Vencedor do prestigiado Prémio PT Literatura 2014, no género poesia, com o livro «"Observação do Verão" seguido de "Fogo"», Gastão Cruz é um dos nossos mais notáveis poetas contemporâneos. «Óxido» é o seu mais recente livro de poesia. CORDA Ninguém tem apenas uma escura corda de sons que prende o corpo e deixa queimaduras na pele, esse é o preço de ser nomeado porque o chamamento de cada vez se torna mais ardente até ser casa ou roupa ou outra pele que fere o corpo e finalmente o veste do nome que é o dele
Gastão Cruz, poeta e ensaísta português, nasceu em 1941, na cidade de Faro, no Algarve, e licenciou-se pela Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa em Filologia Germânica. Professor do ensino secundário, o autor exerceu paralelamente, entre 1980 e 1986, a carreira de leitor de Português no King’s College de Londres e dirigiu, nos anos 70 a 90, após a morte de Carlos Ferreira, o grupo de teatro Teatro Hoje/Teatro da Graça que ajudou a fundar. O gosto pelo teatro e pelo mundo da poesia “empurra-o” para a tradução de títulos dramáticos de, entre outros autores, Strindberg, Shakespeare (Conto de Inverno) e Cocteau e para a organização de recitais dramatizados que proporcionam uma intensa divulgação poética. Ainda muito jovem, com apenas 19 anos, Gastão Cruz, manifestando já um grande apego pelo texto poético, publica o seu primeiro livro, A Morte Percutiva, no volume colectivo intitulado Poesia 61, que compila textos de uma plêiade de cinco jovens poetas: Casimiro de Brito, Fiama Hasse Pais Brandão, Luiza Neto Jorge e Maria Teresa Horta. Homem com uma forte ligação à terra onde nasceu, o autor sente uma grande revolta quando olha para o que o rodeia. A destruição do cenário que o viu nascer e crescer, nomeadamente o da Ilha de Faro onde passava as férias de Verão: o mar, a areia, os cardos, as plantas e os seus aromas e, sobretudo, o silêncio e o isolamento são temas recorrentes na sua poética. Mas, na sua obra, perpassam temas diversos como a dor, a metamorfose, a guerra colonial (Outro Nome e Aves), a morte (Pedras Negras). Começando por assumir uma escrita experimentalista, Gastão Cruz adoptou depois formas clássicas como o soneto e a canção, que reflectem bem, desde os anos 60, a influência de Camões que, aliás, o autor não desmente. As suas obras são caracterizadas pela contenção quantitativa, sendo assim reduzido o número de textos que compõem cada volume. Ao contrário, cada um destes textos são portadores de uma grande densidade de significação e formam entre si uma unidade que se estrutura como uma teia. Orgão de Luzes, por exemplo, é composto por 15 poemas caracterizados por um vocabulário escasso e por um “virar” do sujeito poético para si próprio, como se fechado dentro de uma Campânula (título de um outro livro publicado em 1978). Acreditando que a poesia deve conter um “discurso autónomo”, correspondendo a um “sistema com as suas leis próprias”, Gastão Cruz considera que esta deve resultar de um trabalho de composição consistente e rigoroso. Autor de uma obra muito diversa, publicou, entre outros, os seguintes títulos: A Morte Percutiva; A poesia Portuguesa Hoje, 1973; Campânula, 1978; Orgão de Luzes; Transe (1960-1990); As Pedras Negras, 1995; Poesia Reunida, 1999; Crateras, 2000 que recebeu o Prémio D. Dinis. Fonte: Assírio & Alvim Editores
Gastão Cruz é um grande poeta, mesmo quando escreve sobre assuntos os domésticos ou íntimos que muitas vezes poderiam redundar em clichés. Mas isso é com outros autores, não com este, que burila as palavras com cinzel como poucos fazem. Aqui a rima pobre regressa à sua pureza, processo de depuração tão difícil quanto arrojado e, como é o caso, bem conseguido. Todo o livro é pautado de resto por essa pureza inicial e uma simplicidade aparente. Fundamentalmente o livro divide-se em três secções: uma observa o tempo coevo da perda de identidade nas grandes metrópoles, os movimentos anódinos das gentes do metro; outra aproxima-se das memórias e das experiências mais sensoriais de um tempo perdido ou nostálgico; a última é uma interrogação a Rimbaud, que decidiu fugir de tudo e acabou a pessoa mais entediada do mundo. O poema «Mediterrâneo» é um dos pontos altos deste breve e denso livro: «O poeta grego não aceita/ o envelhecimento e gostaria/ de morrer antes que o torne a decadência/ alguém que não desejaria ser// (...) e também o mar grego, que disseste/ banhar os cemitérios/ mais impressivamente do que este,// depois de nós continuará a ter/ o mesmo azul da vida que nos há-de perder»
Gostei muito dos últimos poemas, já os primeiros não me chamaram à atenção. A poesia é algo muito difícil de compreender, mesmo assim adoro-a e não desisto.