Um pequeno livrinho que me intrigou desde o primeiro momento em que o vi. Estava num daqueles armazéns pertencentes a associações solidárias que recolhem e vendem recheios de casas, deslocado entre os livros policiais. A "camuflagem" foi quase eficaz e foi mesmo por muito pouco que não me passou despercebido, não fosse o nome "Elia Kazan" ter-me despertado a atenção.
Elia Kazan.. o realizador que "descobriu" Marlon Brando e James Dean? Encenador e/ou realizador de obras tão conhecidas de Tennessee Williams (como "Um Eléctrico Chamado Desejo" ou "Gata em Telhado de Zinco Quente"), Arthur Miller ("Morte de Um Caixeiro Viajante") ou John Steinbeck (A Leste do Paraíso)? Seria o mesmo Elia Kazan? A contracapa confirmou que sim, mas que título seria este? O cineasta escrevera um livro? Seria um guião?
As minhas perguntas não demoraram muito a ter resposta e foi com muito interesse que li a Nota do Editor e o divertido texto introdutório de autoria de S.N. Behrman intitulado "A Audácia de um Realizador".
Esclarece-se por exemplo que ao iniciar este América América, Elia Kazan pretendia escrever o guião para um filme, mas que o resultado final se revelou algo mais, uma obra literária que poderia existir por si mesma, ainda que o filme nunca chegasse a ser realizado (a pesquisa google revelou-me que o filme foi realizado por Kazan em 1963).
O tema do livro é a emigração. Kazan, também ele um emigrante nos Estados Unidos, ter-se-á baseado na história verdadeira de seu tio. O livro conta-nos a história de Stavros, um jovem grego da Turquia e do seu sonho de ir para os Estados Unidos. É uma história dura, de perseverança face às dificuldades, sobre sobrevivência e sobre o preço a pagar para manter vivos os sonhos.
Terminei este livro no mesmo dia em que o iniciei, o que para mim diz muito sobre a forma como esta história me prendeu. Lê-se muito rapidamente e com grande facilidade. O estilo é simples, muito perto do que seria um "guião puro". Ler este livro foi mesmo uma experiência muito similar à de ver um filme.
O autor apresenta-nos um conjunto de cenas, de imagens, de falas e de ações, onde tudo se sucede muito rapidamente. Para mim, apesar de ter gostado bastante e ter considerado que este estilo "cinematográfico" resultou e que esta história foi bem contada, no final ficou-me a "faltar qualquer coisa. Talvez um pouco mais de profundidade, de substância, de palavras...mais palavras. Fiquei até com pena que uma história tão boa não tivesse beneficiado de todo o potencial das palavras.
Tem no entanto o potencial das imagens, o das ações, a força arrebatadora das suas personagens. É sem dúvida um bom "filme"😁 (e fora de brincadeiras, se me "cruzar" com o filme irei com certeza vê-lo porque ler o livro despertou muito essa vontade)