Jump to ratings and reviews
Rate this book

Instruções Para Atravessar o Deserto

Rate this book
Sobre o trabalho poético de Juan Vicente Piqueras escreveu Jesús Bregante, autor do Diccionario de Literatura Española: «Alheio a modas, etiquetas e correntes literárias, é um dos poetas mais originais e interessantes do panorama literário espanhol. Os seus versos são de uma riqueza expressiva extraordinária, com uma delicada destreza na criação de imagens.» Instruções para Atravessar o Deserto é uma antologia preparada em diálogo com o autor e constitui a primeira tradução da sua poesia para português.

144 pages, Paperback

Published February 1, 2019

3 people are currently reading
46 people want to read

About the author

Juan Vicente Piqueras

27 books3 followers

Ratings & Reviews

What do you think?
Rate this book

Friends & Following

Create a free account to discover what your friends think of this book!

Community Reviews

5 stars
33 (70%)
4 stars
8 (17%)
3 stars
6 (12%)
2 stars
0 (0%)
1 star
0 (0%)
Displaying 1 - 13 of 13 reviews
Profile Image for Paula Mota.
1,691 reviews576 followers
November 21, 2021
SAI DE TI
(...)
Abre o teu coração couraçado
à união do céu com o mar,
da luz com a sombra,
do canto dos grilos com o das cigarras.
Pinta de azul a alma. Troca
o que foste pelo que não serás.
(...)
E sai de ti, do que pensas
de ti. Sai desse quarto
escuro onde escreves poemas
que dizem o que tens de fazer em vez de o fazer.
(...)
Não permitas
que a vida se perca no vazio,
que a morte ao chegar encontre
já feito o seu trabalho. Olha o céu
como quem diz adeus,
como quem agradece.



Demorei um pouco a estabelecer ligação com “As Instruções para Atravessar o Deserto”. O estilo mais narrativo do que lírico, que tantas vezes me puxa imediatamente, não estava a cativar-me, e talvez também pelos temas explorados: Grécia, mitos, viagens, o imaginário do deserto. Aqui e ali, começou a despertar-me o interesse com a subversão de alguns poemas, como “Lázaro Nega-se a Ressuscitar”...

(...)
Uma voz chamou-me: Lázaro, disse,
levanta-te e caminha.
Reconhecia-a mas fingi não a ouvir.
Lembrei-me de Jonas. Fiquei quieto.
Pensei: preferia
não o fazer, não sair nunca daqui.


...e “Testemunho do Homem da Gávea”

Para dizer a verdade,
pareceu-me um gesto de presunção,
muito dele,
a urgência com que nos pediu
que o atássemos ao mastro
para escapar ao canto das sereias.

(...)

Foram, porém, os poemas mais para o final, em que se assiste a momentos da velhice, da decadência física e mental (“Nomes Apagados”, “O Barbeiro”) e até ao instante preciso da morte (“Como estás”) que me impressionaram de tão verdadeiros que me soam.

O QUARTO VAZIO
Era um dos teus jogos preferidos.
O que é que há num quarto vazio?,
perguntavas. Ficávamos em silêncio.

O que é que há num quarto vazio?

Os que não conheciam o jogo
talvez dissessem: Nada, e tu dizias: Não.
Não é nada, eu disse o quê.


Até que alguém dizia, por exemplo: Silêncio.
E tu dizias: Sim.
E outro dizia: Pó.
E o jogo começava a ganhar asas.

Umas marcas de passos no chão.
Um fantasma. Uma tomada. O buraco
de um prego. A penumbra.
O quadrado que a ausência de um quadro
deixa na parede. Um fio.
Uma carta no chão.
A marca de uma mão na parede.
Um raiozinho de sol que entra pela janela.

(...)

Tu ias dizendo sim ou não.
Tu sabias. Eras o inventor do jogo.
Tu já sabias, Carlos, o que há
no quarto vazio onde acabas de entrar.

Era um dos teus jogos preferidos.
- O que é que há num quarto vazio?
- Um fantasma.
- Já disseram.
- Sim, mas o que eu digo é outro.
Profile Image for la poesie a fleur de peau.
508 reviews62 followers
July 29, 2024
9/10

"Se eu fosse a ti amava-me, telefonava,
não perdia tempo, dizia-me que sim.
Não hesitava mais, fugia.
Dava o que tens, o que tenho,
para ter o que dás, o que me darias.
Soltava o cabelo, chorava
de prazer, cantava descalça, dançava,
punha em fevereiro um sol de agosto,
morria de prazer, não punha
nenhum mas a este amor, inventava
nomes e verbos novos, estremecia
de medo perante a dúvida de que fosse
só um sonho, fugia,
para sempre de ti, de ali, comigo.
Dizia-me que sim, vinha
a correr para os meus braços,
ou pelo menos, sei lá, respondia
às minhas mensagens, às minhas tentativas
de saber que é feito de ti, telefonava-me,
que será de nós, dava-me
um sinal de vida, se eu fosse a ti."
Profile Image for Dário Moreira.
73 reviews16 followers
September 16, 2022
As pessoas tendem a desaparecer.
Um dia fazem-nos rir e depois já não estão.
Um dia telefonam-nos todos os dias
para saber como estamos,
e agora já não consegues sequer lembrar-te das suas vozes.

