Começo do livro até seus 40 e tantos % é excepcional, mas a partir do momento que ele vai pra Alemanha, o livro já poderia ter terminado. Não parece fazer muito sentido um cara que detona (com razão) os "consumidores" da Asia comprarem o "produto tribal" dos clubes ingleses achar a coisa mais linda do mundo ingleses "sem terraces pra torcer" irem ao continente pagar de fãzaços do Schalke, só para ver um jogo à moda antiga, de pé e bebendo cerveja. O ritmo cai bastante.
Os pontos altos do livro são:
- A descrição dos momentos de desespero que ele passou em Hillsborough;
- Como a TV de Murdoch se apoderou do futebol inglês e como o futebol foi imprenscidível para o sucesso da TV por satélite;
- A descrição, ainda que sucinta, da Copa de 1990, na minha opinião MUITO superior ao "One night at Turin", a decepção entre minhas aquisições literárias em 2016.
- O desespero dos torcedores de grandes clubes em ter que lutar por coisas singelas, como o respeito à identidade de seus times.
- A discussão das medidas do relatório Taylor na Câmara dos Comuns, o ponto mais alto do livro, que mostra como em 1990 foram retirados os primeiros grãos de terra para a sepultura do que a gente conhecia como futebol.
De negativo, além da parte cansativa e demasiado extensa sobre a organização dos clubes alemãs, há alguns outros problemas:
- Do que o autor promete no título, só metade é entregue: fica realmente claro como Hillsborough transformou o FUTEBOL britânico, mas fora o aumento do poderio da mídia, televisão e jornais, com o futebol mudando de "slum sport for slum people" para "good news" e gerando bilhões de libras/euros, esperava ver mais sobre como a gourmetização (ou gentrificação, como aponta o autor de maneira mais acurada) impactou nos costumes dos ingleses. Não é bem o que ocorre, com o livro mostrando mais como o futebol se adaptou à sociedade de consumo, e não o inverso. Mesmo as menções à "Dama de Ferro" são pouco profundas e contraditórias, ora ela como implacável inimiga número 1 dos torcedores, ora o hooliganismo sendo apenas "um bipezinho irritante no radar do governo".
- Ainda assim, o autor minimiza o problema de elitização do esporte mostrando "soluções mágicas", como nos casos de Portsmouth e do Schalke, que são a exceção e não a regra, virtualmente impossível de se aplicar em grande escala. Ele também busca uma isenção forçosa com páginas de elogios à iniciativa do Tottenham de "reinvestir na comunidade", passando um pano para o Spurs que descreve anteriormente como um dos clubes que capitanearam essa revolução desastrosa, sendo pioneiro em lançar as ações do clube no mercado e o papel fundamental do clube para que a BSkyB levasse os direitos de transmissão no início da Premier League.
No geral, um livro com fatos e informações que chamam à reflexão, embora falhe um pouco na hora de analisar o indivíduo que hoje "consome" o esporte no estádio em comparação com o torcedor "raíz" dos tempos pré All-Seated Stadia. Também abusa da simplificação quando resume o problema à idade média do frequentador de estádios antes e agora e apresenta números pouco conclusivos sobre a estratificação social desses torcedores.
Na impossibilidade de fracionar a nota e dar um 3,5 ou 3,75, dou 4 estrelas mais pelo mérito histórico de apontar onde e quando começou essa parvice de tratar o futebol como negócio e o torcedor como cliente, o que fez com que muitos torcedores da minha idade (ou mais velhos, em centros espoetivos e econômicos mais avançados onde a novidade chegou primeiro) tenham perdido absolutamente o tesão de frequentar estádios e menos pela qualidade da análise sociocultural das pessoas que seguem um time de futebol.