Não há um único jeito de ser ou estar no mundo, nem uma maneira certa ou errada de se relacionar. Na verdade, a beleza mora nas concomitâncias. O artesanato narrativo que a ativista indígena Guarani, psicóloga e escritora Geni Núñez constrói em Felizes por enquanto mostra que, para além do que foi forçosamente ensinado durante tantos séculos de colonização, existem, sim, outros mundos possíveis, nos quais as coisas não são pensadas a partir de binarismos, imposições ou restrições. A graça, afinal, está em também achar belo o que não é espelho.
Seus escritos, também eles inclassificáveis, tiram o utilitarismo das palavras e traçam um percurso em que a vida acontece ao passo em que é vivida, sem seguir uma linha reta, num tempo e memória sempre em movimento.
"E, na nossa pequenez de imensidão, a gente se frustra, sorri, chora, ama, deseja... Justo porque está viva
Geni Núñez é escritora, ativista indígena guarani e psicóloga. Atualmente é pesquisadora de pós-doutorado no Instituto de Estudos Avançados da Universidade de São Paulo (IEA-USP). Tem doutorado no Programa de Pós-Graduação Interdisciplinar em Ciências Humanas pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), onde também cursou mestrado em Psicologia Social e graduação em Psicologia. Integra a Comissão de Direitos Humanos (CDH) do Conselho Federal de Psicologia (CFP) e da Comissão Guarani Yvyrupa (CGY). É autora de Descolonizando afetos: experimentações sobre outras formas de amar (Paidós/Planeta, 2023), e do livro infantil Jaxy Jaterê, o saci guarani (HarperKids/HarperCollins, 2023), que conta com ilustrações de Miguela Moura. Ambos foram destaques na Curadoria Participativa do Programa Educativo Flip 2024.
Queria muito gostar mas infelizmente eu preciso que meus poemas/poesias sejam mais distantes e menos concretos. Eu gosto de coisas que me bagunçam e aqui é tudo bem arrumadinho.
Geni tem uma delicadeza muito gentil pra enxergar e poetizar a vida. Os textos são poesias mas também filosofia. Linha por linha, vão tecendo um modo coletivo de viver o mundo, uma colcha colorida, cheia de texturas e perfumes, com a qual a gente pode se abraçar e celebrar os amores mundanos.
Depois de muito me aventurar entre as postagens da Geni, decidi encarar os seus livros. Sua escrita é acolhedora, torna temas que dão medo em um bate papo natural. Longe de tentar educar quem decide se debruçar sobre seus escritos, mas a sua transposição de conhecimento faz com que a gente encare os temas com outros olhos. Se eu pudesse resumir numa palavra só a leitura de todos os poemas: acolhimento.
Embora tenha gostado muito do livro, houve poemas que não me aproximei tanto, mas nem por isso a leitura do montante deixou de ser agradável. Com isso, não vou me prolongar bastante, também, pois a leitura e o tema são coisas individuais e a fruição das leituras, também. Pode existir muitas e muitas teorias sobre "outros mundos possíveis", mas há quem ainda os trate como um bicho-de-sete-cabeças.
Com isso, finalizo com essa estrofe: "Até se promete amar o outro na dor e na doença, quero ver é amar na liberdade."
O despertar para o amor só pode acontecer se nos desapegarmos da obsessão pelo poder e pela dominação.
"no lugar da tristeza, agora honro também a minha raiva, fecho a cara e o coração e digo basta"
"talvez ao mesmo tempo que amo o mundo eu consiga me lembrar de que faço parte dele"
"mesmo que alingua sinta um sabor desagravel; e os olhos vejam algo de que não gostem, repito: é no poder degustar sem violência o sentir, o ver, ouvir, tocar é onde está o misterio; já me preparo para polinizar outras flores; mesmo que não floresçam; meus amores são sazonais e eu também."
"eu sou forte, mas não queria usar minha força apenas para aguentar dor e sofrimento. Quero tambem ser forte para viver a alegria, a ternura, a serenidade"
Nós, que amamos livremente, enfrentamos muitas angústias que dificilmente encontram representação digna na sociedade dominante. As palavras de Geni cuidam com muito carinho de nossas feridas coletivas. Esse processo curativo que é poder nomear e elaborar muita coisa que ainda não se tinha conseguido. É um colo, um afago, um abraço, um carinho. Ser atravessado por este livro...
A maior parte dos textos já conhecia pelo Instagram, mas é sempre um deleite revisitar e encontrar, nesses escritos tão poderosos, um lugar de amparo, pertencimento e acolhimento.
pra quem acompanha a geni nas redes sociais, esse livro apresenta textos muito semelhantes (se não retirados) aos de seu instagram. o "felizes para sempre" aqui é "por enquanto", e vai de acordo ao "que seja eterno enquanto dure" do vinícius de morais. mas aqui temos uma visão indígena de quem admira o mundo e não incorpora a monocultura, então se trata de uma obra com visões múltiplas, dentro da própria escrita da autora. geni escreve crônicas em formato de poesia, adiciona músicas e referencia poetas. é definitivamente um livro que eu esperaria vindo dela.
Que livro incrível!! Fui lendo e marcando as minhas passagens preferidas e no final tive um livro super colorido. Vários versos bateram de uma forma muito pessoal e virou até assunto de análise haha Excelente para quem quer enxergar o mundo com mais possibilidades!
O livro trás uma construção completamente pessoal da escritora, é possível perceber o quão ela coloca as vivências e experiências dela dentro de cada conto. Sua reflexão no final trás a delicadeza e a lucidez de alguém que sabe e entende o quão imenso a gente pode ser.
amo a Geni! acho o primeiro dela maravilhoso. mas aqui, esperei demais e me decepcionei. os poemas me pareciam, na verdade, serem separações aleatórias com o uso do enter de grandes frases de uma publicação no instagram.
Me encanto do jeito que Geni pensa não só a escrita, mas a vida como um processo artesanal. Esse livro traduz bem isso! São leituras com embalos reflexivos e pensamentos sobre se relacionar com o mundo para além dos humanos ❤️
"É possível ser precioso e único sem ser raro Tantas luas cheias que já vi Só me deslumbraria se as visse uma única, primeira e última vez? É possível se encantar de novo, pelo mesmo que é sempre diferente Porque se repete em outro lugar, tempo, espaço (...)"
Geni sempre genial, sim. Esse livro consiste mais em textos curtos como os compartilhados no Instagram (alguns talvez inclusive tenham sido postados por la) e alguns tem menos impacto que outros pra mim pessoalmente, mas ainda houveram dezenas de trechos dignos de serem grifados e relidos eventualmente.
livro incrível em diferentes dimensões, e com certeza um ao qual vou revisitar os poemas. os quais quando lidos em certas horas parecem um conselho ou excelente reflexão ✨
"Dizem que quem não sabe amar a si mesmo não pode amar outras pessoas Mas é esse não saber que posso te dar Talvez ao mesmo tempo que amo o mundo eu consiga me lembrar de que faço parte dele"
quando leio geni, sinto que a vida é possível de um jeito muito mais bonito e não que será, ou pode ser, mas que é. aqui e agora, não pra mim, mas comigo
no início do livro, geni explica: esses não são poemas. meu povo pensa, fala e elabora pela poesia. aqui, a linguagem poética não é um instrumento, mas o próprio acontecimento.