A história de vida de Zita Seabra, da infância à juventude e clandestinidade e à vida adulta, no PCP até à rutura com os ideais comunistas. Sem se justificar, sempre cândida e às vezes comovedora, Zita Seabra fala naturalmente de um mundo fantástico e brutal, que nunca foi descrito com tanta intimidade e tanta exactidão. Foi Assim é «o livro que faltava para perceber a grande tragédia do comunismo português» - tal como observa tão bem Pulido Valente.
Zita Seabra, goste-se muito ou pouco, ficará nas páginas de ouro (se não nas oficiais, nas de quem for justo) da resistência antifascista, da luta pelo direito ao aborto, do feminismo marxista português, da crítica à burocratização do PCP e da dissidência (oportunista?) quando o barco do “socialismo real” começou a afundar. Este é um testemunho muitíssimo válido, particularmente no referente à clandestinidade, embora repetitivo e, mais para o fim, algo ácido e ressentido.
Uma história de vida impressionante e interessante de ler, sobretudo para pessoas como eu que sempre viveram em democracia. A relevância do PCP no combate ao fascismo é notória e de louvar, contudo mostra-nos o lado negro desta ideologia que não é muito diferente para o povo do fascimo.
Pessoalmente, sinto-me bastante dividido sobre este livro. Porque nem é um grande texto, nem um grande documento histórico, mas mesmo assim continua a ser um livro importante.
Foi assim não é bem a história de Zita Seabra, será mais uma história de Zita Seabra. Se a selecção e organização de diferentes episódios que constam dum livro auto-biográfico são sempre fruto duma interpretação da sua relevância e importância, que nunca são fáceis pela falta de distância entre o autor e a personagem principal, neste livro por vezes ficamos com dúvidas se não há um ajuste de contas (consigo mesma, com a história, com as personagens da história recente portuguesa...) a imperar nessa interpretação. Claro que esta ideia pode estar errada, porque a maioria de nós não dispõe (ainda) de poderes telepáticos.
Posto isto, há várias razões pelas quais este livro é interessante e importante. Em primeiro lugar ele ajuda a entender o que era a resistência e a oposição há uma vida atrás, antes do 25 de Abril, e como é que ideais proibidos nessa época acabaram por moldar grande parte duma geração. Mas, e talvez de forma mais importante, porque é que alguém bem formado e de boas famílias acabava envolvido na resistência comunista - e porque razão isso não era assim tão estranho. E, por inerência, como o passar dos anos em geral e a queda da URSS em particular levou a um corte radical de muitos com o comunismo - para outros, não tão radical - e como isso acaba por fazer todo o sentido.
Realisticamente, a simples ânsia voyeurística de conhecer o dia-a-dia dum clandestino pré-revolução e o funcionamento de uma das organizações mais opacas da nossa história recente eram razões para justificar este livro. Mas, concorde-se ou não com muitas das suas ideias e pulsões, Zita Seabra não é uma figura quadrada, e muito neste livro - opinião ou facto - é simplesmente interessante.
Um livro muito corajoso, como testemunho de vida sincero, doloroso e libertador. Tem duas leituras: a histórica, no relato vivido de factos recentes que dizem respeito a todos os portugueses; e a individual, como percurso de vida que se segue a par e passo, com identificação com a pessoa/autor. A leitura é aditiva, pelo que é difícil fechar o livro, mesmo no fim dos capítulos. Definitivamente, um livro de leitura recomendada.
I liked it and found it very interesting. Zita was deeply involved in the Portuguese politics of the 70s and 80s and the transition to democracy,. Her testimony of clandestine fight against the dictatorship, the days of the revolution, the communist party inside life, and then the collapse of the USSR and how the party reacted - are all very good.
The reflection is - how could they fight a totalitarian regime without noticing that their own party was a totalitarian organization?
Livro fascinante do início ao fim, que se lê num repente e que é muito difícil pousar.
A história de vida duma rapariga da "burguesia", combativa e apaixonada, que decide aos 17 anos abandonar a sua vida de conforto e ludismo, rodeada de gente de classe alta, para abraçar o romantismo da luta pela liberdade e, tragicamente, da via para o comunismo.
Zita Seabra relata-nos o atavismo, o regime bafiento, o desejo ardente de liberdade, de ser um país igual aos outros. Na história da sua vida clandestina, primeiro como camarada "de casa" e depois já na organização, temos oportunidade de conhecer os métodos da resistência, o medo, até o tédio e a solidão, e as muitas histórias dos homens e mulheres que ousaram.
