O livro Comando Vermelho, do jornalista Carlos Amorim, é o primeiro volume da trilogia sobre a história do crime organizado no Brasil. Escrito em 1993, a obra abrange períodos que se seguem desde meados da década de 1960, com a instauração do regime civil-militar no país. A história da primeira facção criminosa do país é, por muitos, desconhecida.
O Comando Vermelho teve sua gênese no final da década de 1970, no Instituto Penal Cândido Mendes (Ilha Grande-RJ), quando prisioneiros comuns passaram a conviver com os presos políticos capturados pelo governo, responsáveis por sequestros de embaixadores, atentados terroristas, assaltos a banco e atentado pessoal. O artigo 25 da Lei de Segurança Nacional (1967-1969) tipificava uma série de crimes que equiparava os presos políticos aos criminosos comuns, que também passaram a ser processados com base na LSN. Desse convívio, os presos tiveram contato com obras marxistas-leninistas e táticas de guerrilha urbana. O autor não acredita que essa troca de informações teria sido usada pelos comunistas para se utilizar de criminosos comuns como braço armado contra o regime, tão somente porque não haveria nenhum documento que comprovasse tal ligação. Ele diz que: "Os revolucionários nunca pretenderam ensinar criminosos a fazer guerrilhas. Em mais de uma década de pesquisa, nunca encontrei o menor indício de que houvesse intenção, e menos ainda estratégia, para envolver o crime na luta de classes." Eu, sinceramente, não consigo acreditar nisso. Em certa parte, um dos integrantes do grupo menciona: "Vocês, da polícia, botaram o nome do nosso grupo de Falange Vermelha. Achamos por demais de direita. Falange nos faz lembrar a Espanha de Franco, o fascista. Por isso, achamos mais adequado Comando Vermelho, que passamos a usar." A mudança na atuação dos criminosos tornou-se muito organizada, tanto de dentro quanto de fora da prisão – coisa que nenhum bate-papo descompromissado seria capaz de ensinar. Os assaltos a bancos e sequestros passaram a seguir uma estratégia pormenorizada; foi estabelecido um código de ética entre os presos, que a polícia ironicamente batizou de "As 12 regras do bom bandido"; e os líderes da organização passaram a se mobilizar de forma a reivindicar melhores condições nos presídios, inclusive por meio do apoio de políticos e das associações de moradores das favelas. Curiosamente, até o lema da facção – "Paz, Justiça e Liberdade" – continha um viés de justiça social. Com o passar do tempo, seus integrantes perceberam que os assaltos e sequestros demandavam muito esforço, muitas vidas e os dividendos eram relativamente baixos. Foi a partir daí que os criminosos passaram a controlar o lucrativo tráfico de drogas dentro dos morros (e todas as ordens saíam de dentro dos presídios). Naquela época, já se estimava que 90% das favelas do Rio de Janeiro estavam sob controle do CV.
O autor deixa transparecer certa admiração para com os criminosos políticos. No prefácio, escrito por Domingos Meirelles, esses "revolucionários" tinham sido presos apenas por expressar suas opiniões contra o regime. O próprio autor comenta em algumas partes do livro que os presos políticos sonhavam em viver num mundo sem desigualdades e a luta armada era a saída contra uma suposta opressão do regime. Ele só não comenta que o objetivo de todo grupo armado no Brasil pós-1967, data da promulgação do Ato Institucional Nº 5, era a instauração de uma ditadura do proletariado. Isso é consenso entre qualquer historiador, mesmo porque o fato está presente em todos os manifestos e manuais de guerrilha da época.
Com essa ressalva, tenho de concordar que o livro é muito bem escrito e resultado de um trabalho investigativo sério. Até então, eu não tinha ideia de que o crime organizado no Brasil surgira do convívio de presos comuns com os comunistas, ainda na década de 70, mas confesso que, dado nosso estado de coisas, não fiquei nem um pouco surpreso.