Interpretando o Brasil
Jessé Souza apresenta de forma fundamentada e clara o modo que lhe parece adequado para pensar e compreender a sociedade brasileira. Recusando a explicação canônica, apresentada por Gilberto Freire e Sérgio Buarque de Holanda, que aponta o personalismo e o patrimonialismo como “representando a singularidade valorativa e institucional da formação social brasileira”, procura explicitar outra descrição, apoiado na idéia de autenticidade, que retira de Charles Taylor, e de habitus, que toma por empréstimo de Bourdieu. Essa (nova) descrição procura desvelar os mecanismos simbólicos e crenças compartilhadas pré-reflexivamente que dão origem à “constituição de uma gigantesca ralé de inadaptados às demandas da vida produtiva e social modernas, constituindo-se numa legião de imprestáveis, no sentido sóbrio e objetivo deste termo, com as óbvias consequências - tanto existenciais, na condenação de dezenas de milhões a uma vida trágica do ponto de vista material e espiritual, quanto sociopolíticas, como a endêmica insegurança pública e marginalização política e econômica desses setores”. Ao fim e ao cabo, o Autor convida o leitor a pensar o Brasil não como o país pré-moderno, do patrimonialismo, da corrupção apenas do Estado e da política, das relações pessoais e do “jeitinho brasileiro”. Essa estratégia, observa, “só passou a ser a dominante porque torna invisível tanto o saque do trabalho coletivo de todas as classes, via salários achatados e lucros escorchantes, quanto a captura do Estado e do orçamento público, em favor da elite dos donos do mercado”. Trata-se de livro que condensa as reflexões do Autor a propósito da sociedade brasileira. A forma como interpreta o Brasil merece ser conhecida e submetida à reflexão crítica.