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Fósforos e Metal sobre Imitação de Ser Humano

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Mulher a inventar o corpo, a boca
cheia de vestígios de pântano, de heras,
de lodo, de incomunicabilidade.
Mulher segurando a máscara,
preparando-se para o esconderijo,
para a fácil loucura de já não ser real.
Mulher de perfil, tão pendurada, tão sem olhos
frontais, provocando-se a própria obra que a inclui,
desmotivando-se de tudo o que não for matéria,
soltando-se de todos os que a vêem bem.
Mulher enchendo-se de bronze,
tapando-se com a escultura que ela fará

de si mesma.

72 pages, Paperback

Published February 1, 2019

170 people want to read

About the author

Filipa Leal

26 books50 followers

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Community Reviews

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3 stars
38 (20%)
2 stars
8 (4%)
1 star
6 (3%)
Displaying 1 - 30 of 30 reviews
Profile Image for Paula Mota.
1,690 reviews575 followers
October 21, 2024
É SÓ HUMOR NEGRO, AMOR
(Cutelo e nariz de palhaço sobre madeira, 2018)

Sempre que se expunha ao ridículo, pensava
que os humoristas também eram casados.
Alguns até talvez fossem alvo de admiração
dos seus cônjuges.
Não resistia ao humor, mesmo quando sabia
que ia ficar feia, desgrenhada, nada misteriosa.

Não tenhas medo, amor, é só humor negro.
Eu até conheço outros mas prefiro o negro
Porque dá mais jeito ao exagero, à estupefação.

Não há razão para desconfiança, amor,
É só humor negro: daquele que não te faz rir
porque tu sempre preferiste a discussão.


Inteligência não é a primeira palavra que me ocorre quando penso em poesia, mas no caso de Filipa Leal, aplica-se na perfeição. São textos despretensiosos, coloquiais, criativos, sarcásticos, mas reveladores de uma tremenda argúcia, em que, graças às referências culturais e experiências de vida, o leitor (pelo menos esta leitora) facilmente se sente próximo e se identifica com o que está escrito. Estando dividido em três partes, Exposição de Escultura, Projecto Político e O Quadrado do Panamá, é no primeiro segmento que se encontram os meus poemas preferidos, com títulos tão irreverentes como “A Primeira Tinta (Tinta de Choco sobre Cabeleira – 2007)” e “O Fim do Cinismo” (Cinza e chaves sob fita-cola, 2017).

DEIXEI DE SER SIMPÁTICA
(Barro 2016)

Estou calada a escolher-te.
Recuso a simpatia da infância póstuma,
do pós guerra ao real, do trabalho de ser eu.
Ouve os homens que tenho na barriga.
Gritam mal, enchem-me de dor e de dobra.
Fico aqui atirada pela noite, mexendo-me
pouco, com medo da adulta que vês mal
porque está escondida, barricada, disfarçada
de buraco onde possamos ser outros ainda mais
vazios. Deixei de ser simpática precisando ainda
da alegria da rua, da alegria que a rua furou,
rua escorregada de óleo e de pétalas.
Estou calada e estragada a escolher-te
e tu apareces e desapareces nos degraus da cama
grande. É como se subisses ou descesses a insónia
pela roupa tão lavada. Temos insónias separadas.
Ouves?
Estou tão calada.
Profile Image for Esther Brum.
59 reviews35 followers
October 19, 2022
É muito difícil não nos identificarmos com as experiências de vida e nos envolvermos .

Só aparentemente pode parecer uma escrita fácil .
Deve ser muito difícil escrever assim com tanta argúcia e inteligência e resultar tão despretensioso
Profile Image for la poesie a fleur de peau.
508 reviews62 followers
April 9, 2021
"Eu nunca quis que ficasses, entendes? Que viesses. Queria que quisesses de mim esse minuto certo, essa rua húmida de ser norte. Queria que me quisesses certa, exacta, como o minuto onde me pudesses encontrar. Eu ser gente, entendes? Eu nunca quis de ti o sonho do sono ou da viagem. Nunca te pedi o pequeno-almoço, a ternura. Nunca te disse que me abraçasses por trás, que adormecesses. Eu nunca quis que me desses casa e filhos e lógica. Que me convidasses para dançar. Queria os teus olhos a fecharem-se comigo por dentro e tu por dentro de mim.

