesar. Sei que fui feliz em Vigo dessa forma melhor: a que nem precisamos de lembrar."
Não conhecia a autora, mas sem dúvida uma óptima descoberta. Sem dúvida para voltar a ler, pois a poesia de Filipa Leal tem muitas camadas para serem descobertas. O humor usado na sua poesia é também muito interessante.
Alguns ficaram com as minhas partes piores. Isto é como a divisão do frango em família numerosa. Faltam coxas para todos. Isto é como a aprendizagem da generosidade: o peito ou o pescoço ou as asas. Lá em casa, fazíamos de conta que preferíamos outra coisa e dávamos as partes melhores aos irmãos. Sei que eu e os meus irmãos tivemos sempre uns dos outros as partes melhores. Parece-me justo e valioso. Parece-me informação digna de CV ou de Wikipédia. Isto devia dar empregos. Isto devia ser o primeiro dado de uma biografia: “dava a parte melhor do frango aos seus irmãos”.
E depois apaixonamo-nos. Complica-se a divisão do frango quando há coxas para todos: para dois. Difícil haver tanta coxa. Difícil não ser preciso dividir. Difícil ver cada vez menos os irmãos, que provariam à mesa sermos nós ainda a criança generosa. E que se houvesse menos frango ou mais gente, ofereceríamos a parte melhor.
Alguns ficaram com as minhas partes piores. Os que não amei, não gostavam de me ver comer frango. Comiam ossos e deram cabo de mim. Ainda me telefonam. Os que amei iam comigo à churrasqueira, pediam molho picante à parte (sempre tive medo de perder o ar) e batatas fritas na hora. Um dia, nunca mais me quiseram ver.
Apenas pelos meus irmãos soube dividir-me. Apenas eles ficaram para lá da refeição.
Não quero com isto justificar-me. Entendo. Parti bem o frango mas parti sempre mal.
Só que às vezes lamento ninguém ter esperado que eu crescesse. É natural. Em tempo de aviários, ninguém espera isso de um frango.
Filipa Leal Fósforos e Metal Sobre Imitação de Ser Humano
"Não sei se estas árvores são laranjeiras. Não sei distinguir as laranjeiras quando estão sem laranjas. O mesmo me acontece com alguns livros e com algumas pessoas."
Ora, nessa base, ainda bem que ainda não perdi essa capacidade de distinção. Este livro é uma laranjeira extremamente seca. Cheio de lugares-comuns, cheio de clichés, cheio de palavrinhas só pelo seu impacto pseudo-profundo mas que, na verdade, não fazem sentido nenhum e são só uma fraca amálgama de palavras que, para leitores fáceis e que procuram esses lugares fáceis, parece ser bonitinho o suficiente. Não sei em quem ficar mais desapontado—se na Filipa Leal por decidir enviar isto para publicação após o livro anterior, tão mais honesto e sem sentimentalismos a roçar no parvo e no falso como os deste, ou se na Assírio & Alvim por irem em frente com a desastrosa decisão de publicação do mesmo.
"Dizia-te do minuto certo. De um minuto certo do amor. Dizia que queria olhar para os teus olhos e ter a certeza de que pensavas em mim. Que me pensavas por dentro. (...) Queria que me quisesses certa, exacta, como o minuto onde me pudesses encontrar. Eu nunca quis de ti uma continuidade mas um alívio, uma noção de ser gente, entendes? Eu nunca quis de ti o sonho do sono ou da viagem. Nunca te pedi o pequeno-almoço, a ternura. Nunca te disse que me abraçasses por trás, que adormecesses. Eu nunca quis que me desses casa e filhos e lógica. Que me convidasses para dançar. Queria os teus olhos a fecharem-se comigo por dentro e tu por dentro de mim.
Acho os poemas da Filipa muito próximos, muito visuais, como se fosse possível ver cada verso acontecer à nossa frente. Gosto especialmente de notar esta capacidade de contas histórias e este sentido de humor na poesia. Somos muitas vezes levados a crer que a poesia só se faz de certa forma, com certas palavras, sobre certos temas. E se essa ideia de poesia é, muitas vezes, o que nos afasta dela, é esta poesia mais livre — de preconceitos, acima de tudo — que revela a sua beleza na totalidade, porque não há nada mais bonito do que a elasticidade dos géneros, a transversalidade da arte e as palavras comuns que só os poetas parecem saber usar para nos lembrar do quanto vivemos rodeados de poesia.
É indescritível quando, por acaso, descobrimos um autor ou uma autora de que muito gostamos e que tanta falta nos fazia na vida. É algo precioso que dá vontade de partilhar, mas ao mesmo tempo tão pessoal que essa partilha parece sempre aquém do que se sente por mais que tentemos explicar. Este livro fazia-me falta a poesia da Filipa Leal fazia-me falta e acho que me vai acompanhar daqui para frente.
«Dizia-te do minuto certo (…) Eu nunca abri as perna no liceu. (…) Eu nunca me comovi com o sonho de ser tua. Eu nunca quis que ficasses, entendes? Que viesses. Queria que quisesses de mim esse minuto certo, essa rua húmida de ser norte. (…) Nunca te pedi o pequeno-almoço, a ternura. (…) Queria os teus olhos a fecharem-se comigo por dentro e tu por dentro de mim. Queria de ti um minuto. Um minuto.»
Aún más sentido que el anterior. La misma voz, pero más intensa: se nota que estaba en un momento más difícil y tenía que sacarlo de la forma que podía. Melancólica en ocasiones, incluso triste, pero sin dramas y siempre insightful. Corazón calentito. 💜
o último texto devia ser o primeiro e cada um dos seguintes devia ter um esboço da escultura a acompanhar. não consigo sentir as palavras sem as entender.
Voltar à poesia da Filipa Leal é sempre um aconchego. E acho que nunca conseguirei expressar todo o amor que tenho pelos versos «Eu não sabia que dançar era por dentro./Eu não sabia que dançar era até ao fim»