«Ela sabia que eu ia escrever este livro porque também é a minha história. E porque me move o desejo revolucionário de esclarecer que não fomos apenas mulheres violentadas, mas que, muitas vezes, fomos terrivelmente felizes.»
A Feliz e Violenta Vida de Maribel Ziga é um diário íntimo e o retrato de uma infância marcada pela brutalidade de um pai e pela coragem de uma mãe que, contra um mundo adverso, tenta criar as filhas com amor e liberdade. Itziar Ziga encontra na história de Maribel, sua mãe, ecos das de tantas outras mulheres, enredadas nas múltiplas violências machistas, patriarcais e macropolíticas que sustêm as nossas sociedades.
Escrito a partir da dor, em voos furtivos às recordações da violência, este é um exercício de reparação pessoal e colectiva, inflamado de raiva e de alegria de viver.
Três anos depois da leitura de Anna Karénina, praticamente só me lembro daquela infame citação, todas as famílias felizes se parecem umas com as outras, cada família infeliz é infeliz à sua maneira... (e mesmo assim, tive de ir repescar as palavras exatas da edição de 2006). De qualquer forma, não sei dizer quanto a famílias felizes e infelizes, per se — e a máxima parece-me demasiado redundante para ser tão boa como parecemos acreditar —, mas posso garantir que cada família monoparental (como agora as apodamos) é feliz à sua maneira. Pronto, não o posso provar porque não tenho os dotes de um Tolstói para debitar verdades de La Palisse como se fossem pérolas de sabedoria antiga, mas também não preciso, porque Itziar Ziga fá-lo por mim, e sem ser moralista ou abstrusa. Ora, A feliz e violenta vida de Maribel Ziga trata de uma infância marcada pela brutalidade de um pai e pela coragem de uma mãe. Chamem-me tendenciosa, mas eu recuso chamar pai a qualquer homem violento. Resta, assim, Maribel. E a sua história virá provar que, afinal, até tenho razão. Mescla de ensaio, (auto)biografia e manifesto feminista entretecido de memórias, esta pequena ode-manifesto é uma celebração da vida das mulheres que lutaram, lutam e lutarão — com quaisquer armas que tenham à disposição e com quaisquer níveis de autoconsciência dessa batalha — contra um sistema sociocultural arreigadamente misógino. Circulando em torno da figura da mãe, Maribel, muito boa aluna, [que] queria ir para a universidade estudar Filosofia e Letras e ser professora, mas que acabou a trabalhar na mercearia de uma tia, Itziar Ziga constrói uma crónica do poder da narrativa pessoal como ferramenta contra o legado da opressão (Sempre soubemos que éramos duas e que éramos cúmplices neste mundo). Num círculo onde mães, avós e tias representam o feminino primordial, as histórias herdadas entretecem-se de sabedoria antiga, reflexões e transgressões das normas, apelando à união e à sororidade:
Recitou-nos muitas vezes, a mim e à minha irmã, com uma certa rotundidade dramática de quem nos estava a revelar um segredo que nos podia salvar a vida: «Não te fies de um homem quando o vires a chorar, pois com lágrimas te diz que tareia te vou dar.» As mulheres cresceram, durante séculos, num mundo construído contra elas, sobretudo desde que as nossas irmãs arderam nas fogueiras do cristianismo. O feminicídio fundacional que foi a caça às bruxas partiu-nos em duas enquanto comunidade. Para submeterem o povo, arrebataram-nos o nosso poder social e sexual. Mas na ideia de que somos burras só acreditaram os patriarcas, nenhuma de nós aceita, realmente, ser submetida. Seja como for, suportamo-lo. Entretanto, vamos desenvolvendo estratégias de apoio mútuo e de autodefesa, como esse ditado transmitido entre mulheres desde sabe-se lá quando e que a minha amona [avó] nos repetia.
Maribel que teve como pai um homem bom e como marido um macho agressor é a prova viva, afirma Itziar, de que não há bom pai que nos livre a nós, mulheres, do patriarcado. A autodeterminação pode ser historicamente recusada, mas, por sua conta e risco, mulheres como Maribel encontram a coragem necessária para se revoltar contra uma educação na empatia, na ideia de que temos de cuidar dos outros mais do que de nós próprias, na manutenção do vínculo. E também na violência: de que seremos abusadas, enfim. Para Maribel, isso significou várias décadas de indecisão e planeamento, décadas de agressão psicológica e física (sofrida pela mãe e pelas filhas de igual maneira) antes da rutura. Para Itziar, no entanto, esta narrativa não é a narrativa de uma vítima, mas de uma heroína:
Por mais que a irrupção do meu pai implicasse muitas vezes assédio, violência, até a antecâmara da morte, a minha amatxo [mãe] construiu para nós o mundo que tinha dentro: cálido, divertido, estimulante, empático e disparatado.
