Pensar é transgredir vai da preocupação com o social à inquietação pelo mistério da vida. Mas nele Lya Luft também deixa entrever um pouco do cotidiano em sua casa, revela coisas de sua infância e mostra seu lado bem-humorado, seguidamente comentado por quem a conhece pessoalmente. Fala do desafio que é podermos escrever uma parte da nossa história pessoal, e da dificuldade de sermos responsáveis por nossas escolhas; mas também escreve sobre ternura, alegria e perplexidade. Capa comum: 192 páginas Editora: Record; Edição: 1ª (26 de fevereiro de 2004) Idioma: Português ISBN-10: 8501069698 ISBN-13: 978-8501069696 Dimensões do produto: 20,6 x 13,6 x 1,2 cm Peso de envio: 204 g
Lya Luft was a Brazilian writer, a novelist, a poet, a prolific translator (working mostly in the English-Portuguese and the German-Portuguese language combinations) of German descent. She was also a college professor of linguistics and literature.
Lya Luft escreve de modo poético e lindo, principalmente quanto a questões humanas. Porém, em algumas crônicas, como se ela escrevesse com um véu nos olhos.
Tem algumas crônicas muito interessantes e que fazem a gente pensar (e transgredir). Gosto especialmente das crônicas em que ela trata de relacionamentos, de amor.
3,5 Algumas crônicas eu realmente gostei muito, mas tiveram outras que eu não concordei com nada e achei péssimas. Mas acho que as que eu gostei foram em maior número hehe
Lya Luft é uma mulher do seu tempo e dele quer dar testemunho do jeito que pode: soltando suas fantasias ou escrevendo sobre dor e perplexidade, contradição e grandeza, doença e morte. Escreve para instigar e deixar inquieto o seu leitor imaginário – que ele se dê ao direito dessa transgressão que é pensar. Sobretudo, para que ele fuja do espírito de rebanho, para que deixe de correr com a manada, para que não tenha medo de ver quem ele é e descubra em si regiões nem imaginadas.
Não é esta uma tarefa fácil, pois demanda um sossego que não faz parte da nossa trepidante cultura de agitação e barulho. Gostar de sossego é uma excentricidade, de modo que vamos adiando o defrontamento com nossa alma sem máscaras. Preferimos a comodidade, ainda que com ela nos tornemos membros do que Lya chamou de “confraria da mediocridade, que cultua o mais fácil, o mais divertido, o que todo mundo pensa ou faz, e abafa qualquer inquietação”.
A cronista sabe que não há perdão nem anistia para que os que ficam de fora da ciranda, “os que não se submetem mas questionam, os que pagam o preço de sua relativa autonomia, os que não se deixam escravizar, pelo menos sem alguma resistência”. Esses, praticamente nem existem e, se não cuidarem, acabam em uma jaula, trancafiados como animais estranhos. É um esquizofrênico conflito a que estamos sujeitos: adequar-se a um grupo e preservar a sua própria identidade para sobreviver.
Esta é uma das mensagens mais latentes ao longo das crônicas de “Pensar é transgredir” (2004, Record). Lya Luft fala da vida, não de uma que esteja pronta e acabada, mas aquela que está em permanente reinvenção através do pensar. A vida, diz ela, não está aí para ser suportada nem vivida, mas elaborada. E ela há de rolar por cima da gente, reduzindo a poeirinha inútil quem se esquecer de às vezes parar para pensar.
Para que isso aconteça, para viver de verdade, pensando e repensando a existência, para que ela valha a pena, a escritora tem uma receita: é preciso ser amado, amar e amar-se, ter esperança, qualquer uma. Para ela, o amor, do jeito que pode ser, é o caminho da liberdade e da grandeza – é a nossa única possibilidade de salvação.
Ah, mas a vida também é confusão. O mesmo animal predador que mata por lucro e poder também produz arte, ama, sabe refletir, ensinar, expressar ideias incríveis, acolher o amigo, segurar a mão do amado que morre. A ambivalência, afinal, é o que nos salva da poeira da mesmice. Por isso é tão difícil estabelecer com justiça e justeza regras regais quando se trata de costumes, sentimentos, tradições, legados familiares emocionais e conceituais – mas questionar é um bom começo.
