Estes dois ensaios-pepitas, tão brilhantes como concisos, irradiam o palpitante calor da vida e a luminosa mensagem de que o futuro pertence aos ociosos e aos bons conversadores. Revelando o ócio e os seus ditosos derivados não como inércia inútil, mas sim tónicos diários ao alcance de todos, Apologia do Ócio (1877) e A Conversa e os Conversadores (1882) são páginas para folhear com deleite, em que cintila uma arte de viver com benefícios comprovados e se desmonta um quotidiano acinzentado pelas obrigações laborais. Essenciais para converter trabalhadores inveterados, fãs de horas extraordinárias e gurus dos lucros anuais em gente com alegria crónica, estes textos demonstram que o ócio e a conversa merecem figurar como felizes vícios, a cultivar, na vida do homem.
Robert Louis Balfour Stevenson was a Scottish novelist, poet, and travel writer, and a leading representative of English literature. He was greatly admired by many authors, including Jorge Luis Borges, Ernest Hemingway, Rudyard Kipling and Vladimir Nabokov.
Most modernist writers dismissed him, however, because he was popular and did not write within their narrow definition of literature. It is only recently that critics have begun to look beyond Stevenson's popularity and allow him a place in the Western canon.
“O chamado ócio, que não consiste em não fazer nada mas sim em fazer muitas das coisas não reconhecidas pelas formulações dogmáticas da classe dominante, tem tanto direito a afirmar a sua posição como o próprio trabalho.”
Mensagem extremamente importante nos tempos em que vivemos.
É curioso como há livros que continuam extremamente atuais, mesmo tendo sido escritos há mais de 100 anos! “Apologia do Ócio” reúne dois ensaios de Robert Louis Stevenson – o primeiro tem o nome do livro e o segundo chama-se “A Conversa e os Conversadores”.
No primeiro texto, o autor defende os momentos de ócio como vitais para uma vida mais plena, criticando as pessoas obcecadas com o trabalho, que não sabem divertir-se.
“Existe uma classe de pessoas, vulgares e quase-mortas, que mal têm consciência de estarem vivas exceto em pleno exercício de alguma ocupação convencional. Levem um destes indivíduos ao campo, ou numa viagem marítima, e vereis como anseia por regressar à secretária ou ao gabinete. São desprovidos de curiosidade; não conseguem entregar-se a paixões momentâneas; são incapazes de desfrutar o exercício das suas faculdades pelo mero prazer de as exercer.”
No segundo texto, o autor define a conversa como uma disputa agradável e valoriza as conversas com os mais velhos, que têm muito para nos ensinar. Sobre a diferença entre homens e mulheres, temos esta pérola:
“As mulheres são melhores ouvintes do que os homens; cedo aprendem, talvez com angústia, a suportar a aborrecida e infantil vaidade do sexo oposto.”
“A devoção perpétua ao que um homem considera o seu trabalho só pode ser sustentada negligenciando todas as outras coisas. E não é de forma alguma uma certeza que o trabalho de um homem seja a coisa mais importante. De uma perspectiva imparcial, parece evidente que muitos dos papéis mais sábios, virtuosos e proveitosos no Teatro da Vida são desempenhados gratuitamente, e são vistos, pelas pessoas em geral, como produtos do ócio.”
“Em boa verdade, é raro que uma conversa desemboque numa conclusão - tanto como uma reflexão pessoal. O interesse não reside aí. Reside no exercício em si mesmo, e acima de tudo na experiência, pois quando fazemos grandes raciocínios sobre seja que assunto for, passamos em revista a nossa situação e história pessoal. No entanto, de tempos a tempos e sobretudo, penso eu, quando se trata de arte, a conversa torna-se incisiva e belicosa, empurra as fronteiras do conhecimento como o faria uma missão de exploradores.”
O ensaio "A apologia do ócio" é um texto notável, sobre a importância de descansar, não fazer nada aparentemente é tão necessário quanto o lufa-lufa diário. O segundo ensaio já não me consquistou tanto.
O livro contempla dois ensaios - Apologia do ócio e Conversa e Conversadores. Os dois textos mantêm-se actuais. Por um lado, vivemos numa sociedade em que o trabalho e a realização através dele são dois dogmas intocáveis. O tempo que gastamos a trabalhar e ir e vir para o trabalho deixa-nos, porém, muitas vezes esgotados. É sobre o desaparecimento desse viço e da alegria e curiosidade que são partes intocáveis da experiência humana e da arte da vida que incide o primeiro texto que integra este livro. A arte da conversa está também muito esmorecida nos tempos que correm. Muitas pessoas não ouvem os outros apenas procurando nas suas palavras o eco de si próprias. Mais ainda, os temas de conversa, como se pressente na vida social, são comezinhos e pouco se afastam das preocupações do dia-a-dia. Não que isso seja sempre mau. Mas faz falta uma conversa a sério sobre os grandes temas, livros, filmes, enfim um exercício de vida social que é também a antecâmara da vida política. Stevenson escreve sobre si e sobre os grandes conversadores. Em suma, dois pequenos ensaios, vivos e estimulantes, que servem de base a reflexão pessoal e a muitas e boas conversas.