Um relato sincero, genuíno, e muitas vezes comovente, de quem por um ideal sofreu as agruras dum desterro interno auto-imposto, dos remorsos amargos de ter abandonado os seus. Ficamos com a sensação que a Zita Seabra sempre teve em si a humanidade necessária para fazer a auto-reflexão que motivou a sua posterior dissidência.
Contando com emoção o que foi a chegada da liberdade, da esperança no futuro e a reunião com a sua família ao fim de 7 anos, acompanhamos o seu envolvimento mais aprofundado no PCP, agora legalizado, vendo-o já do seu âmago. Zita conta a sua ascensão no aparelho do partido, o seu trabalho de base juntos dos estudantes comunistas, da preparação para a insurreição armada nos tempos do PREC para a instauração dum regime socialista.
Esse é outro dos aspectos fascinantes do livro. Temos oportunidade ver a "besta" por dentro, a ortodoxia, a firmeza nas convicções a roçar a crueldade, a ideologia como objectivo último, enfim, a mentalidade quase de culto religioso. Aliás, este poderia ser um livro de psicologia. A própria Zita começa por demonstrar-se um elemento completamente fiel à linha partidária e que, lentamente, com as derrotas internas, tanto as eleitorais como a do 25 de Novembro, com o contacto (ainda que controlado) com os países do "socialismo real", com as manifestações de inacreditável frieza dos membros do Comité Central do PCP e do Secretário Geral, Álvaro Cunhal, (um personagem de filme na vida real - fica a sensação que o interesse do livro muito deve a estas interessantíssimas pessoas daquele período; Mário Soares é outro deles) começa a despertar. A Zita respeita este processo no livro, sendo as suas demonstrações de discordância ou inquietação raríssimas nas partes iniciais do livro e muito frequentes a partir de certa altura.
É igualmente comovente o relato da Zita Seabra da sua luta consigo mesma, uma que ela levou até ao nível do adoecimento quando tomou consciência da brutalidade de algo que lhe era tão caro e tão essencial à sua identidade própria. Quantos de nós teríamos a coragem - e esta é uma palavra que claramente a define - de enfrentar tudo e todos aqueles que conhecemos, e nós próprios, para mudarmos tão fundamentalmente?
No final, Zita desperta para a monstruosidade mas não lamenta ter dedicado a sua juventude à causa da liberdade, como tantos outros que passaram pela sua geração sem a ver.
Um livro que não marca pela escrita incrível (porque não o é, há frases que se repetem pex) mas por uma história verídica incrível. A de alguém que vive 7 anos clandestinamente a combater uma ditadura e que anos mais tarde percebe que o ideal que defendia acerrimamente é uma ditadura tão má ou pior (pelo menos em números de mortes, o comunismo ultrapassa quaisquer números da ditadura portuguesa; "uma morte é uma morte, as vítimas do fascismo têm nome e são lembradas, as do comunismo são números e são esquecidos."), Tem passagens muito interessantes, como a da preleção que Álvaro Cunhal dá a Zita antes da viagem dela à URSS (pág. 325), arranjando todo o tipo de explicações externas ao regime para justificar que o que lá encontrará não irá corresponder às expectativas do ideal comunista. Um livro sobre a luta contra a ditadura que se vivia em Portugal, do crescimento pessoal, da descoberta do mal infligido pelo comunismo, e da coragem de enfrentar tudo e todos.
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Devia ser leitura obrigatória no ensino secundário!
Não hesito em recomendar este documento autobiográfico como importante registo histórico da segunda metade do século XX português. A resistência à ditadura, a clandestinidad, o 25 de Abril, o PREC, a queda do comunismo são retratadas na primeira pessoa, com uma honestidade desarmante.
Quando um dos quadros mais promissores do PCP descobre que a Ideologia que norteou a sua vida é afinal uma ideologia autoritária, manipuladora, dissimulada e com um rasto de mortes impressionante. Retrato em nome pessoal de quem percorreu este caminho. Obrigatório
Adorei o livro. História inacreditável de uma mulher que esteve presente nos momentos importantes da história recente de Portugal. Fiquei com uma certa aversão ao PCP por razões óbvias. Recomendo também ouvir o episódio da Zita Seabra no podcast Despolariza, em que discutem vários tópicos sobre este livro, o período antes do fim da ditadura e os anos que se seguiram.