"A pobreza nunca me incomodou; posso viver com $400 por ano, se for preciso. Tempo para pensar e liberdade de ação são-me muito mais importantes no presente que qualquer possível vantagem econômica. Sempre tive de viver à custa de meus esforços, sofrendo a oposição, e não tendo amparo, dos tempos e dos homens que conduzem as coisas, e não me importo de continuar desta maneira". - Russell Kirk.
Nascido em 19 de outubro de 1918 em Plymouth, Michigan, EUA, Russell Amos Kirk, filho do maquinista de trem Russell Andrew Kirk e da garçonete Marjorie Rachel Pierce Kirk, era graduado e Mestre em história, filósofo político e crítico social e literário. Serviu nas Forças Armadas dos EUA, durante a Segunda Guerra Mundial, e em seguida frequentou a University of St. Andrews na Escócia, onde tornou-se o primeiro americano a receber o título de Ph.D por aquela universidade em 1952.
Morreu aos 75 anos em 24 de abril de 1994, deixando uma vasta obra literária, com destaque para o livro, "The Conservative Mind" de 1953, que deu forma ao movimento conservador americano pós-guerra.
Viveu de forma simples em uma pequena vila de Mecosta, longe da agitação das grandes cidades, onde se dedicou à família (esposa e quatro filhas), e à atividade intelectual. Influenciado pelas escolas burkeana e elioteana, é considerado o “pai" do pensamento conservador contemporâneo dos EUA e seu livro The Conservative Mind, é considerado o "Gênesis" desse pensamento.
Dono de um caráter tímido, humilde, sincero e gentil, foi firme e enérgico "defensor das verdades que apreendeu". Lutou contra os erros ideológicos da modernidade alegando que o cenário político-intelectual era marcado pelo conflito entre três posturas distintas: a reacionária, a liberal ou progressista e a mentalidade conservadora.
A presente obra aborda “os princípios do conservadorismo, a luta contra o progressismo, a caracterização da doutrina através de obras e personalidades, os problemas nas relações externas, a centralização estatal, a deterioração do sistema de ensino, a proletarização da sociedade e da ideologia do democratismo". O objetivo do autor, além de defender “a política prudencial, em oposição à política ideológica", é persuadir o leitor contra o fanatismo político e utopias.
As ideologias, fundamentadas nas ideias, sonhos e abstrações, se apresentam como uma "verdade salvífica", prometendo paraíso terreno à humanidade, contudo “criaram uma série de infernos na Terra. Dentre as mais conhecidas destacam-se: nacionalismo, fascismo, nazismo, feminismo, negritude, anarquismo, sindicalismo etc.”. Karl Marx dizia que a ideologia (ciência das ideias) é a “apologia das demandas de uma classe. [...] O marxismo prega a revolução do proletariado, para alcançar o comunismo"
"Conservadorismo é a negação da ideologia: é um estado de espírito, um tipo de caráter, um modo de ver a ordem civil e social". Preza pelos costumes, convenções e a experiência dos antepassados. Defende o agir judicioso, cauto e sagaz. Entende que a "política é a arte do possível. [...] visando a natureza humana, defendendo a ordem, justiça e liberdade", e que uma mudança saudável e gradual é o meio de nossa preservação".
Dentre os acontecimentos favoráveis à causa conservadora mencionados por Kirk, destaco: assinatura da Constituição dos Estados Unidos em 1787 - tratando-se do "documento genuinamente mais conservador das histórias das nações"; exortação de Edmund Burke aos seus amigos, para que continuassem a luta contra a "doutrina armada", mesmo que isso lhes custasse a própria vida; conversão do primeiro marxista norte-americano que refutou energicamente tanto Karl Marx quanto Friedrich Engels, após a publicação do Manifesto do Partido Comunista; o aniquilamento dos nazistas na Segunda Guerra Mundial; a eleição do polonês Karol Wojtyla para o papado, sob nome de João Paulo II; e a eleição de Ronald Reagan para presidente dos EUA em 1980, restaurando a confiança e esperanças do povo americano.
Não existe uma cartilha ou manual do conservadorismo, nem tão pouco um equivalente conservador ao "Das Kapital", porém alguns livros servem como bússola do conjunto de sentimentos que os conservadores compartilham, pois o conservador: "acredita que há uma ordem moral duradoura; adere aos costumes, à convenção e à continuidade; acredita no princípio da consagração pelo uso; é guiado pelo princípio da prudência; preza pelo princípio da variedade; é disciplinado pelo princípio da imperfectibilidade; defende que liberdade e propriedade estão intimamente ligadas; defende comunidades voluntárias, se opondo ao coletivismo involuntário; prega limites prudentes sobre as paixões humanas; e reconhece que permanência e mudança devem ser reconhecidas e reconciliadas."
