A irreverência de José Sesinando, ausente das livrarias há duas décadas, regressa agora, na Colecção de Literatura de Humor de Ricardo Araújo Pereira. Edição e prefácio de Abel Barros Baptista e Luísa Costa Gomes.
Trocadilhos, aforismos, paródia, troça, variações literárias, inteligência e, acima de tudo, um exercício radical de liberdade criativa - José Sesinando foi um caso único do humor em língua portuguesa, marcou a sua própria geração e as que lhe sucederam, e tornou-se quase um mito, alimentado pela sua prolongada ausência das livrarias. Obra Perfeitamente Incompleta reúne num único volume os livros Obra Ântuma, Heteropsicografia e Olha, Daisy, oferecendo de novo aos leitores uma verve humorística muito singular, que esteve indisponível por demasiado tempo.
Opinião da crítica, ou seja , de José Sesinando: «Cadência fortemente sugestiva, encadeamento complexo das imagens, autêntico sortilégio verbal, riqueza expressiva reveladora de uma vincada personalidade — nada disso, infelizmente, se encontra na obra de José Sesinando.»
«Esta obra de José Sesinando ficará assinalando, como um marco geodésico, um momento da literatura portuguesa. Um momento péssimo.»
José Sesinando Palla e Carmo (Lisboa, 1923 - 1995), conhecido como José Palla e Carmo, foi um escritor, ensaísta, crítico, tradutor e especialista de literatura anglófona. Assinava os seus textos humorísticos como José Sesinando.
Um livro que me leva de volta à infância, não por invocar memórias, nem por insuflar de nostalgia, mas sim por ser matreiro e imprevisível como uma criança insolente. Não é descabido que este livro me tenha estupidificado, pelo que rezarei para que assim seja.
José Sesinando. Uns considerandos saborosos sobre a obra do senhor.
Neste catálogo de laracheadores pós-modernos, há pouco ou nada que mereça a atenção de um olhar mais exigente. A comédia passeia-se manca pelas frases, a pedir desculpa, em posições nada abonatórias para gente que se autodenomina séria, ora de cócoras ora de cu para o ar, comunicando a sua dor com exuberante espalhafato enquanto guincha qual esquizofrénico o seu génio afonicamente, para gáudio do público semisurdo ávido de um não sei quê, que, no desdobrar do número com ares de comédia, viu assim o seu ego afagado. O tempo dos grandes rasgos já lá vai. O tempo em que a voz tinha o poder de causar um abalo sísmico afigura-se-me, visto à nossa luz, matéria de lendas e mitos. Acabaram-se os peregrinos, na antiga e talvez verdadeira acepção da palavra, os eremitas do deserto, que procuravam, sozinhos, o seu Deus, o vagababundo, o flâneur. A nossa época é um viveiro de turistas, jogadores e putedo. Eis o catálogo da sociedade, eis o catálogo dos bobos. Desculpem o exagero, o putedo não tem nada que ver com isto, numa sociedade polida não há putedo propriamente dito, não há comércio sexual às escâncaras. Quem sou eu para denegrir o bordel, um complexo habitacional susceptível de atrair "gente de fora", o qual auxilia com alegrias várias e abundantes, haja dinheiro para isso, a economia local. Ainda como achega: hoje existe uma métrica exigida pela culpa, pelo medo, pelo politicamente correcto, pela visão consumista com a qual abordamos as coisas, pela forma turística de fitar o mundo, pesam-se as sílabas das piadas, quer seja pelo possível dano, quer pelos ditames da literalidade; as piadas são plasmadas com o mínimo de veneno possível, o conteúdo é relegado para segundo plano, é preciso é haver espalhafato e holofotes a dar conta da ocorrência. Uma contradição em termos, se pensar fosse a nova moda. A nenhuma frase é permitido explodir em várias direcções, ser rodopiante, contradizer-se, ser um nada à procura de ser algo. Embeiçados que estamos pela informação, a comédia perdeu a capacidade de ser mágica. De ir de um sítio A para um sítio B com estrondo. Esta passeata pelo panorama, como direi, risivelmente humorístico que vivenciamos presentemente, como está bem de ver, é, desculpem-me o eufemismo, uma valente merda. E não me estou a referir à passeata em si. Aqui entra, todo janota e cheio de ginga a personagem de que vos quero falar, José Sesinando. O primeiro contacto que tive com este senhor, ou melhor com a maestria dos dedinhos deste menino do humor, foi, salvo erro, num livro. Sublinhe-se a graçola, num esgar típico de youtuber, com careta à Malucos do Riso 2.0, que é para ter a certeza que perceberam. Foi há uns apitos de tempo que me apareceu, qual cometa, olha o menino a usar expressões de críticos literários