Aquele Grande Rio Eufrates é a estreia poética de Ruy Belo, em 1961. Reeditada em 1972, com profundas modificações por parte do autor, é essa a edição que agora se publica, com prefácio de Fernando J.B. Martinho.
Acerca deste livro, escreve o autor no prefácio a edição de 1972: «É claro, até para mim, que de inocente pouco tenho pelo menos como poeta, que, ao longo de todos estes poemas, certas palavras afloram com maior frequência [...]. Citamos, mais ou menos ao acaso e sem a menor preocupação de ordem: morte, deus, folhas, homem, árvore, estações, primavera, palavras, chuva, cidade, manhã, dia, crianças, infância, coração, pássaros, mar. Poesia metafísica a deste livro? Decerto. Mas também – e não faltou quem o visse e o dissesse e me fizesse tomar consciência disso – poesia do quotidiano, onde de certa maneira sobressai um real que sucessivamente chega até nós, dessa forma humilde e comezinha que convém a realidade.»
RUY BELO nasceu a 27 de Fevereiro de 1933. Licenciado pela Faculdade de Direito de Lisboa, doutorou-se em Direito Canónico na Universidade São Tomás de Aquino, em Roma. Abandona a Opus Dei em 1961 e licencia-se em Filologia Românica, dedicando-se ao ensino. Foi Director-Geral do Ministério da Educação Nacional (1967-69), crítico literário, jornalista, fez numerosas traduções (por exemplo de Cendrars, Saint-Exupéry, Lorca e Borges) e ocupou o lugar de leitor de Português na Universidade de Madrid (1971-77). Publicou: Aquele Grande Rio Eufrates (1961), Boca Bilingue (1966) País Possível (1973), Transporte no Tempo (1973), A Margem da Alegria (1974), Toda a Terra (1976) e Despeço-me da Terra da Alegria (1977). Entre outras obras destaca-se a colectânea de ensaios literários Na Senda da Poesia (1969). A sua obra poética encontra-se coligada em Todos os Poemas (2001). Foi condecorado pela Presidência da República, a título póstumo, com o Grande-Oficialato da Ordem de Sant’Iago da Espada, em 1991.
Ruy Belo (1933-1978): His name is among the most significant Portuguese poets and essayists of the second half of the 20th century. The verses of his poems marked by emotion, where the author perceives God's existence, both in the self-reflection of texts and in the narratives of rural, rustic and straightforward landscapes. In the year he published his first book "Aquele Grande Rio Eufrates", in 1961, he broke with Opus Dei, of which he was a regular member in his youth. That's a singular truth the title and the poem that finished and named the book taken from a passage from the Bible - Book of Revelation XVI, 12. To finish my review, I thought this one was a bit a reflex of our current days - I had mixed feelings of death and life.
REMATE PARA QUALQUER POEMA Passeou pelos espelhos dos dias suas clandestinas alegrias que mal se reflectiram desertaram
Até ter nas minhas mãos “Aquele Grande Rio Eufrates”, Ruy Belo era apenas um nome sonante na minha cidade. Foi nela que o poeta morreu e fui eu e os meus jovens colegas que, há várias décadas, estreámos a escola (ciclo preparatório, como se dizia na altura) baptizada com o seu nome. Na “explicação que o autor houve por indispensável antepor a esta segunda edição”, escrita 10 anos depois de “Aquele Grande Rio Eufrates” ser publicado pela primeira vez, e que eu só li depois de terminar o livro para não ser influenciada pelo olhar impiedoso do criador, Ruy Belo é extremamente modesto em relação a ele, e por vezes, até demasiado crítico em relação aos seus versos, mas eu, simples leitora incapaz de fazer um poema que não fosse para nota, fiquei rendida. Vou voltar a estes poemas muitas vezes e quero conhecer a restante obra deste magnífico poeta.
CERTA CONDITIO MORIENDI Os poetas todos fitaram a morte e reuniram-se depois numa assembleia de riso para esquecer quem eram Mas era a morte a única saída
A grande surpresa para alguém que não gosta de referências religiosas de credo nenhum na literatura, foi a reverência que senti pelos poemas em que deus (assim grafado, para que “palavra alguma levante a cabeça a meio do frase”) é mencionado, e são muitos, já que até o próprio título aponta para a Bíblia. Nessa introdução, Belo comenta também, com alguma displicência, que a poesia deste livro é metafísica e quotidiana, mas cada vez percebo mais que essa combinação funciona perfeitamente comigo, que procuro uma interpretação metafísica daquilo que pode haver de mais banal. Segundo ele, as palavras que mais surgem nestes poemas são “morte, deus, folhas, homem, árvore, estações, primavera, palavras, chuva, cidade, manhã, dia, crianças, infância, coração, pássaros, mar”, às quais acrescento “esquinas”, termo que se repete muito e que eu considero cheio de significado.
QUANTO MORRE UM HOMEM Quando eu um dia decisivamente voltar a face àquelas coisas que só de perfil contemplei quem procurará nelas as linhas do teu rosto? Quem dará o teu nome a todas as ruas que encontrar no coração e na cidade? Quem te porá como fruto nas árvores ou como paisagem no brilho de olhos lavados nas quatro estações? Quando toda a alegria for clandestina alguém te dobrará a cada esquina?
[Obrigada, Luís. Primeiro, por me teres dado a conhecer um poeta tão magnífico e, depois, pela tua generosidade.]
"Acompanhando a recente curvatura da terra o primeiro olhar descreveu a sua órbita sobre as oliveiras. Só mais tarde a pomba roubaria o ramo e iria de árvore em árvore propagar a primavera Foi então que os olhos se cruzaram e estava dita a primeira palavra à superfície do tempo."
"Acompanhando a recente curvatura da terra o primeiro olhar descreveu a sua órbita sobre as oliveiras. Só mais tarde a pomba roubaria o ramo e iria de árvore em árvore propagar a primavera Foi então que os olhos se cruzaram e estava dita a primeira palavra à superfície do tempo."