Romance mostra um submundo de corrupção, traição, amizade e explosão econômica do ponto de vista de um representante de vendas em uma das maiores cidades da China
Chen Dong é um ambicioso gerente de vendas de autopeças em Chengdu, uma das metrópoles mais populosas da China. Ele é a nova cara do gigante asiático, trabalha como um louco na empresa e gasta como um louco enchendo a cara bares, em puteiros e compras. O tipo de cara que se mete em rolos como engravidar a noiva do melhor amigo, de ter que conversar com o contador da firma sobre seu uso “flexível” de verbas de viagens, assim como os acordões para receber por fora de clientes.
À sua volta gira um panteão de amigos e parentes que montam muito bem a atmosfera de uma cidade que existe para o trabalho e o prazer. Temos o chefe Gordo Dong que tenta derrubar Chen Dong a cada momento, o colega de faculdade poeta que virou viciado, o amigo policial que está subindo no escalão da corrupção e do poder e os pais, reflexos de uma geração esquecida e que não encontra lugar na explosão do milagre chinês.
Deixe-me em Paz tem um ar de Nelson Rodrigues, quase como um “A Vida Como Ela É na China”. O próprio Chen Dong é um “cafajeste adorável”, trai a mulher com tudo que tem duas pernas, mas se remói de tristeza quando ela finalmente o larga. Tem um gênio impossível com explosões de fúria, mas se encanta ao lembrar antigos poemas escritos pelo melhor amigo no tempo da faculdade.
E alguém que parece querer viver para sempre no passado. Aos 28 anos, Chen Dong já é um velho saudosista que passa o tempo remoendo os bons tempos de poucos anos atrás depois de apenas alguns anos da rotina moedora de trabalho que a cidade de Chengdu e a China exigem.
O livro tem um ritmo de thriller, por mais que o principal que aconteça seja as peripécias extraconjugais e financeiras de Chen Dong. O escritor Murong Xuecun consegue capturar com minúcias essa atmosfera ao mesmo tempo tão semelhante com a da minha cidade natal de São Paulo ao mesmo tempo com particularidades da cultura chinesa. As descrições colocam o leitor de fato dentro desse mundo que consegue ser ao mesmo tempo o mais comunista e o mais capitalista. Um lugar cruel e implacável e que consegue ser um lar aconchegante.