Brilhante e imarcescível é a sabedoria! E é facilmente discernida por aqueles que a amam; E será encontrada por aqueles que a procuram. Pois há nela um espírito inteligente, santo, Único, multifacetado, subtil, Móbil, lúcido, impoluto, Claro, invulnerável, que gosta do bem, agudo, Irreprimível, benfazejo, amigo da Humanidade, Firme, seguro, despreocupado, Poderoso em tudo, que tudo vê, Que penetra através de todos os espíritos Que são inteligentes, puros e subtilíssimos. Sabedoria 6:12; 7:22-23
A literatura sapiencial, já cultivada na Mesopotâmia e no antigo Egito, constitui um dos mais antigos géneros literários. A Bíblia transmite-nos vários textos pertencentes a este género. Reunidas neste primeiro tomo do Volume IV da Bíblia traduzida por Frederico Lourenço, encontramos vozes contrastantes e complementares do antigo pensamento judaico, que nos dão a ouvir o pessimismo desassombrado de Eclesiastes, a exaltação erótica do Cântico dos Cânticos, a revolta de Job, o rasgo filósofo do livro de Sabedoria e o pensamento controverso de Ben Sira, o Eclesiástico, cujas atitudes desumanas em relação a mulheres e escravos levantam questões incómodas, que estão, ainda hoje, no centro da nossa atualidade.
Books can be attributed to "Anonymous" for several reasons:
* They are officially published under that name * They are traditional stories not attributed to a specific author * They are religious texts not generally attributed to a specific author
Books whose authorship is merely uncertain should be attributed to Unknown.
Para um ateu, as referências à Bíblia trazem sempre um leve bafo a sacristia e a ideias muito retrógradas. Não é que este livro as não tenha, mas tem também passagens luminosas e por vezes inspiradas. A questão é essa: mesmo que não acreditemos que tenham sido divinamente inspiradas, qualquer amante de livros e da leitura poderá encontrar aqui belíssimos poemas. O Cântico dos Cânticos é delicioso, erótico e algo heterodoxo neste conjunto. O Eclesiastes, Sabedoria e o Eclesiástico estão cheios de sabedoria pré-cristã, ligada à literatura egípcia, suméria ou helenística. Não podemos ignorar o óbvio, e o óbvio é a fé que movia estas escrituras. Mas podemos lê-los como poetas que foram, tal como nos podemos deliciar com um quadro renascentista de motivos bíblicos. Não tenho dúvidas de que o facto de ser Frederico Lourenço a traduzir influencia a beleza da tradução, cujos comentários completamente não-dogmáticos são também fonte de deleite, conhecimento e inevitáveis gargalhadas quando a xenofobia, a misoginia ou qualquer preconceito dos autores (e dos tradutores modernos) é exposta e interrogada por FL. Em Eclesiático 30:17 («<É> melhor a morte do que uma vida amarga;/ E <é melhor> o descanso eterno do que uma doença crónica.») comenta: «Versículo bíblico pertinente para a discussão sobre a eutanásia.» Lembrei-me que numa manifestação recente se ouviam jovens e não-tão-jovens assumidamente católicos a argumentar que ninguém tinha o direito de fazer o trabalho de deus... Leiam a Bíblia, tá?
Tenho especial predileção pelos livros sapienciais da Bíblia. Paradoxalmente, talvez por isso não tenha aderido tão bem a esta tradução - tão diferente que por vezes sentia dificuldade em reconhecer os textos mais familiares. Pareceu-me que, neste volume, há muitos versículos enigmáticos, cujo sentido nos escapa. E as notas de rodapé (em menor número, parece-me, que nos volumes anteriores) nem sempre ajudam a clarificar as ideias transmitidas. Mesmo assim, é uma leitura enriquecedora. E o confronto entre traduções torna-se sempre interessante e desafiador.
Neste volume podemos encontrar textos ao mesmo tempo maravilhosos, e, em simultâneo, tenebrosos. São produto de sociedades patriarcais, violentas, que aceitavam a escravatura e submetiam mulheres e crianças aos pais e maridos. Mas são próximas de nós pelo seu desejo de virtuosidade.