Para que não nos tornemos “os medrosos e apáticos que perdem a felicidade no matagal dos preconceitos, onde rosnam os deuses melancólicos da acomodação”. E saibamos que, se não podemos corrigir os males do mundo, que ao menos não colaboremos para que ele se torne mais violento, mais mesquinho e mais cruel.
Lya Luft questiona até mesmo o que não se esperaria de uma mulher (será que é tão vantagem assim não ficar “só” em casa?). Considera que as mulheres não são santas e que sabem ser chatas, implicantes, indiscretas e críticas. Observa: “Não são só as mulheres que precisam falar e ser ouvidas”. Admite que deve ter uma visão do masculino mais positiva do que boa parte das mulheres e reflete que “a mulher-vítima e a mãe-mártir inspiram culpa e aflição, e perturbam toda uma família”. São pontos de vista apresentados especialmente na corajosa “Canção dos homens”.
O livro conta ainda com textos comoventes, como o diálogo de “O menino e sua mãe”, o relato confessional de “Visitas à velha senhora” e as inocentes observações de “Dicionário para crianças”. Textos sinceros e bem escritos por uma mulher que, mesmo com a cor do seu cabelo e dos seus olhos, mesmo com seu sobrenome, mesmo com os livros que leu na infância e com o idioma que falou naquele tempo, não se considera menos nascida e vivida nessa terra de tão surpreendentes misturas que é o Brasil.
O que mais me impressionou da autora foi uma visão diferente da fragilidade dentro do masculino que entrou muito em choque com a minha visão feminista. Quando eu digo choque, quero dizer que é algo inesperado e fora do comum, mas de forma alguma que tenha sido algo que me fez ver a leitura com más olhos. Lya Luft se diz consagrado por seus personagens masculinos de grande profundidade, esse livro me fez no mínimo curiosa para ver mais do seu trabalho.
Em alguns momentos a autora demonstra o motivo de ser uma autora celebrada na literatura nacional, enquanto em outros fica bem claro que é uma mulher do seu tempo e espaço geográfico. Não consegui terminar porque separar o joio do trigo se tornou árduo depois da metade.
Pensar é transgredir é um livro de crônicas que dificilmente receberá uma nota cinco. Composto de 50 crônicas dos mais variados assuntos, é de se esperar que este livro não alcance o leitor em todas elas de forma a causar aquela mistura de inquietude e deslumbramento comum aos nossos livros preferidos. Ainda assim é uma obra de fôlego, com uma escrita excelente, delicada e econômica. Recomendada para deixar na cabeceira, junto àquele bom livro de poesias e uma coletânea de contos, para aqueles dias em que você tem mais que cinco minutos disponíveis para ler, ainda que menos de 20. Nessa edição de 180 páginas, mas que daria facilmente 60 numa daquelas editoras dos anos 70 como Saraiva, ou José Olympio, vemos crônicas altamente pessoais e introspectivas, algumas memórias de infância, inquietudes com o envelhecimento e a escrita, além de outras que lembram mais os anos em que a autora fora a titular da última página da Revista Veja, com temas como violência, minimalismo (sem usar essa palavra) ou identidade nacional. Recomendo a leitura principalmente de: Pensar é transgredir Visitas à velha senhora Ponto-e-vírgula O rio das pedras Eu sou meus personagens Numa cidade distante Prioridades Eu falo é da vida Caras na minha janela Revogue-se Uma flor selvagem Escrever, por que? Dizer sim, dizer não
Há algo que gosto muito em Lya Luft: sua franqueza e maturidade. Aprecio a sua forma de falar sobre as questões pessoais, dela e de todos nós, de maneira simples como uma conversa entre confidentes. Em contos curtos ou não, líricos ou poéticos, honestos e sensatos. É o que encontro novamente neste "Pensar é Transgredir". A alma transparente de uma autora que me conquistou com sua linguagem descomplicada mas introspectiva e profunda.