O livro 'Elis Regina - Nada Será Como Antes' narra a vida de Elis desde seus primeiros dias em Porto Alegre, quando cantava 'Fascinação' ao lado das amigas nas escadarias de um colégio, até sua despedida trágica, aos 36 anos, quando estava prestes a, de novo, mudar tudo em sua vida. Ao todo foram quatro anos de entrevistas e pesquisas em arquivos. A ideia de escrever a biografia surgiu por meio de um convite da editora ao ao autor. No começo, o perfil do livro era uma homenagem, mas conforme o autor foi descobrindo mais histórias e avançando nas entrevistas, viu que havia muito mais o que contar. Pessoas importantes que até então nunca haviam se pronunciado - como dezenas de músicos que tocaram com ela. Depois de dois anos em campo - durante esse tempo foram inúmeros arquivos consultados e 126 entrevistas, a maioria delas feitas pessoalmente -, o autor começou a colocar a história no papel. 'Mesmo quando parei para escrever, as histórias continuavam a aparecer, e o livro ganhava novas partes de tempos em tempos. Ele ficou vivo o tempo todo. E confesso que, se pudesse, estaria neste momento colocando mais histórias', conta. 'Não vivi a era de Elis. Quando ela faleceu, em janeiro 19 de janeiro de 1982, eu tinha nove anos de idade, e diante dessa personagem gigante, fui o que sou há 16 anos - repórter. Me joguei com o respeito que a história merecia, mas sem nenhuma tese a defender. Creio que o olhar descontaminado de paixões ou ódios ajude a traçar um perfil mais humano e menos divino', diz o autor.
Sempre gostei de biografias e este livre foi impecável do início ao fim. Respeitoso e imparcial, em nenhum momento Júlio Maria deixou que sua admiração pela artista comprometesse a narração de sua história. Sempre com muita pesquisa e contexto da época, boas entrevistas e focando mais na importância de Elis para a arte do que em sua conturbada vida pessoal.
O paulista Júlio Maria, autor desse ótimo livro, nasceu em 1973 e é repórter, crítico de música e escritor. Venceu, em 2015, o prêmio da APCA (Associação Paulista de Críticos de Arte) pela sua biografia de Elis Regina, intitulada “Nada será como antes”. Seu livro de 2021, “Ney Matogrosso, a biografia”, foi sucesso de público e de crítica e conta a rica história de um dos artistas mais originais e audaciosos da música brasileira. Em 2023, três acontecimentos fizeram com que ele se lançasse de corpo e alma na reedição de sua biografia de Elis Regina: o encerramento das atividades da editora Masters Books, responsável pelo lançamento do livro em 2015, o interesse da editora Cia das Letras na reedição e as polêmicas envolvendo o nome da cantora após a empresa Volkswagen lançar uma peça publicitária em que a imagem da cantora era recriada via IA. No prefácio dessa reedição, lançada em 2025, intitulado “Uma biografia sem fim” o autor escreveu o seguinte sobre a biografia de Elis Regina:
“Era necessário atualizá-la, ampliá-la, revalidá-la e contradizê-la, ao menos até o dia em que Elis a desatualizasse mais uma vez. Assim, com o bom interesse da Cia das Letras, voltei a campo dez anos depois do primeiro lançamento para buscar histórias que não constaram da primeira edição, reforçando-as com documentos inéditos, novas entrevistas, matérias de jornais, testemunhos e escritos que Elis deixou com familiares e amigos. Não resisti à tentação da reescrita para tornar o texto menos acidentado e mais fluido; objetivo, mas não linear; imparcial, mas não frio. Decidi trazer mais Elis para as páginas da biografia. Ao redigir o texto original, por acreditar na força da “narrativa limpa”, usei poucas aspas da artista, preferindo deitá-las em forma de texto corrido. Quem conta é o livro, não o personagem. Porém, ao reler as entrevistas concedidas por ela, percebi o quanto sua voz falada tem o magnetismo exercido pelo seu canto. É na fala de Elis que tudo começa. Suas ideias são expostas com ligações cognitivas ligeiras e decididas, sintaxes elaboradas e premissas abrangentes. Simples e densa, exatamente como a sua música”.
