"Vou lhes contar, através dessas palavras, sobre o dia que vi o diabo.” Três trabalhadores, imcunbidos de transportar sacas de farinha, são obrigados a cortar caminho justamente pelo lugar mais mal falado de toda a cidadezinha de Santa Clarice. Muito mais do que apenas boatos carrega a Floresta Dos Pagãos, mata do interior do Paraná. Logo, o som dos tambores irá anunciar algo muito mais antigo que espreita pelas árvores.
"Uma história de lobisomem como deve ser: escura, intensa, sangrenta, cheia de referências e muito assustadora." - Everaldo Rodrigues, autor de Passeio noturno 1 e 2
Quando um autor tem a coragem de recontar uma lenda folclórica, tão disseminada e desconstruída, e a traz com uma roupagem nova e refrescante, eu sempre sinto a necessidade de tirar o meu chapéu. No caso de Lucas Dallas e seu Quanfo Tocam os Tambores, ele não apenas renovou um velho mito... Mas também o levou de volta à antiga áurea de horror e sanguinolência de maneira cem por cento genuína, e este para mim foi o grande trunfo desta novela.
Narrado em primeira pessoa como uma espécie de "confissão" do protagonista, a história nos leva para o interior do sul do Brasil, utilizando do cenário quase que rural para ambientar os mistérios que levou o narrador a se encerrar em uma casa de repouso - e, depois, desaparecer de lá.
A forma como o autor desdobrou a própria trama, com o fio narrativo puxando sempre algo que aconteceu antes, foi um ótimo uso do recursso quase sempre perigoso de flashback - sem haver uma quebra de condução ou mesmo de tensão. Na verdade, quanto mais íamos ao passado, mais tensa a novela ficava, e isto mostrou um maravilhoso tato na construção do terror.
Entretanto, apesar da ótima escrita apresentada por Lucas Dallas em Quando Tocam os Tambores, um detalhe me incomodou um pouco... E este foi a representação das personagens vilanescas da narrativa. Ainda agora não sei se as escolhas das figuras "do mal" no texto foi algo proposital ou uma infeliz coincidência, mas a questão é que o meu cérebro meio que problematizou estes personagens - e isto meio que me impediu de aclamar o trabalho em toda a sua totalidade. Pode ser bobeira minha? Sim. Mas foi a sensação que ficou.
Mas, mesmo com este porém, é inegável o domínio do autor sobre o seu texto. Com uma escrita fluida e uma imaginação no ponto, Lucas Dallas nos apresenta uma novela deliciosa de ser lida - e perfeita para ser lida (ou mesmo contada) em noites escuras e frias.
Necessidades narrativas Quanto tocam os tambores, de Lucas Dallas, tem um clima de fábula sombria e privilegia o ato de contar uma história - está repleto de personagens precisando colocar suas narrativas para fora.
A novela começa com o narrador escrevendo sobre sua experiência com o sobrenatural (meio lovecraftiano) através do encontro com uma dupla de índios que, por sua vez, também lhe contam uma história. Uma boa jogada metalinguística que só reforça o clima de contos de fadas ao contrário.
O autor dá tempo para que o leitor conheça os personagens, o que valoriza as tragédias que acontecem mais tarde. No caldeirão misturam-se lendas, lobisomens, poções, florestas, lenhadores fetichizados e muitos outros elementos fantásticos perfeitamente concatenados. A linguagem é direta e flui bem, privilegiando o enredo e os personagens.
Todas as histórias entrelaçadas poderiam muito bem ser contadas à beira de uma fogueira, tendo a Lua como testemunha. Um livro gostoso pra quem aprecia aquele medo primitivo, visceral e irresistível.
Eu não falei que tudo o que começa no hospício tem uma coisa sombria por trás, então... Gostei bastante do clima do interior e o jeito dos personagens falarem meio que errado, e que apesar do trabalho pesado eles sempre estiveram ali um ajudando o outro. Agora quando os indios entraram foi quando começou o cagaço, acho até que se eu tivesse lido esse livro de madrugada não ia ver livro de lobisomen por uns dois meses. A historia tem até uma pintada de corra, deixando os personagens flutuarem no vazio através de historias e quando voltam pra realidade começam a ver coisas que não estavam ali perto. O final foi eletrizante e digno de um bom filme de terror.
Três trabalhadores, incumbidos de transportar sacas de farinha, são obrigados a cortar caminho justamente pelo lugar mais mal falado de toda a cidadezinha de Santa Clarice.
Muito mais do que apenas boatos carrega a Floresta Dos Pagãos, mata no interior do Paraná. Logo, o som dos tambores irá anunciar algo muito mais antigo que espreita pelas árvores.
"Vou lhes contar, através dessas palavras, sobre o dia que vi o diabo.”
A narrativa é dada em forma de relato escrito pelo protagonista, Miguel, que está internado em um hospício há um ano – desde o dia em que ele alega ter visto o próprio diabo. A partir disso vamos acompanhar a história que ele vivenciou no passado e que, segundo o mesmo, vai se encerrar naquela noite em que finalmente decide escrever o que aconteceu, pois aquele mal está indo buscá-lo para terminar o que começou.
“Eles estão chegando e tenho medo de ouvir o último soar dos tambores.”
O ponto alto foi, com certeza, a roupagem que o autor criou para a origem do lobisomem unindo lendas indígenas e o mito da fera. A abordagem foi tão bem feita que, enquanto acompanhava essa narrativa, também fui completamente distraída da trama principal.
“Mas não deveria gritar pro escuro. Ele pode ouvir você.”
Infelizmente a leitura é redundante em alguns momentos pela insistência do narrador. Toda a trama é contada e conduzida em uma crescente para um desfecho desesperador que poderia, sim, ser abstrato, mas foi abrupto demais. Reconheço o valor do trabalho feito, e da qualidade de criação, mas para mim este final deixou um pouquinho a desejar.
“O medo do que não conhece é só instinto natural do bicho homem. É um instinto, e também necessidade. E que forma melhor para satisfazer a necessidade do que se render a ela? Pois o medo, quando alimentado, deixa de ser medo, é a melhor forma de vencer ele.”
Apesar das minhas críticas, é uma leitura que recomendo. Rápida e simples, bem estruturada e empolgante.
When I started reading this book, I immediately remembered the horror stories my grandfather used to tell me when I was a child. The text refers to a time when the town where I live was sparsely populated, surrounded by forest- a place where rationality and fantasy were mixed. Another interesting fact is that the book opens stories of one of the most mentioned monsters in books and movies, enchanting (and frightening) children and adults alike. In the book, readers will meet three workers who enter the forest to shorten their way to avoid going through the route that people say is haunted. When they hear the sound of drums in the woods, they realize too late that there is a dangerous creature lurking in the darkness. A short and exciting book, within what readers of the genre expect to find.