Este foi um livro que me foi oferecido por um amigo que conhece a minha apetência por assuntos de física quântica. Efectivamente, tanto física quântica como biologia e assuntos relacionados com selecção das espécies, genética, evolução e neurociências, são assuntos que desde há muito sou um leitor atento.
Nos últimos anos li, António Damásio, Pierre Teilhard de Chardin, Carlo Rovelli e David Bohm entre outros. E foi assim, cheio de espectativa num assunto que me interessava de sobremaneira que cheguei a este livro de Amit Goswami - Consciência Quântica. Numa forma curta não só me arrependo de ter iniciado a sua leitura (não passei a página 44) como me sinto profundamente desapontado por ter colocado tantas expectativas no tema, no autor, e no seu livro, se é que a um conjunto de paginas numeradas com índice e lombada é suficiente para se chamar de livro.
Deixem-me dar alguns exemplos do que irritou tão profundamente.
Ao longo do livro o autor não só me parece completamente desinformado do que é a física quântica, e isto apesar de ele se intitular especialista professor de física da Universidade de Oregon ao longo de 30 anos, e mestrado em física quântica pela universidade de Calcutá (seria bom confirmar este seu background do qual tenho as mais profundas dúvidas), e eu ser apenas um mero curioso nestas matérias. Não se pode tratar assuntos como o principio de incerteza de Heisenberg, o da não localidade, o paradoxo de Einstein-Podolsky-Rosen ou a definição de quantum de Max Planck, sem citar estes autores (nenhum deles é citado pelo menos até à página 44), sem reconhecer o seu enquadramento histórico face à física newtoniana ou à da relatividade restrita e geral. Em todo o texto estes assuntos são tratados de forma leviana, superficial. Absolutamente intolerável.
Bom, e se este é o panorama do que me parece ser o conhecimento do autor sobre física quântica, já o seu conhecimento sobre neurociência e consciência é confrangedor. Diga-se por exemplo que o autor considera a consciência um exclusivo do neocórtex, confundindo o que pode ser classificado de Eu-autobiográfico com Eu-nuclear e proto-Eu. Dito de outra forma, se a consciência é a forma pela qual um organismo reconhece a sua integridade e interage com o meio circundante, então consciência não é um exclusivo de mamíferos superiores e pode ser observada numa simples bactéria ou num protozoário.
Talvez achem que estou a ser irritantemente mesquinho. Talvez! Mas quando do que li do livro apenas encontrei referenciados três volumes, por sinal todos da sua autoria, quando escreve por várias vezes que tem uma posição de activismo quântico!, sem nunca explicar o que isso é. Quando descreve consciência como algo que se opõe à matéria, quando diz que a ciência é a representação do mundo material, e a física quântica representa o reino dos céus e do divino! Não acham que tenho razão?
Deixem-me dar mais dois exemplos.
A páginas tantas o autor pretende defender uma complementaridade entre o mundo material, dado pela ciência materialista (segundo o autor) e o patamar da consciência que segundo o autor tudo controla. E diz mesmo tudo é consciência (sem nunca definir o que é consciência). E para dar um exemplo disto, de que a consciência controla a matéria, cita um estudo, sem nunca o referenciar, em que uma máquina programada par gerar números aleatórios, quando em presença de seres humanos em comunhão de espirito (por exemplo a assistirem a um jogo de futebol) interferem com o desempenho da máquina que dessa forma perde a capacidade de ser aleatória e passa a gerar números mais alinhados (seja lá o que isto significa) por interferência das mentes humanas em uníssono com o desempenho da máquina.
Um segundo exemplo dado pelo autor prende-se com a incerteza de Heisenberg e o paradoxo do gato de Schrödinger. E acerca deste assunto o autor dá o seguinte exemplo: “se quiser comer uma tosta” e tiver um prato para o qual não está a olhar, existe uma dada probabilidade de quando olhar para o prato a tosta estar lá e poder comê-la”. Uau, que bom que era que isto fosse assim. Deixa-me olhar para o lado para ver se o pesadelo deste livro desaparece. Ora bolas, persiste. Ainda aqui está! Vou tentar de novo …