Na introdução da antologia, o crítico Eduardo Portella afirma que as personagens de Lygia Fagundes Telles "buscam incessantemente a parceria; reúnem-se, na esperança de uma construção solidária"; Realmente, esse movimento em direção ao outro se encontra em grande parte dos contos. É de se observar que, normalmente, o desejo de aproximação não é expressado em palavras, mas simplesmente por um fluxo de consciência (às vezes confuso) de que o outro nunca tomará conhecimento.
Em meio à turbulência de pensamentos em suas mentes, as personagens podem variar de uma resolução a outra e podem, igualmente, terminar agindo de maneira contrária aos seus próprios desejos, em uma espécie de auto-sabotagem, como se evidencia em contos como "As pérolas" e "Herbarium". Na verdade, não é certo sequer que o encontro ou a "parceria" resulte, por si só, em alguma satisfação, pois sempre se estará querendo provas ou algo mais (vide "Apenas um saxofone").
Mas o que me chama mais a atenção nessa antologia são os contos em que as pessoas buscam tanto a comunhão com o outro que acabam se tornado inconvenientes e indesejáveis. É o caso de "Verde lagarto amarelo", quando um irmão, o preferido, busca o contato de outro, o solitário que desejaria permanecer assim, e um não vê o mal que faz ao outro, não vê que pode estar roubando inclusive aquele pouco que o outro considerava seu.
Também inoportuno era o jovem que resolveu ficar em hotel ocupado apenas por idosos, os quais se ressentem da sua juventude e, talvez, agem contra ela, no belo "A presença". E há o caso mais visível de aproximação indesejada em "Pomba enamorada ou uma história de amor", em que se pode falar efetivamente em perseguição ao objeto do desejo amoroso.
Um dos grandes momentos do livro, o célebre "A confissão de Leontina" demonstra muito bem que não é com flores e sorrisos que o mundo vai receber os nossos desejos e carências.
De maneira que essa "construção solidária" apontada por Portella nem sempre se realiza porque, nos casos em que é expressada, não conta com a contribuição do outro.
O livro conta também com "Seminário dos ratos" e "As formigas", textos de estrutura similar, a sugerir poderes impensados em criaturas ditas "inferiores", capazes, agora, de interferir de forma decisiva na vida dos humanos, já então com menos controle sobre si mesmos, o que provavelmente pode encerrar diversas simbologias.
Há um exercício com "Missa do Galo" do velho Machado e mais alguns contos, grande parte deles privilegiando o fluxo de consciência e construída de uma maneira inteligente que, em geral, leva a um desfecho surpreendente.