Relacionamentos interraciais já são complicados por si — por muitas questões que atravessam a existência daqueles indivíduo, seu modo de experienciar o mundo e etc; e a dinâmica dessa relação se torna ainda mais complexa quando há um choque cultural tão intenso e que aprofunda ainda mais a hierarquia de poder existente nesta relação a qual, por sua vez, se torna ainda mais intensa e escancarada quando o colonialismo se faz presente. A lógica colonial que desumaniza e marginaliza corpos pertencentes a otros grupos raciais que não a raça branca e que coloca a raça branca como a salvadora destes grupos, a única que pode livrá-los da maldição que a própria branquitude criou com seu sistema colonial e lhes conferir dignidade, atravessa de forma avassaladora o relacionamento do protagonista, Ahmed, com Emmanuel, um homem francês, rico e que com muita sutileza vai despindo o protagonista de todo e qualquer traço de quem ele era, de sua cultura, sua língua, sua identidade; sua relação com seus familiares, seus costumes, seu povo; e vai colocando no lugar o francês: a língua francesa, a cultura francesa, os valores europeus. Os mesmos valores que exigem que alguém como Ahmed, um mulçumano marroquino, aceite de bom grado ter sua identidade roubada de si (mais uma vez) e seja subserviente e leal ao bondoso homem branco que o salvou dessa maldição ilusória. Mas, ao mesmo tempo, Ahmed é gay. Um mulçumano, um marroquino gay. Sair do Marrocos e ir para França com aquele homem foi, de fato, sua tentativa de se salvar, de poder enfim ser livre para exercer seu direito pleno de existir sendo quem é. E Emmanuel o permite que o faça. Não é um problema que Ahmed seja homossexual. Emmanuel não tentaria apagar em Ahmed algo que ele também é, porém o faz com todo o resto que torna Ahmed diferente dele. Que torna Ahmed um marroquino mulçumano, uma pessoa não-branca. É como se através de livros, roupas, aulas de francês e de como se portar, Emmanuel dissesse: seja o mais branco que você puder, sublime ao máximo quem você é. Se disfarce. Comece a agir, falar e andar como um de nós até que você e todos a nossa volta possam acreditar que você é tão europeu quanto nós — ignore o fato de que nunca será o bastante, mesmo que perca seu sotaque e cite com maestria Marcel Proust e Albert Camus. E é exatamente isso o que Ahmed passa mais de uma década fazendo: escondendo-se de si para caber no mundo de Emmanuel.
Mas o livro não fala só sobre o relacionamento de cunho romântico/sexual entre Ahmed e Emmanuel, tambem trata da relação de Ahmed com sua mãe e do jovem Lahbib — um amigo de Ahmed e remetente da última carta. Gosto muito de romances ou novelas epistolares, gosto de ir montando as pecinhas do quebra cabeça a medida que vou lendo as quarta. Este em específico é constituído de 4 cartas.
Adorei a escrita do Abdellah Taïa tambem, pretendo ler mais dele. Quero muito! No mais, indico muito a leitura. É curto, a escrita é fluida, passa rápido, mas deixa reflexões que talvez ainda ressoem internamente no leitor por muito tempo...
Não sei o porquê de não dar 5 estrelas, acho que esperava um pouco mais, queria saber mais — principalmente sobre a mãe de Ahmed. Não sei, talvez eu volte aqui depois e acrescente a quinta estrela haha mas acho que vai seguir sendo 4,5.