Um dia disseram sempre
e sempre acabou por ser nunca mais.

As pessoas parecem-se com fantasmas.
Aparecem, seduzem, acreditamos nelas,
assustam, brilham e desaparecem.

Partem e, de repente, já não existem,
como se nunca tivessem existido.

Chegamos a convencer-nos de que as sonhámos.

Eu sou uma delas.

Morrer, no nosso caso,
é uma redundância.
Profile Image for Luluísa.
247 reviews27 followers
June 13, 2022
Os últimos poemas bateram-me forte 🥲
Profile Image for João Cruz.
364 reviews23 followers
April 3, 2019
Adorei!
"Conhecer" o poeta antes de o ler foi fundamental para entender na sua plenitude os poemas
maravilhosos desta antologia. O sentimento associado a palavras como "sede" e "infância"
estão belissimamente descritos com uma intimidade cativante.
Profile Image for Filipa Costa Pereira.
74 reviews4 followers
January 20, 2024
Um livro de poemas escolhidos. Dos escolhidos, escolhi alguns que li e reli e li e reli. Lindíssimos. Gosto de dobrar as folhas das páginas a que quero voltar. O livro ficou tão dobrado!
Destaco o poema “canção do suicida” e “testemunho do homem da Gávea” e “sai de ti” e “Manga”.

“Não permitas que a a vida se perca no vazio, que a morte ao chegar encontre já feito o seu trabalho” p. 104
Profile Image for Rúben Marques.
3 reviews4 followers
June 10, 2021
Confesso que a combinação do título e da capa me chamaram a atenção, mas acima de tudo, depois de ter lido o livro, fui surpreendido pela positiva, foram vários os poemas que gostei como por exemplo: "Advérbios de lugar", "Instruções para atravessar o deserto", "História universal" e "Visto e não visto".
A forma como consegue consegue criar imagens escritas e tocar temáticas profundas e sensíveis fez com que ganhasse um novo leitor.
Profile Image for Conceição Menezes.
24 reviews12 followers
August 19, 2023
Copos de sede
Se duvidas da tua sede, se não te atreves
a perguntar-lhe ou a dar-lhe um nome,
se só sabes que procuras água
que a sacie e não encontras senão poços,
e neles ecos que te chamam, bebe.

Se a sede ao beber desaparece
é porque era só sede. Continua a procurar.

Mas se cresce em ti quando a sacias,
se queres não deixar de ter sede
e sim continuar a beber dia e noite
copos de sede, não duvides:
podes chamar-lhe amor, continuar sofrendo,
e saber que não existe quem te guie.
Profile Image for Clélia Nelson.
3 reviews
October 21, 2022
Numa linguagem simples, mas cheia de vida, a poesia de Juan Vicente Piqueras é de uma inteligência e sensibilidade únicas. Muito boa a seleção de poemas neste livro – foi o meu primeiro encontro com o autor e certamente que não será o último.

"Sei que a pena não vale a pena.

Sei que a alegria não pode ser dita.

Sei que o amor, essa missão selvagem,
delicada, impossível, é a única forma
de estar neste mundo sem errar.

Sei que a morte resolve todas as coisas.
Sei que a morte, não, quero dizer a vida,
é um pardal numa árvore despida
ou numa amendoeira em flor,
cantando à luz,
dando graças aos céus por tudo
sem o saber."
Profile Image for Sónia Carvalho.
196 reviews17 followers
February 23, 2019
Entrei numa livraria, o damasqueiro chamou-me e o título fez-me abrir o livro para conhecer a escrita de Juan Vicente Piqueras. Gostei muito de ler alguns dos poemas, nomeadamente "Sai de ti", "Se eu fosse a ti", " Ladrão", "Copos de sede" e o "Instruções para atravessar o deserto", que empresta o nome ao livro. Vale a pena conhecer.
Displaying 1 - 13 of 13 reviews

Can't find what you're looking for?

Get help and learn more about the design.