3 livros mencionados despertaram meu interesse para uma futura leitura: Reflexões sobre a Revolução na França, de Edmund Burke; A Democracia na América, de Alexis de Tocqueville; e Notas Para Definição de Cultura, de T. S. Eliot.
Além de Burk e Eliot, outros conservadores o ajudaram a formar sua mentalidade, e sua lista apresenta: "um orador e um Imperador Romanos, um lexicógrafo inglês, um romancista escocês, um político da Virgínia, um pirata desossado da nova Inglaterra, um presidente norte-americano durão, um romancista Capitão-do-mar polonês, um recluso sulista da Universidade de Chicago e uma viajante de terras antigas! No entanto, foram tipos como esses que formaram a minha mentalidade conservadora; e essa mesma diversidade demonstra que o conservadorismo não é uma ideologia, mas sim um complexo de pensamento e sentimento, um profundo apego às coisas permanentes. [...] e nós, pessoas do final do século XX, devemo-nos desembaraçar da apatia da terra dos lótus, informando-nos sobre como podemos defender as coisas permanentes contra a ira dos inimigos da ordem, tão ferozes e clamorosos em nosso tempo; ou como, na pior das hipóteses, manter de pé alguns fragmentos diante da ruína."
Na sequência, apresenta o pensamento de 4 "eminentes homens de letras conservadores": T. S. Eliot, Donald Davidson, Wilhelm Ropke e Malcolm Muggeridge.
T. S. Eliot apoiava a coroa inglesa, e "monarquias tradicionalmente estabelecidas em outros lugares", sobreviventes dos ataques dos movimentos revolucionários pós guerras. Era crítico e imparcial com os líderes de todas as facções políticas da Inglaterra. Fundou a revista The Criterion, cujo objetivo era "salvar o mundo do suicídio", ratificando e incrementando o tradicional, em forte oposição ao Marxismo e outras ideologias, junto à Intelligentsia. Posicionava-se contra o poder centralizado, buscava preservar uma sociedade humana que partilhasse as mesmas convicções religiosas, pois entendia que qualquer cultura depende de tais crenças: "Não acredito que a cultura na Europa possa sobreviver ao completo desaparecimento da fé cristã. E estou convencido disso, não apenas porque eu mesmo sou cristão, mas como estudioso da biologia social. Se o cristianismo se for, toda nossa cultura irá com ele. Então será preciso começar de novo, dolorosamente, e não se pode vestir uma nova cultura pronta. É preciso esperar que a grama cresça para alimentar as ovelhas que darão a lã de que seu novo casaco será feito. É preciso passar por muitos séculos de barbárie. Provavelmente, não viveremos para ver a nova cultura, tampouco a verão nossos tataranetos: e se víssemos, nenhum de nós seria feliz nela".
Já em relação aos EUA, Eliot acreditava que as soluções para a democracia se encontram na restauração da educação, sem interferência alguma na estrutura constitucional.
Entrando no mundo do conservadorismo sulista, Donald Davison, um agrariano defensor das coisas permanentes, opunha-se energicamente ao "enorme Estado de Bem-estar social, que devora o espírito". Nesse mesmo propósito, 12 escritores se reuniram e escreveram o livro I'll take my stand: the south and the agrarian tradition (manterei firme a posição: o Sul e a tradição agrária), exaltando o humanismo cristão e o apego aos costumes do Velho Sul na bravura, exercendo severas críticas à sociedade industrial de massas, ojeriza ao comunismo e outras formas de coletivismo.
Nas palavras de Kirk, o conservadorismo desses sulistas tinha o propósito de "abrir-nos os olhos às ilusões do modernismo [...] nossas cidades grandes, uma centena de ruas longas, encontram-se quase arruinadas, devastadas pelo crime, com a população corrompida ou exposta ao perigo por narcóticos letais, com todo senso de comunidade destruído. A nossa alardeada afluência é desmentida pelo crescimento rápido e sinistro de um genuíno proletariado, voraz e desregrado, subsistindo à custa do público. Os estratos da burocracia governamental são cada vez mais ineficientes e opressivos. As legislaturas, nacionais e estaduais, parecem dispostas a ceder a toda a exigência de qualquer grupo de pressão, não obstante o verdadeiro interesse público. Os juízes, ou muitos deles, viraram demagogos. O ar está muitíssimo poluído; a zona rural, enfeiada; o gosto público, corrompido. As crianças são educadas de modo indulgente, em meio a imagem de terrível violência e sexualidade grosseira. A educação escolar em todos os níveis foi reduzida a tomar conta das crianças, pajear os adolescentes e a acasalar os universitários: o ensino das Humanidades e da História é desprezado. Enquanto falamos futilmente de livre empresa, os conglomerados industriais e comerciais se movem rumo ao oligopólio em uma escalada crescente. A crença e a observância religiosas foram, primeiramente, reduzidas ao ethos da sociabilidade e, posteriormente, aos discursos ignorantes sobre a revolução. Leviatã, a sociedade monstruosa, engoliu as multidões. [...] Estudai o que os 12 sulistas escreveram, e vireis a descobrir que tais homens não são meros arcaístas".
