Primeira leitura do meu 2026, e já comecei com um soco no estômago. Je me regarderai dans les yeux, da poetisa marroquina Rim Battal, é uma daquelas leituras que te atravessam por dentro: um romance curto, com narrativa simples, mas recheado de camadas simbólicas, sociais e políticas que imploram para serem escavadas.
A história se passa em Marrocos em 2004, o que deduzo pela idade da protagonista (17 anos) e pelos elementos de época: menção ao rei Mohammed VI, celulares Nokia, walkman… E claro, o pano de fundo de um país tentando (aos trancos e barrancos) modernizar suas leis e instituições, enquanto a sociedade ainda opera sob os códigos não ditos (e não reformados) do patriarcado.
O enredo é direto: uma adolescente é acusada de ter “perdido a honra” e forçada a se submeter a um teste de virgindade. A partir disso, acompanhamos a escalada de violência simbólica, psicológica e familiar, que expõe a fragilidade da protagonista e a brutalidade das estruturas que a cercam. Mas é aí que a escrita de Rim Battal surpreende: o enredo simples dá espaço para o mergulho lírico e existencial de uma jovem tentando sobreviver ao trauma e dar sentido ao que lhe acontece.
A narrativa é feita em primeira pessoa, pela Rim adulta, relembrando esse episódio da adolescência. Mas há momentos em que a adolescente toma conta da voz: visceral, intensa, confusa, pulsante. Essa alternância é sutil, mas perceptível. Há duas Rims aqui: a que viveu e a que entendeu. A que sofreu e a que escreve. E a fusão dessas vozes é o que dá potência ao livro.
A linguagem tem uma liricidade que, imagino, no francês original deve ser ainda mais evidente, já que Battal é poetisa de formação. Em português, a tradução mantém bem a tensão entre a brutalidade do conteúdo e a beleza do estilo: frases curtas, carregadas de sensações físicas (sangue, suor, fumaça, espelho…), que marcam o corpo como território político e narrativo.
O que mais me pegou foi o modo como o romance mostra que o patriarcado não precisa da presença constante dos homens para se manter. A mãe é quem aciona a violência, quem reforça os códigos de controle, quem denuncia. Mas o pai, mesmo ausente, está presente no sistema, ao não intervir, ele garante que tudo continue. Ele legitima pelo silêncio. A mãe não é matriarca: ela é instrumento do patriarcado. E isso é uma dor à parte.
Outro ponto de destaque é o uso do espelho como símbolo. O título já entrega: “Eu me olharei em meus olhos” é um gesto de resistência. É deixar de ser vista pelos olhos dos outros (da mãe, da comunidade, do sistema) e começar a se ver como sujeito. Um ato radical em uma sociedade que objetifica, vigia e silencia mulheres desde a infância.
Apesar da reforma do Mudawana em 2004 (que, teoricamente, ampliou os direitos das mulheres) o livro mostra que mudança legal não significa mudança cultural imediata. A estrutura da sociedade ainda se molda pelo controle do corpo feminino, pela honra familiar, pela hipocrisia social. E, paradoxalmente, essa mesma hipocrisia também permite pequenas brechas de escapada, como se todos concordassem em fingir que acreditam na mentira, só pra manter as aparências e garantir a estabilidade do sistema.
Por fim, o tempo do romance é fragmentado. Memória, presente e reflexão se misturam, como num fluxo que não se resolve, porque o trauma não é linear. As imagens recorrentes (espelho, suor, sangue) funcionam como fios de costura entre corpo e linguagem, entre dor e palavra.
Foi uma boa leitura. Me prendeu, me provocou, me fez pensar, especialmente sobre a forma como mulheres são levadas a desconfiar de si mesmas, como a violência às vezes se apresenta como “amor” e como romper esse ciclo exige um nível quase cruel de coragem. Mas, apesar da potência, senti que o livro poderia ir ainda mais fundo em certos pontos, talvez por ser a estreia de Battal na ficção, ou talvez por escolha estilística.