a quem falta carne vocabular para descrever o flagrantemente novo, este senhor. O primeiro encontro, ou semiencontro, aconteceu numa crónica de Abel Barros Batista, senhor que tão bem preambula a "obra perfeitamente incompleta", de José Sesinando, recentemente editada pela Tinta da China. Dele, antes do contacto com este canhenho, só consegui ler algumas frases avulsas, algumas fagulhas humorísticas que fui coleccionando em textos alheios. Procurei a obra ântuma durante algum tempo em bibliotecas, em livrarias, em alfarrabistas e em bancas de merceeiro mas, como é meu apanágio, fracassei esplendidamente como gente crescida. Descansei quando, há anos, 3 ou 4 ou coisa assim, li que havia intenção de reunir a obra de Sesinando por parte dessa editora. Ora, José Sesinando é aquilo que se pode chamar...uma pessoa, que além de ser pessoa, é um filho de Laurence Sterne. Se acreditarmos em Deus, tem pelo menos três pais. Sesinando só precisa de um mísero pentelho para fazer a frase dançar. Onde os outros estacam por escassez de meios, Sesinando baila madura e doidamente. Do pai Sterne herdou a sabedoria de intuir que para se falar de alguma coisa podemos ir por veredas marginais e, se for preciso, nem tocar realmente no assunto. De Deus herdou a habilidade de parir milagres. Um valente pirete literário às formas convencionais de vistoriar as coisas. Dos poetas malditos, aprendemos que podemos ser mais humanos a falar de inumanidade do que a falar de humanidade, é preciso é haver mãozinha para isso. Muito mais haveria a palrar sobre Sesinando, e, como Sterne, tentei, através de uma coreografia de tangentes, passar-vos a vontade de dançar que se apossa de mim ao ler este grande escritor de humor. O que importa nos livros é a vontade com que ficamos para fazer algo após a sua leitura. Este livro, ou esta reunião de livros, tipo bíblia, cumpre eximiamente a sua tarefa. Obrigado, José Sesinando. Sei que estás morto, mas o livro só me chegou agora, por isso espero que me perdoes o agradecimento impontual. Obrigado*. *Perdoa-me a escassez de notas de rodapé.
Quando o humor é feito com um excelente uso da palavra, está tudo certo. Não são trocadilhos baratos à Teresa Guilherme, o autor é o pai do Júlio Isidro por isso o nível é outro. Não conhecia o autor e por isso foi uma surpresa boa, como todos os livros desta coleção da Tinta da China têm sido.
Este é até ao momento, e sem dúvida, o melhor livro de humor que já li. Só uma genialidade ímpar atinge um tal domínio da palavra a ponto de a conseguir subverter em todos os seus possíveis sentidos,
Não gosto nada de ouvir/ler o que já se tornou moda, de toda a gente que lê um livro se achar no direito de ditar o que deve ser matéria do programa escolar. No entanto, os alunos que estudam português e que gostam da língua portuguesa, beneficiariam imenso destas lições sobre as possibilidades das palavras e de que às vezes também é importante olhar para o óbvio, para o simples.
«Mozart foi, como toda a gente sabe, um “enfant prodige”. Não o foi, porém, durante toda a sua vida.»
1% da 'Obra perfeitamentr incompleta' de José Sesinando é genial. O resto melhor seria nao escrita. Tirando isso percebe-se a inteligencia e a erudiçao ao serviço dos jogos de palavras. Só nao se percebe se o autor viveu aliviado ou angustiado com a sua obra. R.I.P.
I found this gorgeous kettle stitched book by chance while I was in Lisbon, and I just had to buy it. José Sesinando is THE ONLY motivation that you need to learn Portuguese (Portugal). It is a blessing for those who are proficient in the language, and a curse for those who cannot benefit from the riches (and the reach) of the dichotomy of the verb "to be" (ser/estar). The word play and the wit of the author are superb and I think that this work is a treasure of the Portuguese culture.
Os textos em prosa da Obra Ântuma são de um virtuosismo e frescura humorísticos que muito impressionam e aprazem. Porém, apesar de uns poemas muito bons, tem outros muito fracos e, acima de tudo, tornam-se previsíveis a certo ponto. José Sesinando fica, para mim, com um grande prosador humorístico.
É um livro bem-humorado. Achei divertido ao início, ainda me senti entretido ao avançar, mas mais adiante, nas variações pessoanas, só fiquei a desejar que o fim chegasse rápido. De preferência o do livro.
Os textos iniciais são cinco estrelas. O livro é cómico em si mesmo. Deve mais ser encarado como um exercício de diversão do autor. A preocupação com a sua publicação era zero.