O que temos neste livro de Júlia Studart é a inteligência e a habilidade de uma poeta que escreve imagens com a mão desaprendida, a da linha fresca, e consegue colocar-se severamente à escuta do tempo nessa guerra de todos contra todos. Ou como sugere Nuno Ramos, no prefácio, uma escrita que fica entre “uma elisão constante” e “um grãozinho fatal”. Por isso, nessa guerra, este livro é como um telegrama de amor, contingente e incerto. Os poemas percorrem as páginas, entre as epígrafes e um cólofon encantado, compondo um desenho diante de um tempo lacerado em que apenas se pode ouvir. É o risco político de cumprir com o poema a composição de outra história, a que nunca houve, a que não há, a que se ouve – a do mal-entendido, como conceito e experiência.
e não acontece nada mais vinte passos abandona o arco sobre o tampo harmônico na altura da cintura. não há estátua, apenas esboço – é o indicativo categórico o terror do vazio e o homem. difícil manter a primeira posição natural numa subida íngreme quando se é tocado por alguma coisa. o calo na falange distal, a camiseta dry fit – o último telegrama não era de amor. ‘desculpe, erramos de Sílvio’ é também a nota de rodapé, sua anedota búlgara. mas de memória retoco você no meio do sertão com a gravura movente monturo de linha perecível entre o nada e o ser, outra geografia aérea deitada no canto inferior da página feito crina frouxa em suspeita harmonia com os corpos celestes, a astrofísica, o gravador portátil de tão-somente dois canais. lemos em voz alta talvez mentalmente e ofegantes o escritor francês – esculpir é desengordurar o espaço. certo que lemos juntos em voz alta estranhos espantalhos feitos de crostas brancas que coagulam em torno de longos fios avermelhados. uma micropeça para percussão ou nosso primeiro ensaio de eletroacústica: procissão, pássaro, juá, monólito, a voz de quatro poetas mortos que correm atrás de você enquanto Cage desenha a ternura pela micologia e pelo aleatório music mushroom uma falsa simetria à margem da estrada de ferro e da canção – a velha sentada o ruído da renda a menina sentada