Queria de ti um minuto. Um minuto."

Excerto d'"O Minuto Certo".

***

Não me identifiquei com a escrita da Filipa Leal, mas houve uma excepção, e que grande excepção: estava no comboio, a regressar a casa depois de um dia de trabalho, e sentia que os poemas pelos quais passava tinham impressa a realidade física, demasiado física, em que já nos movemos (ginásios que ainda não se frequentam, medo de ladrões, fios de mangas nos dentes: okay, confesso que aprecio o humor dela), e depois chegou esse "Minuto Certo" — veio sem ser anunciado, veio rasgar com uma camada de resistência que estava a criar à poesia da Filipa Leal, e é por causa dele que vou querer continuar a explorar a obra da autora (que conheço pouco, muito mal: vou dar prioridade ao "Vem à Quinta-Feira", mas estou muito curiosa em relação ao "Adília Lopes Lopes").
Profile Image for David Pimenta.
378 reviews19 followers
July 24, 2019
"Dizia-te do minuto certo. De um minuto certo do amor. Dizia que queria olhar para os teus olhos e ter a certeza de que pensavas em mim. Que me pensavas por dentro. Que eu era a tua fantasia, o teu banco de trás. O teu desconforto de calças caídas, de pernas caídas da rua que não estava fechada porque nenhuma rua se fecha para o amor"
Profile Image for Joana da Silva.
476 reviews785 followers
March 29, 2021
Este livro é incrível e eu só quero ler tudo o que vier da Filipa Leal. Que coisa mais bonita, senhores.
Profile Image for Beatriz Sertório .
122 reviews60 followers
July 14, 2023
3,5. Gostei mais do Vem à Quinta-feira mas ainda assim vale sempre a pena ler Filipa Leal.
Profile Image for Carmo.
133 reviews6 followers
February 8, 2024
Gosto de Filipa Leal. Mentira, gosto muito -mesmo muito - da Filipa Leal.
Vou sempre com expectativas elevadas para cada livro. Vou sempre com a ideia: é para sublinhar tudo, marcar tudo. Reter tudo. Não aconteceu aqui. Atenção, o livro - a poesia que compõe este livro - não é má. Não é “assim-assim poesia”. Mas procuro em poesia um toque mais, uma espécie de abraço. Ao ler este livro, os braços ficaram abertos mas não se fecharam para me consolar.

“(…)
Não é a terra que é estreita, sou eu.”
Profile Image for Sol Barbosa.
58 reviews4 followers
July 19, 2019
Sendo um bom livro, é mais irregular do que "Vem à quinta-feira", de que gostei mais. Este tem poemas magníficos, como o primeiro (aliás a primeira secção é mais bem conseguida) e outros algo pobres, como "Sujar as mãos", por exemplo. Globalmente lê-se com prazer, mas esperava mais.
Profile Image for Isabel Fernandes.
9 reviews1 follower
February 15, 2023
"O avô Mário e a avó Isabel traziam-nos muito a Vigo
quando éramos crianças.
Não me lembro de nada.
Só da lavanda puig.
Só dos caramelos.
Só de não haver nada em Portugal
e Vigo ter El Corte Inglés.
Ontem lembrei-me que, daqui, os avós me levaram
a minha primeira, e única, Barbie.
Era (se bem me lembro) a Barbie-Viagem.
Tinha uma saia de tule e, do avesso, de veludo travada
e na mão (se bem me lembro), a mala. A mala estava
(se bem me lembro) vazia, como sempre está
quando somos crianças.
O avô Mário morreu na véspera de Natal.
Lembro-me bem.
Eu tinha 16 anos e a mala começou a pesar.
Sei que fui feliz em Vigo dessa forma melhor:
a que nem precisamos de lembrar."
Profile Image for Salome Santos.
13 reviews
August 9, 2022
Não conhecia a autora, mas sem dúvida uma óptima descoberta.
Sem dúvida para voltar a ler, pois a poesia de Filipa Leal tem muitas camadas para serem descobertas.
O humor usado na sua poesia é também muito interessante.
Profile Image for Vera Espinha.
35 reviews1 follower
October 12, 2022
A DIVISÃO DO FRANGO
(Ossos, plasticina, 2017)