Maribel Ziga conseguiu educar as filhas na rebelião contra as violências do sistema e no orgulho de serem mulheres que reconhecem, com todas as letras, que vergonhoso é o patriarcado, não tê-lo vivido, não viver obrigatoriamente nele. Consequentemente, a educação de Itziar fez dela uma feminista que se posiciona contra a segregação e o elitismo. Reconhecidamente polémica, no entanto, a autora apresenta-se nesta obra de forma muito mais consensual: aqui não se recusa o género, nem se insiste na desconstrução binária (pináculos do feminismo contemporâneo), antes se recorre à denúncia da misoginia basilar e atemporal. Podemos perguntar-nos se é a memória da mãe a principal responsável. Ou mesmo o seu potencial de contra-narrativa (caso em que falamos de um dispositivo narrativo deliberado). A romantização da figura materna, aliás, tende à simplificação do conflito e à mistificação das figuras — e é isso, essencialmente, o que explica a digressão final do texto, levando a autora a procurar abarcar um estilo ensaístico que quebra a lógica das memórias. Ainda assim, a totalidade de A feliz e violenta vida de Maribel Ziga funciona como uma tentativa de pacificação entre o legado maternal — que expõe a autora à violência — e o legado paternal — que a sujeita a ela. Nesse sentido, ao passo que o luto pela figura maternal é ritualístico (É verdade que arrefecemos depressa quando morremos. Acariciei-a, beijei-a, deleitei-me olhando para ela), encerrando-se no afeto, no quotidiano e no reflexo proveniente do espelho; o luto pela figura paternal é visceral, provém da revolta do género, e de uma vontade inerente de conciliar o irreconciliável:
Chorei muito quando ele morreu, chorei amarguradamente a solidão dele, e o seu fracasso. É também por ele que luto para derrubar o patriarcado: não quero que continue a fabricar homens que são abismos, nem mulheres que se lancem no abismo por gostarem deles.
Ainda que o posicionamento de Itziar Ziga não seja igual ao meu, ainda que esperemos e acreditemos em coisas diferentes — com tudo o que elas têm em comum —, elogio a sua coragem em se expor, e em expor o seu vínculo familiar, construto da sua pessoa. Continuo a acreditar que cada família em que uma mãe assuma o duplo papel de cuidador/educador e progenitor que normalmente cabe ao binómio pai-mãe, é feliz à sua maneira. Não sei se Itziar Ziga, lá nos antípodas desde onde me encontro, deixará de concordar comigo.
«Nacemos con carácter, todo el mundo lo sabe, y mi amatxo nació con una alegría de vivir inquebrantable».
El otro día comentando el libro de Leila Guerriero, hablaba de esas lecturas que te remueven por dentro, que tocan la fibra de manera especial. Pues bien, 'La feliz y violenta vida de Maribel Ziga' es una de ellas.
Itziar Ziga escribe sobre la violencia que su madre, hermana y ella misma vivieron a manos de su padre. Pero no solo se centra en eso, os puedo asegurar que lo que Itziar hace aquí, con una honestidad y fortaleza brutal, es pura luz.
En apenas 120 páginas no sólo pone de vuelta y media al sistema, sino que transmite un espíritu de lucha, cambio y esperanza completamente contagiosa. Esa «alegría de vivir inquebrantable», que mencionaba al principio, está en cada página de este libro, transmitiendo el profundo amor, respeto y orgullo que sentía por su madre Maribel.
Es importante saber, tener claro que las violencias y agresiones no nos definen. Itziar rompe el relato tradicional de 'víctima perfecta', que no es más que otra manera de seguir controlando el discurso, minimizando nuestras experiencias, y perpetuando así el silencio, la vergüenza, la culpa. Somos algo más que toda esa mierda y debemos luchar por esos espacios de luz de los que habla Itziar: esa cocina donde bailar danzas vascas o reír a carcajadas; los momentos de amor, de besos y abrazos; ese cuartito propio, donde seguir siendo las dueñas de nuestras historias.
«El futuro es este presente vibrante, brillante, revuelto, dulce, libertario, amoroso, sedicioso, levantisco, desgenerado, queer, feminista...y jodidamente nuestro». Pues vamos a por él.
Chi lo avrebbe mai detto che il racconto di una storia di violenza domestica sarebbe riuscito a farmi sentire così bene!
In teoria, questo è un memoir in cui Itziar Ziga racconta la storia di sua madre, del suo matrimonio violento e dalla lenta liberazione da suo padre. In pratica, è una specie di inno alla forza della sorellanza, una ricetta per come sopportare il patriarcato mentre aspettiamo di liberarcene, una dichiarazione d'amore dell'autrice a sua madre.
Il modo in cui il ritratto di questa donna emerge dalle pagine del racconto è incredibile: ogni parola che viene usata per descriverla racconta una complicità bellissima ("Abbiamo avuto conversazioni sincere e tranquille sulla nostra storia di violenza condivisa, soprattutto dopo esserci definitivamente sbarazzate di lui."), una genitrice fantastica ("la mia amatxo costruì per noi il mondo che si portava dentro: caloroso, divertente, stimolante, empatico e assurdo.") e una donna molto saggia, "empatica radicale", impossibile non amarla.
