Sobre o trabalho poético de Juan Vicente Piqueras escreveu Jesús Bregante, autor do Diccionario de Literatura Española: «Alheio a modas, etiquetas e correntes literárias, é um dos poetas mais originais e interessantes do panorama literário espanhol. Os seus versos são de uma riqueza expressiva extraordinária, com uma delicada destreza na criação de imagens.» Instruções para Atravessar o Deserto é uma antologia preparada em diálogo com o autor e constitui a primeira tradução da sua poesia para português.
SAI DE TI (...) Abre o teu coração couraçado à união do céu com o mar, da luz com a sombra, do canto dos grilos com o das cigarras. Pinta de azul a alma. Troca o que foste pelo que não serás. (...) E sai de ti, do que pensas de ti. Sai desse quarto escuro onde escreves poemas que dizem o que tens de fazer em vez de o fazer. (...) Não permitas que a vida se perca no vazio, que a morte ao chegar encontre já feito o seu trabalho. Olha o céu como quem diz adeus, como quem agradece.
Demorei um pouco a estabelecer ligação com “As Instruções para Atravessar o Deserto”. O estilo mais narrativo do que lírico, que tantas vezes me puxa imediatamente, não estava a cativar-me, e talvez também pelos temas explorados: Grécia, mitos, viagens, o imaginário do deserto. Aqui e ali, começou a despertar-me o interesse com a subversão de alguns poemas, como “Lázaro Nega-se a Ressuscitar”...
(...) Uma voz chamou-me: Lázaro, disse, levanta-te e caminha. Reconhecia-a mas fingi não a ouvir. Lembrei-me de Jonas. Fiquei quieto. Pensei: preferia não o fazer, não sair nunca daqui.
...e “Testemunho do Homem da Gávea”
Para dizer a verdade, pareceu-me um gesto de presunção, muito dele, a urgência com que nos pediu que o atássemos ao mastro para escapar ao canto das sereias. (...)
Foram, porém, os poemas mais para o final, em que se assiste a momentos da velhice, da decadência física e mental (“Nomes Apagados”, “O Barbeiro”) e até ao instante preciso da morte (“Como estás”) que me impressionaram de tão verdadeiros que me soam.
O QUARTO VAZIO Era um dos teus jogos preferidos. O que é que há num quarto vazio?, perguntavas. Ficávamos em silêncio.
O que é que há num quarto vazio?
Os que não conheciam o jogo talvez dissessem: Nada, e tu dizias: Não. Não é nada, eu disse o quê.
Até que alguém dizia, por exemplo: Silêncio. E tu dizias: Sim. E outro dizia: Pó. E o jogo começava a ganhar asas.
Umas marcas de passos no chão. Um fantasma. Uma tomada. O buraco de um prego. A penumbra. O quadrado que a ausência de um quadro deixa na parede. Um fio. Uma carta no chão. A marca de uma mão na parede. Um raiozinho de sol que entra pela janela. (...)
Tu ias dizendo sim ou não. Tu sabias. Eras o inventor do jogo. Tu já sabias, Carlos, o que há no quarto vazio onde acabas de entrar.
Era um dos teus jogos preferidos. - O que é que há num quarto vazio? - Um fantasma. - Já disseram. - Sim, mas o que eu digo é outro.
"Se eu fosse a ti amava-me, telefonava, não perdia tempo, dizia-me que sim. Não hesitava mais, fugia. Dava o que tens, o que tenho, para ter o que dás, o que me darias. Soltava o cabelo, chorava de prazer, cantava descalça, dançava, punha em fevereiro um sol de agosto, morria de prazer, não punha nenhum mas a este amor, inventava nomes e verbos novos, estremecia de medo perante a dúvida de que fosse só um sonho, fugia, para sempre de ti, de ali, comigo. Dizia-me que sim, vinha a correr para os meus braços, ou pelo menos, sei lá, respondia às minhas mensagens, às minhas tentativas de saber que é feito de ti, telefonava-me, que será de nós, dava-me um sinal de vida, se eu fosse a ti."
As pessoas tendem a desaparecer. Um dia fazem-nos rir e depois já não estão. Um dia telefonam-nos todos os dias para saber como estamos, e agora já não consegues sequer lembrar-te das suas vozes.
Um dia disseram sempre e sempre acabou por ser nunca mais.
As pessoas parecem-se com fantasmas. Aparecem, seduzem, acreditamos nelas, assustam, brilham e desaparecem.
Partem e, de repente, já não existem, como se nunca tivessem existido.
Adorei! "Conhecer" o poeta antes de o ler foi fundamental para entender na sua plenitude os poemas maravilhosos desta antologia. O sentimento associado a palavras como "sede" e "infância" estão belissimamente descritos com uma intimidade cativante.
Um livro de poemas escolhidos. Dos escolhidos, escolhi alguns que li e reli e li e reli. Lindíssimos. Gosto de dobrar as folhas das páginas a que quero voltar. O livro ficou tão dobrado! Destaco o poema “canção do suicida” e “testemunho do homem da Gávea” e “sai de ti” e “Manga”.
“Não permitas que a a vida se perca no vazio, que a morte ao chegar encontre já feito o seu trabalho” p. 104
Confesso que a combinação do título e da capa me chamaram a atenção, mas acima de tudo, depois de ter lido o livro, fui surpreendido pela positiva, foram vários os poemas que gostei como por exemplo: "Advérbios de lugar", "Instruções para atravessar o deserto", "História universal" e "Visto e não visto". A forma como consegue consegue criar imagens escritas e tocar temáticas profundas e sensíveis fez com que ganhasse um novo leitor.
Copos de sede Se duvidas da tua sede, se não te atreves a perguntar-lhe ou a dar-lhe um nome, se só sabes que procuras água que a sacie e não encontras senão poços, e neles ecos que te chamam, bebe.
Se a sede ao beber desaparece é porque era só sede. Continua a procurar.
Mas se cresce em ti quando a sacias, se queres não deixar de ter sede e sim continuar a beber dia e noite copos de sede, não duvides: podes chamar-lhe amor, continuar sofrendo, e saber que não existe quem te guie.
Numa linguagem simples, mas cheia de vida, a poesia de Juan Vicente Piqueras é de uma inteligência e sensibilidade únicas. Muito boa a seleção de poemas neste livro – foi o meu primeiro encontro com o autor e certamente que não será o último.
"Sei que a pena não vale a pena.
Sei que a alegria não pode ser dita.
Sei que o amor, essa missão selvagem, delicada, impossível, é a única forma de estar neste mundo sem errar.
Sei que a morte resolve todas as coisas. Sei que a morte, não, quero dizer a vida, é um pardal numa árvore despida ou numa amendoeira em flor, cantando à luz, dando graças aos céus por tudo sem o saber."
Entrei numa livraria, o damasqueiro chamou-me e o título fez-me abrir o livro para conhecer a escrita de Juan Vicente Piqueras. Gostei muito de ler alguns dos poemas, nomeadamente "Sai de ti", "Se eu fosse a ti", " Ladrão", "Copos de sede" e o "Instruções para atravessar o deserto", que empresta o nome ao livro. Vale a pena conhecer.