Três textos literários, três gêneros distintos. Este novo livro de Veronica Stigger - uma das vozes mais fortes da literatura brasileira atual - reúne um conto, uma peça teatral curta e um poema, formando um estranho quebra-cabeça em que, surpreendentemente, todas as peças se encaixam. O primeiro texto, "2035", é um relato de tom kafkiano e sombrio situado num futuro distópico. Já na peça "Mancha", duas personagens com o mesmo nome, Carol 1 e Carol 2, travam um diálogo entre cômico e absurdo em torno de uma mancha de sangue no chão de um apartamento. Por fim, o longo poema "O coração dos homens" se constrói sobre memórias de infância em que se confundem verdade e mentira, fato e ficção. Ligando os três textos, sangue, muito sangue, e um uso extremamente consciente e singular da linguagem, que, do trágico ao cômico, do melancólico ao escatológico, encontra sempre a forma e o tom precisos.
Veronica Stigger é uma escritora, jornalista, professora e crítica de arte brasileira.
Formou-se em Jornalismo, mas deixou as redações para dedicar-se à pesquisa universitária. É doutora em teoria e crítica da arte pela Universidade de São Paulo, com estudo sobre as relações entre arte, mito e rito na modernidade.
Desde 2001 vive em São Paulo com o poeta, ensaísta e crítico Eduardo Sterzi. O trágico e outras comédias, seu livro de estréia, foi publicado primeiramente em Portugal, em 2003, pela editora Angelus Novus. Em abril de 2004 foi lançado em versão brasileira pela 7Letras. Em 2007 lançou pela Editora Cosac Naify o livro Gran Cabaret Demenzial,1 tendo participado da V Festa Literária Internacional de Parati (FLIP), ao lado de Cecília Giannetti e Fabrício Corsaletti, entre outros. Em 2010, lançou, pela mesma editora, "Os anões", que mistura textos de gêneros variados, e montou em novembro sua própria exposição "Pré-Histórias, 2", com cartazes afixados nos tapumes da obra do SESC 24 de Maio da cidade de São Paulo.
outro premiado pelo jabuti, mas em 2017. não sou muito imparcial quando se trata de veronica. ela foi minha professora de história da arte moderna na pós e gosto muito de como ela escreve com destreza, seja conto, peça de teatro ou poema. eu amei todos os textos desse livro, mas sem dúvida o último é especial. principalmente por ter que rasgar as últimas páginas do livro e descobrir o que realmente há no coração dos homens, desvendar suas mentiras inofensivas e ficar pasma com essa genialidade sangrenta que talvez nem todo mundo consiga digerir tão bem.
li pro clube do livro do joão e adorei o modo que a veronica stigger explora o sangue em três narrativas independentes (será?) entre si, de longe meu favorito foram as poesias. nao sei se precisava ter lido aquela parte rasgada mas a sensação de trucidar papel ainda mais pra uma infância tão disparatada foi boa, gosto da maldade e de ouvir narrativas sobre menstruação [assunto que eu penso bastante e que sempre volta pra mim, é uma espécie de rito profético e dor muito rotineira que é quase uma força ambigua pra mim, que molda nossas subjetividades, que faz a gente se confrontar com os desequilibrios da nossa relação e a visceralidade do que um corpo que se rasga pode fazer]
descobrindo o prazer da literatura contemp brasileira & das jovenzinhas doidas
Conto, peça de teatro, poema. Tudo isso em um só livro, infelizmente curtinho, fiquei desejando ler mais. Me motivou a ler o de contos da autora, que saiu pela Todavia.
Apesar de não ser nenhum esteta, sei quando uma leitura me desacomoda, agrada ou faz algum tipo de transformação provocativa na maneira que entendo a arte.
O caso de "O Sul", a despeito da "terceira parte", não chega nem perto de nenhuma das três possibilidades. A primeira parte, o conto "2035", é de uma violência gratuita e certo lugar-comum no que diz respeito a distopias, a não ser a tentativa mal-sucedida de fazer ritornelos e repetições versificadas na maneira que ela narra as cenas. A peça "mancha" foi, francamente, chata, como se Stigger não soubesse exatamente o que está fazendo.
O que salva o livro é o texto "o coração dos homens", uma espécie de conto-poema que, de fato, cria algo realmente distinto e novo do que já li até então, fazendo um link mais verossímil com a associação entre os significantes "sul" e "sangue" apresentados no início da obra. A apresentação, que povoa nosso imaginário com Stigger como se fosse uma autora muito revolucionária e complexa, mais afasta do desloca o olhar do leitor.
Li esse livro de uma vez só. Aliás, esse livro não se lê, se experimenta. É uma experiência. Três histórias com um denominador comum, três histórias inquietantes, que beiram o assustador. Eu fiquei assustada desde a primeira palavra. É tanto a se pensar que sei que passarei muito tempo pensando nesse livro, no que ele quer me dizer, nos detalhes, no sangue. De onde veio o sangue? O sangue existe? De quem é o sangue? Ele caiu? Ela matou? O que eles estão comemorando? Quem são elas? Afinal, quem fez quem na peça da Branca de Neve? Não sei, não sei. Queria saber. E a experiência das últimas páginas é emocionante. Já tenho pessoas em mente para indicar essa leitura.
Livro breve e intenso. Três textos em gêneros literários distintos - narrativa, teatro e poema - que fazem o leitor se remexer na cadeira. E ainda um texto lacrado, pra deixa a leitura ainda mais sombria e desconcertante.
curtinho, mas perfeito naquilo que se propõe. muito legal absorver o estilo de escrita dela em cada um dos textos de gêneros diferentes. o sangue como fio condutor também faz todo sentido e me tocou bastante, principalmente nos poemas como ciclo menstrual.