Ziga non le manda certo a dire: è arrabbiata e sa benissimo perché e addita i colpevoli uno dopo l'altro. Al contempo però non è consumata da questa rabbia, coltiva una sorta di giardino festoso che emerge ogni manciata di righe e che sparge attorno a sé. Descrive "la maledizione delle donne in questo mondo machista di merda" ma anche la "gentilezza vigorosa" che si respira in un'associazione femminista che frequenta, o "la moltitudine di alterità" con cui si rapporta che rappresenta "un'avventura che mi godrò finché vivrò".
Si può essere arrabbiate e tenere, ferite e combattive, traumatizzate e vitali e questo libro me l'ha insegnato una volta per tutte.
Itziar Ziga es una de mis perras anarko-putona favorita. Con ella aprendí a zorrear y a sentime libre con ello. Ese poderío y esa fuerza brutal que emana me dió fuerza para dejar de ser la víctima de ley y manual, para entender otras formas desde donde poder vivirnos y superar la violencia. En esta narración, donde se muestra en su forma más íntima, expuesta y directa, nos habla del maltrato que vivieron tanto ella y su hermana como su madre. Lo hace poniendo nombre a lo sucedido, pero también desde una vertiente antipunitivista: si se puede trabajar con el maltratador para que deje de serlo, ¿quién se opondría a ello?. Me parece brutal el recorrido que hace de su propia vivencia, de ella misma en todo su proceso hasta llegar a la Itziar que, con 50 años ,nos está narrando esta estapa de su historia. Recomiendo siempre leerla, pero me parece más que necesario dedicarle un tiempo de ternura a esta lectura. Por las ZIGA💜🖤
Una biografia in quattro atti, dall’Amore e Morte alla Rivoluzione, scritta nel linguaggio di un femminismo dolce e prezioso e deciso come il miele, in cui si esplora l’infanzia dell’autrice con l’obiettivo ultimo di far luce sulla violenza sistemica a cui ogni donna è soggetta.
Con una dedica iniziale a Madonna e una citazione potentissima di Anaïs Nin: “L’unica cosa anormale è l’incapacità di amore”.
Itziar Ziga nos cuenta una historia de terror, escapando del papel de víctima y victimaria y dándonos una clave maravillosa para el resto de nuestras vidas:
La importancia de tejer redes.
La necesidad de encontrar espacios de luz y personas que pueblen esos espacios con las que establecer relaciones de complicidad, que nos hagan olvidar aunque sea durante unos segundos nuestras peores miserias. Esos espacios y esas personas existen incluso en los sitios en los que parece que no pueda ser posible. ¿Cuáles han sido los vuestros?
«Noi donne siamo crescite per secoli in un mondo costruito contro di noi, soprattutto da quando bruciarono le nostre sorelle sui roghi della cristianità. Quel femminicidio fondativo che fu la caccia alle streghe creò nelle nostre comunità la frattura necessaria a strapparci il potere sociale e sessuale e sottomettere il popolo. Ma della nostra stupidità è convinto solo il patriarcato, nessuna di noi accetta davvero di essere sottomessa. Semmai, lo sopportiamo. Nel frattempo, sviluppiamo progressivamente strategie di mutuo aiuto e di autodifesa, come quella frase, trasmessa di donna in donna da chissà quando: “Quando vedi piangere un uomo, non fidarti, che con le lacrime ti dice: 'che cazzate ti darò”».
«Mi aita se llamaba Ramón, Ramón María Guindo Liberal, y creía en la reencarnación. Apuesto a que le hubiera encantado volver a este mundo y no dañar a las mujeres a las que quería, y ser mil veces más feliz de lo que fue. Lloré mucho cuando murió, lloré amargamente su soledad, y su fracaso. Por él también lucho para derrocar al patriarcado: no quiero que siga fabricando hombres que son abismos ni mujeres que se abisman por quererlos».
Novela que retrata la vida de Itziar Ziga. Los orígenes, la experiencia, las violencias patriarcales... Una forma de resistencia pero también de querer vivir mejor. Lo más importante para mi, y quizás la que más llegó, fue como narra las relaciones y vivencias en el hogar doméstico. Es como si una parte de mi se viera reflejado en esas palabras. Recomendable.
Menuda voladura de cabeza de libro. Leedlo, por favor.
Se puede ser víctima y ser feliz. Frente al relato de la víctima pobrecita y sin capacidad de agencia, la familia Ziga nos enseña la importancia de la agencia y que la vida, el feminismo, las relaciones... son algo más que blancos o negros.
Una història duríssima explicada amb un to d'humor i crítica on l'autora ens fa pensar en tot el que el feminisme ha aconseguit fins ara i tot el que ens queda a fer. Transmet ràbia i orgull a parts iguals.