Wilhelm Ropke opunha-se às economias socialistas ou de "comando", como o nazismo, pregando o conceito de um sistema econômico adequado à natureza humana, como observado na Suíça, onde viveu até o fim de sua vida. Kirk narra um relato de Ropke que: após a Segunda Guerra Mundial, Genebra disponibilizou lotes para que trabalhadores pudessem cultivar seus próprios alimentos, o projeto foi tão bem aceito, que o governo deu continuidade. Feliz com o sucesso das hortas, "Ropke convidou Mises para ver os trabalhadores cavando e capinando os terrenos. Mises, entretanto, abanou a cabeça, com pesar: "Um modo muito ineficiente de produzir alimentos!", lamentou. "Talvez seja", respondeu Ropke, "mas talvez seja um modo muito eficiente de gerar felicidade humana".
Kirk complementa: " a não ser que comecemos a pensar em humanizar a economia norte-americana, as cidades continuarão a se desintegrar, e o povo norte-americano ficará cada vez mais entediado e violento. [...] Se o desenvolvimento material é o principal objetivo de um povo, não resta mais nenhum controle moral sobre os meios empregados na aquisição de riqueza: a violência e a fraude tornam-se práticas comuns".
Malcolm Muggeridge, de formação socialista, foi morar na Rússia, e em apenas seis meses viu todas as mazelas da ditadura do proletariado, mudando seu posicionamento. Criticou de forma incisiva e severa as ideologias progressistas, por ter visto toda brutalidade e miséria por trás do regime bem de perto. Denunciava as políticas contraceptivas e abortistas, e suas consequências e anomalia social. Demitiu-se do jornal Manchester Guardian, diante da omissão da boa e velha mídia, que se recusava publicar seus relatos nas edições daquele jornal. Foi firme em seu propósito.
O conservadorismo popular não deve ser confundido com populismo, visto que este pode levar à estagnação da sociedade sendo comparado ao conservadorismo democrático das massas (medíocre e complacente), ao passo que aquele defende os princípios conservadores já aqui mencionados. O modelo padrão do conservador norte-americano, é aquele sujeito que deseja uma sociedade livre de traficantes, drogas e assaltantes, deseja limitação do poder do Estado, deseja ver o filho na universidade, frequenta ou encoraja os filhos a frequentarem igrejas, trabalha com afinco, despreza as abstrações marxistas, deseja a livre concorrência, e quer tomar conta da própria vida, sem interferir na vida do próximo.
Exemplo de dois grandes nomes de líderes conservadores norte-americanos são: Abraham Lincoln, que definiu o conservadorismo como "a preferência pelo antigo e testado ao novo e não testado"; e o queridíssimo 40º presidente americano, conhecido como Mr President, Ronald Reagan, "um modelo de conservador na vida pública: audacioso, intrépido, alegre, honesto - especialista no agir rápido e preciso, ainda que fosse necessário improvisar. [...] Aos olhos do conservador típico norte-americano, suas falhas ocasionais foram eclipsadas pelas grandes realizações em oito anos de governo... Foi ajudado pela compreensão conservadora de que a política é a arte do possível... Pode ser que nunca mais vejamos alguém como ele, que represente de modo tão perfeito o conservadorismo popular norte-americano". ❤️
Kirk criticava os libertários, afirmando que seu radicalismo ideológico, os colocava lado a lado com a utopia marxista, principalmente no que diz respeito à abolição total do Estado, considerado o "grande opressor". Para o conservador, o Estado, embora mínimo, deve ordenar as relações: "ordem é a primeira necessidade. A liberdade e a justiça só podem ser estabelecidas depois que a ordem esteja razoavelmente assegurada".