Alguns ficaram com as minhas partes
piores. Isto é como a divisão do frango
em família numerosa. Faltam coxas para todos.
Isto é como a aprendizagem da generosidade:
o peito ou o pescoço ou as asas. Lá em casa,
fazíamos de conta que preferíamos outra coisa
e dávamos as partes melhores aos irmãos.
Sei que eu e os meus irmãos tivemos sempre
uns dos outros as partes melhores.
Parece-me justo e valioso. Parece-me informação
digna de CV ou de Wikipédia. Isto devia dar empregos.
Isto devia ser o primeiro dado de uma biografia:
“dava a parte melhor do frango aos seus irmãos”.

E depois apaixonamo-nos. Complica-se a divisão do frango
quando há coxas para todos: para dois.
Difícil haver tanta coxa. Difícil não ser preciso dividir.
Difícil ver cada vez menos os irmãos, que provariam à mesa
sermos nós ainda a criança generosa. E que se houvesse
menos frango ou mais gente, ofereceríamos a parte melhor.

Alguns ficaram com as minhas partes piores.
Os que não amei, não gostavam de me ver comer frango.
Comiam ossos e deram cabo de mim. Ainda me telefonam.
Os que amei iam comigo à churrasqueira, pediam molho picante
à parte (sempre tive medo de perder o ar) e batatas fritas na hora.
Um dia, nunca mais me quiseram ver.

Apenas pelos meus irmãos soube dividir-me.
Apenas eles ficaram para lá da refeição.

Não quero com isto justificar-me. Entendo.
Parti bem o frango mas parti sempre mal.

Só que às vezes lamento ninguém ter esperado
que eu crescesse. É natural.
Em tempo de aviários, ninguém espera isso de um frango.

Filipa Leal
Fósforos e Metal Sobre Imitação de Ser Humano
Profile Image for Tiago.
58 reviews16 followers
June 26, 2019
A certo ponto, Leal diz:

"Não sei se estas árvores são laranjeiras.
Não sei distinguir as laranjeiras
quando estão sem laranjas.
O mesmo me acontece com alguns livros
e com algumas pessoas."

Ora, nessa base, ainda bem que ainda não perdi essa capacidade de distinção. Este livro é uma laranjeira extremamente seca.
Cheio de lugares-comuns, cheio de clichés, cheio de palavrinhas só pelo seu impacto pseudo-profundo mas que, na verdade, não fazem sentido nenhum e são só uma fraca amálgama de palavras que, para leitores fáceis e que procuram esses lugares fáceis, parece ser bonitinho o suficiente.
Não sei em quem ficar mais desapontado—se na Filipa Leal por decidir enviar isto para publicação após o livro anterior, tão mais honesto e sem sentimentalismos a roçar no parvo e no falso como os deste, ou se na Assírio & Alvim por irem em frente com a desastrosa decisão de publicação do mesmo.
Profile Image for Raquel Curvacheiro.
263 reviews3 followers
Read
March 26, 2025
O minuto certo

"Dizia-te do minuto certo. De um minuto certo do amor. Dizia que queria olhar para os teus olhos e ter a certeza de que pensavas em mim. Que me pensavas por dentro.
(...)
Queria que me quisesses certa, exacta, como o minuto onde me pudesses encontrar. Eu nunca quis de ti uma continuidade mas um alívio, uma noção de ser gente, entendes? Eu nunca quis de ti o sonho do sono ou da viagem. Nunca te pedi o pequeno-almoço, a ternura. Nunca te disse que me abraçasses por trás, que adormecesses. Eu nunca quis que me desses casa e filhos e lógica. Que me convidasses para dançar. Queria os teus olhos a fecharem-se comigo por dentro e tu por dentro de mim.

