No livro Um Psicanalista no Divã temos uma entrevista divertida e educativa com o renomado psiquiatra e psicanalista J. D. Nasio, que responde a perguntas feitas por um estudante de psicologia. Além do claro efeito egoico que sua foto na capa causa, e do fato de a publicação ter sido feita por ele próprio e pelo entrevistador, temos a entrega de um livro educativo sobre os efeitos físicos e subjetivos que essa abordagem realiza na mente.
Nasio realiza uma imersão que, de maneira simbólica, nos coloca dentro do “aquário” de controle gerado pela sessão de um psicanalista experiente. Toda essa luxúria sobre si mesmo cria uma dinâmica de poder entre subjugado e subjugador que se mantém até o final do texto. Essa condição se fortalece a ponto de, ao chegarmos ao fim, desenvolvemos a sensação de que não existe entrevistador, ou sequer entrevista: tudo é gerado dentro da psique do autor, que se afoga no próprio ego. A leitura não é cansativa, mas provoca uma certa vergonha alheia que pode facilmente resultar em risos do leitor sobre a obra.
A conclusão real que permanece é: não somos protagonistas na história de vida de outras pessoas. A ideia de acreditar que nossa concepção sobre um assunto ou abordagem cria uma relação inquietante nas dinâmicas emocionais internas, e, se não buscarmos equilíbrio, acabamos afundando em um abismo de mania, fazendo coisas tão absurdas quanto colocar o próprio rosto na capa de um livro em que somos entrevistados por nós mesmos.
É um livro interessante para psicanalistas iniciantes que buscam, necessariamente, ampliar sua bagagem para desenvolver maior tato com seus pacientes na prática. Entretanto, fora essa situação específica, não vejo utilidade em sua leitura, nem mesmo para curiosos.
Curiosidade: revelando sua busca contínua por controle, Nasio informa que ele mesmo projetou o divã em que atende seus analisandos há mais de trinta anos.