“Elis: Nada será como antes” é um livro muito bem feito e sua leitura é fluida e prazerosa. Mas vale a pena ressaltar que é um livro escrito por um fã. Júlio Maria não consegue, em minha avaliação, esconder a sua admiração por Elis Regina e por sua obra. Faltou, então, um pouco mais de distanciamento do biógrafo em relação à sua biografada. Esse distanciamento é bem mais visível em sua biografia de Ney Matogrosso cuja trajetória pessoal e artística é contada de forma mais objetiva e imparcial. Dito isso é lícito ressaltar que a leitura desse livro oferece uma oportunidade privilegiada para conhecer melhor a vida e a obra da cantora que ocupa na rica trajetória da música popular brasileira o lugar (merecido em minha avaliação) de “a melhor cantora do Brasil”. O autor começa o livro, curiosamente, no dia 19 de janeiro de 1982, dia da morte da cantora, com apenas 36 anos de vida na cidade de São Paulo. Esse capítulo é muito bem elaborado e não há como não se angustiar com os trágicos eventos da manhã desse dia em que Elis Regina nos deixou. Depois desse início angustiante o autor nos leva aos primórdios da cantora nascida na cidade de Porto Alegre (RS) do dia 17 de março de 1945 mostrando como desde tenra idade Elis Regina Carvalho Costa, seu nome de batismo, já demonstrava veia artística soltando a voz para colegas de escola e familiares. A sua ida para o circuito Rio/São Paulo foi inevitável uma vez que, principalmente na época em que Elis vê como incontornável o seu caminho na vida artística com o apoio da família (início dos anos 60) não era possível ter visibilidade e sucesso ficando no RS. Só que o início da carreira de Elis foi difícil. Seus primeiros trabalhos, em função da inadequação do repertório e da indefinição da sua imagem, passaram praticamente despercebidos e passou pela cabeça dela desistir e voltar ao RS. Só no início dos anos 70 Elis mostrou realmente a que vinha e, mais madura e mais bem orientada por bons produtores e municiada por grandes compositores com grandes canções passou a ocupar uma posição central na chamada MPB. São incomparáveis as interpretações viscerais mas ao mesmo tempo tecnicamente perfeitas de Elis Regina de canções memoráveis como “Águas de março”, “Fascinação”, “As aparências enganam”, “Como nossos pais”, “Madalena”, “Me deixas louca”, “Upa neguinho”, “Black is beautiful”, “O Mestre sala dos mares”, “O bêbado e a equilibrista”, “Romaria”, “Maria Maria”, “Tiro ao Álvaro”, “Aprendendo a jogar”, “Alô, Alô Marciano”, “Querelas do Brasil” e muitas outras e o autor mostra, de forma muito interessante, como essas canções chegaram até ela, como foram gravadas, sua repercussão em nível nacional e que fizeram parte de grandes, duradouros e famosos shows que a cantora protagonizou como “Falso brilhante”, “Transversal do tempo” e “Trem azul”. Só que os elogios a esses espetáculos e os elogios a essas grandes performances vocais não eram suficientes para encobrir uma grande frustração que a cantora levou para o túmulo: o fato de suas vendagens nunca terem chegado perto de artistas seus contemporâneos como Roberto Carlos, Rita Lee e Gal Costa que chegaram à marca do milhão de cópias com, de acordo com a perfeccionista Elis, obras bem menos relevantes. Merecem destaque também as menções que o autor faz das relações turbulentas da cantora com o regime ditatorial brasileiro (1964/1985) e com o próprio meio artístico que, com ela, tinha uma relação um tanto quanto turbulenta pois Elis era uma pessoa de difícil convívio em função de suas oscilações fruto de uma personalidade forte, intensa passionalidade e grande perfeccionismo. Para quem gosta de detalhes picantes o autor dedica boa parte da obra para descrever os amores da artista: seu marido e grande amor, o produtor e compositor Ronaldo Bôscoli, pai de seu primeiro filho João Marcelo (hoje nome de prestígio no meio artístico), seu outro grande amor e parceiro de palco César Camargo Mariano, pianista, arranjador e produtor, pai de Pedro Mariano e de Maria Rita (também artistas), seus casos fugazes com membros de sua banda e tórridos casos com gente famosa como Edu Lobo, Nelson Motta, Guilherme Arantes e Fábio JR (neste quesito merece registro o fato de que a cantora era conhecida como “Pimentinha”, apelido dado a ela pelo “poetinha” Vinícius de Moraes com base em sua performance nos palcos mas em função de tantas paixões passo a especular se Vinícius se referia apenas a questões artísticas...) No final do livro o autor se debruça sobre as polêmicas envolvendo a morte da cantora. Suicídio? Homicídio? Nenhuma dessas teses se sustentou. A primeira por que Elis estava otimista, fazendo planos para um novo álbum e um novo espetáculo em 1982. A segunda por falta de motivos, de inimigos e de indícios. O que leva o autor a concordar com o laudo oficial sobre a morte de Elis que teria sido vítima de uma overdose acidental de cocaína cujos efeitos foram agravados por ingestão simultânea de bebida alcoólica. Senti falta de uma galeria de fotos mais abrangente e de uma discografia, elementos que poderiam ter sido incluídos nessa edição revista e ampliada. Ótima pedida!