O conservador acredita numa ordem moral transcendente, ao passo que o libertário confunde a "existência efêmera dos indivíduos com a origem e o fim de tudo". Fechando esse pensamento da divergência entre conservadores e libertários, uma reflexão de Edmund Burke: "Homens imoderados nunca podem ser livres. As paixões lhes forjam os grilhões".
Com relação aos neoconservadores, quer seja o esquerdista que virou a casaca, ou alguém em busca de poder e oportunidades, eles surgiram num momento em que a nação se encontrava enfraquecida devido aos erros do governo Lyndon B. Johnson. Jornalistas e professores usavam o termo neoconservador de forma pejorativa, o associando à praga reacionária, inimiga do progresso, opressora dos pobres e aduladores do capitalismo e dos barões feudais.
Os neoconservadores proclamaram que a política é a arte do possível e fizeram bastante pela causa do bom senso. Colocaram-se contra o sentimentalismo dos liberais esquerdistas e o fanatismo radical dos marxistas. Fundaram periódicos sérios e inteligentes com artigos valiosos sobre políticas públicas, educação e outras questões contemporâneas importantes. Iniciaram uma discussão de alternativas práticas à mera ação social e se opuseram aos projetos e ameaças da União Soviética, pois entenderam que não se tratava apenas de combater um rival nacional, mas combater uma "doutrina armada".
Kirk criticava a paixão dos neoconservadores pela ideologia, lembrando que se trata de fanatismo político, não sendo monopólio de comunistas ou fascistas. Sentiu-se desapontado, pois se mostraram mais preocupados com o PIB, com a uniformidade e padronização americanizada, do que com os desafios sociais que assolavam a nação. Embora fossem inteligentes, raramente eram sábios.
Por outro lado, existe um grupo de pessoas que se preocupa e envida todos os esforços para preservar costumes, instituições, maneiras, comportamentos e cultura de uma sociedade: são os conservadores culturais. A civilização que eles tentam preservar e/ou salvar, é a cultura ocidental, ou civilização cristã, "filha da cultura da Igreja".
"Cultura de uma nação é o complexo de convicções, usos populares, hábitos, técnicas, métodos econômicos, leis, moral, estruturas políticas e todos os modos de vida em comunidade desenvolvidos ao longo dos séculos. [...]procede de culto que é uma reunião para adoração - isto é, uma tentativa das pessoas de comungar com um poder transcendente. É da associação no culto, do conjunto dos adoradores, que cresce a comunidade humana... uma vez reunidas no culto, torna-se possível a cooperação para várias outras coisas... E, particularmente, a rede de normas morais, de regras para a conduta humana, é produto das crenças religiosas".
O racionalismo religioso, o crescimento do cientificismo e do anticulto, a indiferença e hostilidade à religião transcendente, estão pavimentando o caminho para a ruína da cultura, cujo principal pilar é a fé, que começa a ruir. C. Northcote Parkinson afirmou que existem seis estágios no caminho da dissolução de uma civilização: supercentralização política; crescimento imoderado dos tributos; grande e disforme máquina política; promoção das pessoas erradas; ímpeto de esbanjar; e sentimentalismo fraco.
O trabalho dos conservadores culturais tem sido árduo, para restaurar essa cultura, e dentre as medidas necessárias, estão: restaurar ordem moral e o saber, humano e científico; reformar políticas públicas progressistas; focar no revigoramento cultural do que nos problemas econômicos; ter um propósito de vida.
Referente à política externa prudente, assim como na política doméstica, o exercício da política externa é a arte do possível. Uma política externa prudente tem por base o ideal da não intervenção. Portanto, a ideologia da americanização universal pode ser desastrosa, tornando os EUA ainda mais detestados do que o fora o Império soviético. Intervenções bélicas, para uma americanização forçada em nome do "capitalismo democrático" seriam recebidas muito mais cordialmente ao redor do mundo do que a russificação forçada em nome da "ditadura proletária"?
Ronald Reagan teve sucesso na política externa, pois restaurou o vigor da economia norte-americana e foi combativo cada vez que uma ameaça real aos EUA era posta em prática. Desenvolveu o programa militar de proteção contra mísseis nucleares, aumentou o poderio bélico, e quando necessário, aplicou o uso das forças armadas para neutralizar e parar o avanço do inimigo. Reagan não temia os governantes do "Império do Mal". Sua demonstração de força e combatividade fez Mikhail Gorbachev e seus camaradas repensarem suas ambições e diminuírem seus gastos, pois "o velho ator proveniente de um rancho na Califórnia, rápido no gatilho nos filmes, os havia superado em poder de fogo".
(continua nos comentários)