O mais profundo, investigado e detalhado Manual de Etiqueta jamais feito em Portugal Efectivamernte, nenhum manual de etiqueta cobre todas as facetas e momentos da vida do ser humano como o espantoso Manual de José Vilhena, publicado originalmente em 1959 e que, sendo um clássico, é ainda totalmente actual.
«Ser educado é coisa muito bonita. Infelizmente 99% das pessoas, ainda considera que cuspir na cara do semelhante, urinar na rua, passar cheques sem cobertura, dar pontapés em polícias e palmadas na parte posterior das criadas de servir, são maneiras de pessoas «bem». Ora esses instintos devem ser refreados. Eis porque julgo vantajoso o aparecimento deste Manual de Etiqueta e civilidade. Todos quantos tiverem a felicidade de o possuir serão apontados como tipos educados.
E, para entrar já no assunto, advirto o leitor que não é de bom tom ler um livro sem o pagar. »
De notar os muito úteis apêndices com guias de boas maneiras especialmente pensados para: polícias, guardas-nocturnos, fadistas, camponeses, funcionários públicos, funcionários da Carris, milionários, dactilógrafas/secretárias, grandes industriais e comerciantes por grosso e atacado, escritores, criadas de servir, alentejanos ricos.
Humor a rodos; uma visão única e despida de preconceitos e mordomias, como sempre foi apanágio de um autor que marcou gerações.
Quando vejo comediantes modernos, em plena democracia, a serem louvados pelo povo ou pela crítica por terem feito umas piadolas muito "transgressoras", só me lembro de Vilhena e dos seus enormes tomates em publicar livros como este durante a ditadura.
Munido de concepções e quadros algo datados nas valorações (mormente machistas), o manual de Vilhena não deixa de trazer à luz a sua veia mordaz, cortante, amiúde fina e muitas vezes deliciosa.
O mais recente lançamento de um livro de Vilhena pela E-Primatur é uma excelente combinação de pérolas irónicas que ridicularizam a sociedade humana, os preconceitos, as regras da boa educação ou a grande importância que se dá à opinião dos outros.
« No princípio do mundo vivia-se, como todos sabem, na Idade da Pedra Lascada. Depois apareceram os compêndios de Etiqueta e o homem entrou na época da Pedra Polida.»
O prefácio abre com esta frase mostrando hábitos ridículos num enquadramento leve que consegue surpreender com terminações de elevada etiqueta nas mais inusitadas situações.
« Mas, o que mais me impressionou, pelo seu refinamento e profundidade litúrgica, foi um compêndio de etiqueta, em espanhol medieval, onde, com a maestria digna dum cozinheiro do Hotel Aviz, se ensine a grelhar um ateu a fogo brando.»
A primeira parte, Da Boa Educação em Geral, começa com o nascimento, esse evento ao qual os bebés devem comparecer apenas 9 meses depois do casamento da mamã, e não antes, não vá darem azo a comentários da vizinhança e suposto amigos, os mesmos que no casamento hão-de ter relembrado os mais sórdidos episódios relativos à noiva enquanto decorre o usual atraso para entrar no altar.
Dá-se um toque na infância, no namoro, no casamento, no suicídio ou no perfume, antes de passar à Etiqueta e civilidade nas cadeias, penitenciárias, campos de concentração e outras estâncias de repouso.
« Quando resolvermos sair, serremos as grades com uma lima n.º 2 sem fazer muito barulho para não incomodar o carcereiro.»
Fala-se de roubalheira num tom muito actual “É mais difícil roubar um relógio que fazer um desfalque num banco. Mais difícil e mais perigoso (ainda seja mais honesto)” , pois estas notas conseguem ser intemporais. Decorrem décadas sem que nada realmente mude na mentalidade e forma de estar.
Já a segunda parte é mais específica às profissões, mostrando-nos conjuntos de regras para as mais diversas profissões, desde políticas a guardas-nocturnos, condutores da carris ou escritores:
« Foram os camponeses postos neste mundo para trabalhar, sofrer e dar filhos à Pátria. É preciso que cumpram estes três mandamentos com as boas maneiras que a sua condição social pede. Fazendo parte do «povo soberano» eles devem ser humildes, serviçais, solícitos e de pouca mantença. Nos anos de grande abundância agrícola, ser-lhes-á permitido comer pão, mas sempre com o suor do seu rosto, como mandam as Escrituras.»
Com várias (in)directas à ordem social instituída, ao devido respeitinho a quem se encontra numa posição dita superior e à manutenção de uma imagem de suposta seriedade, Manual de Etiqueta é mais um bom exemplo da capacidade crítica da Vilhena, num formato mais conciso e directo que outros livros do autor também publicados pela E-Primatur (História Universal da Pulhice Humana ou Avelina, Criada para todo o çerviço).
Profundamente mordaz e acutilante, uma crítica social que não poupa ninguém. A etiqueta e bons costumes são uma forma de Vilhena colocar a nu os maus costumes sociais e individuais, ou ironizar com a subtileza de uma explosão com os preceitos sociais. Escrito no passado a arrasar os usos de um portugal de outros tempos, mas tirando alguns detalhes de época, não assim tão diferente do de hoje. No seu cerne, a ironia mordaz de Vilhena aplica-se tanto hoje como antigamente.
José Vilhena conta-nos neste livro as regras de etiqueta que todo o homem deve ter desde o seu nascimento, passando por momentos como o casamento, as chamadas ao telefone, o aperto de mão e até, veja-se bem, o adultério. Com um humor rico e ousado, aquele que é considerado por muitos o pai do humor português, faz uma crítica da sociedade em que vivia (o livro foi publicado pela primeira vez em 1959), o que levou à proibição da obra pelo estado novo. Logo no prefácio, diz o seguinte: "que é que me adianta a mim ser culto, inteligente e ilustrado se a maioria dos meus compatriotas são estúpidos e analfabetos?". Esta edição é acompanhada por cartoons desenhados pelo próprio autor e está dividida em duas partes. A primeira é um tratado sobre a boa educação geral que um homem deve ter nos vários momentos da sua vida, já a segunda, fala-nos da etiqueta e civilidade para certas profissões como polícia, camponês, dactilógrafos ou até alentejanos ricos. É certamente um dos livros que consegue arrancar gargalhadas tal como um qualquer espectáculo de stand-up.