O livro “A Escola não é uma Empresa”, do sociológo francês Christian Laval, faz uma análise sobre o avanço das políticas neoliberais no campo da educação pública e suas consquências. A edição da Boitempo traz esse debate, extremamente caro e atual – uma vez que desde 2017, com a reforma do ensino médio e a nova BNCC, o combate à presença do Neoliberalismo na Educação brasileira tornou-se pauta da esquerda e de forças progressistas -, para a realidade brasileira. O livro trata das políticas neoliberais que vêm sendo implantadas na França e, por mais que o Neoliberalismo já tenha avançado muito mais aqui no Brasil que lá, é importante para nos fazer dialogar com nossa realidade. Isso porque, apesar de suas limitações “geográficas” e temporais, o sociólogo lança diversas categorias fundamentais para análise desse fenômeno que já atingiu proporções globais. É interessante observar como a análise de Laval toma forma ao longo do livro. Ele traça uma linha do tempo historiográfica de como se deu esse avanço do neoliberalismo na Educação Pública francesa e mundial, quem foram seus atores e investiga quais serão as próximas etapas desse processo. O sociólogo apresenta as diversas frentes de ataque dessas políticas, como essa fase superior do capitalismo entra dentro das escolas, indo desde ataques nos parlamentos – na disputa pela própria concepção de Educação – até na comercialização de produtos dentro das escolas. Ele chama atenção para políticas que visam transformar a educação em um bem comercializável. O aluno, nessa nova concepção, deixa de ser um agente do processo de aprendizagem e passa a ser um cliente – juntamente de seu núcleo familiar -, da mesma maneira que os professores e diretores se tornam vendedores de serviço. No Brasil, já estamos mais familiarizados com essa realidade. Há uma distinção bem clara entre escolas públicas e privadas – e universidades públicas e privadas -, até pelas próprias características inerentes a nossa história. Houve uma inversão de paradigma: a escola pública brasileira, antes devotadas as elites, agora é de base popular – tendo a escola privada assumindo esse papel de educar as elites; a universidade pública, algo relativamente novo na história brasileira, passa a ser formadora da elite que veio da escola privada, enquanto os eméritos da educação básica pública são relegados às universidades privadas. As categorias lançadas por Laval nos ajudam a compreender esse cenário de deterioração da Educação Pública, que serve como ferramenta para valorização do Ensino Privado, tornando cada vez mais claras as divisões entre Elite e Massa – segregando mais um país já segregado. A lógica é simples, nesse caso, pois estamos diante de um processo que visa a precarização do Ensino Público para forçar a migração das pessoas para um Ensino Privado – que não necessariamente é bom, apenas menos precarizado (na realidade imposta). É um projeto político para comercializar mais essa área que parecia ser a última fortaleza contra os avanços neoliberais: se o Ensino Público fosse bom, por que alguém pagaria uma escola privada? Logo, se faz necessário que projetos políticos que visem precarizar a Educação Pública sejam pautados para que se possa arrecadar dinheiro advindos do investimento nos setores educacionais privados. É por isso que esse trabalho é extremamente fundamental, pois abre margem para, a partir das categorias de análise lançadas, se analisar o panorama brasileiro. É um estudo de caso francês e com limitações de tempo (o livro é do começo dos anos 2000) e, mesmo não esboçando soluções para o cenário estudado – pois não é seu objetivo -, nos ajuda a compreender a realidade brasileira, portanto indispensável para educadores em formação.
O livro de Christian Laval é uma leitura atenta e interessada sobre como o sistema educacional (ensino básico e superior) tem sido alvo de mercantilização frutífero diante da assim chamada "economia do conhecimento". A educação sob políticas neoliberais perde parte substancial de sua natureza institucional e ganha contornos organizacionais. A escola fundada sob princípios republicanos, cívicos e culturais perde espaço para a escola enquanto estágio preparatório para o mercado. A função da escola que outrora era de transmissão intergeracional e apropriação de fundamentos das artes, da ciência e da democracia se converte num veículo de propagação da ideologia de mercado, que está presente nos livros didáticos, no discurso de gestão, na aplicação acrítica do "programa" pelos professores e na busca pelas famílias pelo "produto" educacional. A perda de sentido docente, a falta de interesse discente e o mal estar da educação no nosso tempo parece fruto dessa nova ordem educacional que se impõe com força e promove desigualdades e toda sorte de confusão sobre o verdadeiro papel da escola para o indivíduo e a sociedade.
Ainda que parte do livro analise o cenário europeu, em geral, e o francês, em particular, muito do que se vê em curso por lá, por aqui na América e no Brasil já é realidade. Perceber como fomos apáticos a essa descentralização e desregulação do sistema educacional nacional e como isso resultou no que temos hoje é triste, ainda mais para um professor, como sou.
Es una introducción muy completa a todo el debate existente sobre las influencias neoliberales en educación, habría estado bien leerlo al principio de mi TFM y no ahora que estoy terminándolo, pues es capaz de situarte en la mayoría de focos abiertos, hablando de temas como la libertad de elección de centros, la privatización o la profesionalización.