Biografias são maravilhosas para um aprofundamento sobre grandes figuras da história, mas podem trazer dois péssimos personagens que destroem qualquer livro biográfico, um é o detrator, o autor que só pensa em destruir o mito e não pensa duas vezes em aumentar ou deturpar para vender sua história sobre o anjo caído, o outro é o fã, que ignora as humanidades da figura e trabalha apenas com o mito, trazendo um trabalho bonito, mas plástico e as vezes tão mentiroso quanto o primeiro. O trabalho de Júlio Maria neste livro é impecável e não entra em nenhuma das vias. Uma investigação jornalística rigorosa, com entrevistas a grandes nomes que conviveram com Elis, mas também é adensado pela análise cuidadosa de jornais e revistas da época e outros livros, como as memórias de Cesar Camargo Mariano. Além da acuidade do trabalho jornalístico também utiliza uma narrativa de tirar o fôlego. A escrita de Júlio te leva às escadarias da escola do IAPI pra ver a Elis menina cantar Fascinação pra Regina Wilke, lapida o Falso Brilhante, te faz rir e chorar no parto de Maria Rita. Um trabalho com respeito e verdade sobre a maior cantora do país, seus anjos e demônios, uma musicista incomparável, uma mãe zelosa, uma chefe rígida, uma amante entregue. Estão todas aqui, vale a pena. Em tempo: No início achei que a escolha do primeiro capítulo diminuísse a tensão do fim inevitável. Ledo engano.
Sigo na minha longa caminhada de leituras sobre o universo musical nacional, mas esse ano decidi dar um descanso para os gêneros e me aprofundar na história dos cantores, e comecei com a biografia da maravilhosa Elis Regina.
E que história de vida hein dona Elis? Elis é uma mulher muito forte, decidida, mas também extremamente frágil e insegura.
É complicado separar a Elis artista da Elis mulher porque percebemos que as grandes interpretações que ela deu na maioria das vezes foram reflexos do que ela estava sentindo. É muito difícil de decidir se amamos ou a odiamos, porque enquanto ela era incrível ela também sabia ser extremamente maldosa e vingativa.
Me encantei pela escrita do Julio, ele consegue contar várias histórias dentro da história principal, apresentando vários personagens da vida da Elis e da história nacional e internacional, mas sempre a deixando como foco principal. Além disso é extremamente delicioso ver certas cenas que eu ja conhecia dos livros do Ruy Castro, mas agora sob a perspectiva pessoal de uma das envolvidas.
Nós nos envolvemos tanto na leitura que, até aqueles que não são tão fãs dela - eu gostava dela, mas não era o que se pode chamar de fã - se emocionarão ao encontrar a mulher Elis Regina Carvalho Costa e não o mito Elis Regina.
Vemos as enormes qualidades da cantora ao mesmo tempo em que observamos o ser humano lindo e falível que nos deixa irritados e alegres, às vezes quase ao mesmo tempo.
Elis foi uma mulher - apesar de isso parecer clichê - realmente à frente de seu tempo. Ela desbravou caminhos e a única pena é que, infelizmente, devido ao seu temperamento indomável, acabou por sucumbir aos próprios desejos. Ela se foi cedo demais. E, talvez por isso mesmo, permanece ainda conosco até hoje e, ao que posso ver, eternamente.
Julio Maria conseguiu o que antes parecia impossível: narrar uma vida intricada como a de Elis de forma rica, respeitosa, fluida e sem recorrer ao campo minado do endeusamento e dos sentimentalismos e sensacionalismos baratos. De todo seu esmero, surgiu o guia definitivo sobre aquela que é, sem espaço para discussões, a cantora mais virtuosa que o Brasil já nos deu, digna de figurar em qualquer lista ao lado de maiores músicos do mundo em todos os tempos.
Livro maravilhoso, riquíssimo em detalhes. Sem esconder as imperfeições de Elis ou qualquer outro personagem, Julio Maria conta de forma muito envolvente a história de um momento tão marcante da música brasileira. Conhecia pouco Elis e foi muito bom ouvir as música ao longo do livro, conhecer o contexto de cada uma.