Uma leitura não tão fácil, dada a época de escrita, mas fascinante em relação ao quanto permanece atual e necessária. A segunda parte, sobre os conversadores, me fez valorizar eventos do cotidiano aos quais às vezes damos pouco valor. Uma obra importante para este século que ainda não superou as sombras da revolução industrial que nos vê como máquinas imparáveis e de alta produtividade.
"Apologia do Ócio" é um excelente ensaio que nos faz refletir sobre o estilo de vida que levamos hoje e, mesmo escrito no século XIX, está bastante atual, pois nada mudou nesse sentido. "A Conversa e os Conversadores" também é um bom ensaio mas já me custou mais a ler, fiz algum sacrifício para acabar, mas não deixa de estar bem conseguido.
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Un petit opuscule plein d’esprit et de descriptions impitoyables et tendres. Petit bijou à lire et relire pour le plaisir de la formule bien ciselée et de la pensée juste. Mention spéciale au portrait de la « catégorie de morts-vivants dépourvus d’originalité qui ont à peine conscience de vivre s’ils n’exercent pas quelque activité conventionnelle » !
“A devoção perpétua ao que o homem considera o seu trabalho só pode ser sustentada negligenciando todas as outras coisas. E não é de forma alguma uma certeza que o trabalho de um homem seja a coisa mais importante”
3,5/5: Na primeira parte senti muito mais a argumentação e apelo à inaçao, mas na Conversa dos Conversadores fica-se muito pelo name dropping e pelas referências a autores muito anteriores e com obras mais vastas e ainda por explorar.
Apologia do Ócio chamou-me à atenção não só pelo título, mas também pelo autor do mesmo que, para quem não se recorda, foi o autor de “A Ilha do Tesouro”, um clássico que ando para reler há bastante tempo.
Como uma verdadeira Apologia, Stevenson defende o Ócio como essencial à preservação da humanidade e faz uma dura crítica à sociedade do séc. XIX (e que se estende aos dias de hoje), completamente focada em objectivos e com desprimor pelas pequenas coisas da vida.
O ócio não deve ser negativamente conotado, deve ser apoiado como um bem essencial ao nosso bem estar, mental e físico, assim como à preservação da nossa Humanidade. Afinal, se apenas nos focarmos em objectivos e apenas vivermos para trabalhar e apresentar resultados, não só criaremos um vazio emocional e de moral, como criaremos resistência ao movimento natural da vida. O ócio combate a inércia, não é a inércia. E é este o ensaio que Stevenson descreve sabia e brilhantemente.
Como disse anteriormente, na verdade, este livro é um dois em um, com a adição de “A Conversa e os Conversadores”. Creio que há aqui uma correlação entre os dois ensaios, dado que o autor enaltece o valor da conversa como essencial para a realização pessoal, entre outros aspectos, identificando todos os aspectos positivos de uma boa conversa e alguns tipos de conversadores. Afinal, “(…) a conversa (…) é o discurso harmonioso de duas ou mais pessoas, é de longe o mais acessível dos prazeres. Não custa dinheiro algum; tudo é lucro; suplementa a nossa educação, propicia e nutre as nossas amizades, e pode ser desfrutada em qualquer idade e em quase qualquer estado de saúde.(…)”.
Aconselho a quem precisar de uma leitura leve, com uns toques leves de humor e queira pensar um pouco sobre estes assuntos, o ócio e a conversa.
Delicioso. A destreza da oratória perfeitamente colocada entre palavras escritas que acompanhamos como se de uma conversa se tratasse. As ideias exploradas por Stevenson são deliciosas (encontro-me no despontar de uma paixâo por ensaios) e expostas com uma tal clareza que é (quase) possível transpor literalmente essas ideias de há tantos anos para a atualidade. Fiquei especialmente fã da Apologia do Ócio, e mantenho este livro na minha mesa de trabalho. Adoro abri-lo e ler um parágrafo avulso. Faz-me sempre sentido.
Hoje fui praticar a minha atividade laboral e, num momento de pausa, concluí: "o ócio tem tanto direito de afirmar a sua posição como o próprio trabalho". Coordenadores presentes, e tudo! Todos nos rimos, terminamos o café e... Sem muita conversa, voltamos às nossas tarefas.
Que arte é esta do ócio. De ir passando pela vida, sem pretensões ambiciosas e simplesmente existir. Saber existir, partilhar e trocar ideias, crescer com o outro e através do outro. Que livrinho bonito, simples e cheio de significado.
O primeiro ensaio "Apologia do Ócio" é brilhante e não deve ser perdido. O segundo "A Conversa e os Conversadores" é razoável. Contudo, dado o tamanho diminuto da obra, vale a pena ler tudo.