Queria de ti um minuto. Um minuto."
Profile Image for Sofia Costa Lima.
Author 4 books127 followers
Read
January 24, 2026
Acho os poemas da Filipa muito próximos, muito visuais, como se fosse possível ver cada verso acontecer à nossa frente. Gosto especialmente de notar esta capacidade de contas histórias e este sentido de humor na poesia. Somos muitas vezes levados a crer que a poesia só se faz de certa forma, com certas palavras, sobre certos temas. E se essa ideia de poesia é, muitas vezes, o que nos afasta dela, é esta poesia mais livre — de preconceitos, acima de tudo — que revela a sua beleza na totalidade, porque não há nada mais bonito do que a elasticidade dos géneros, a transversalidade da arte e as palavras comuns que só os poetas parecem saber usar para nos lembrar do quanto vivemos rodeados de poesia.
Profile Image for David Cachopo.
10 reviews
April 18, 2023
É indescritível quando, por acaso, descobrimos um autor ou uma autora de que muito gostamos e que tanta falta nos fazia na vida. É algo precioso que dá vontade de partilhar, mas ao mesmo tempo tão pessoal que essa partilha parece sempre aquém do que se sente por mais que tentemos explicar.
Este livro fazia-me falta a poesia da Filipa Leal fazia-me falta e acho que me vai acompanhar daqui para frente.
Profile Image for Vítor Leal Leal.
Author 1 book3 followers
June 14, 2025
«Dizia-te do minuto certo (…) Eu nunca abri as perna no liceu. (…) Eu nunca me comovi com o sonho de ser tua. Eu nunca quis que ficasses, entendes? Que viesses. Queria que quisesses de mim esse minuto certo, essa rua húmida de ser norte. (…) Nunca te pedi o pequeno-almoço, a ternura. (…) Queria os teus olhos a fecharem-se comigo por dentro e tu por dentro de mim. Queria de ti um minuto. Um minuto.»
Profile Image for Bab.
335 reviews25 followers
February 29, 2024
Aún más sentido que el anterior. La misma voz, pero más intensa: se nota que estaba en un momento más difícil y tenía que sacarlo de la forma que podía. Melancólica en ocasiones, incluso triste, pero sin dramas y siempre insightful. Corazón calentito. 💜
Profile Image for Manuel Gil.
337 reviews56 followers
October 13, 2019
Consigue que manteña un leve sorriso ao longo do libro de complicidade, risa ou mesmo incomodidade. Non deixes de escribir, Filipa.
Profile Image for Nád!a.
136 reviews9 followers
March 27, 2021
"Devolveste-me:
as chaves de minha casa;
duas tragédias gregas
que eu tinha deixado na tua mesa de cabeceira."
Profile Image for Julia Peccini.
Author 12 books11 followers
May 8, 2023
Impressionada com a facilidade com que Filipa parece mostrar, de entrelaçar elementos e conversas do cotidiano de forma tão criativa na poesia.
Profile Image for Inês  Fonseca.
132 reviews
August 2, 2025
o último texto devia ser o primeiro e cada um dos seguintes devia ter um esboço da escultura a acompanhar. não consigo sentir as palavras sem as entender.
Profile Image for Andreia Morais.
460 reviews33 followers
January 2, 2026
Voltar à poesia da Filipa Leal é sempre um aconchego. E acho que nunca conseguirei expressar todo o amor que tenho pelos versos «Eu não sabia que dançar era por dentro./Eu não sabia que dançar era até ao fim»
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