Minha experiências com fantasia se resumem aos livros do gênero que li quando era nova (Harry Potter, Percy Jackson, Crepúsculo, etc). Romantasias, no entanto, além de serem um fenômeno recente, não haviam entrado no meu radar ainda. Eu gosto mais da distopia, do subtexto político, do romance possível mas conflituoso; então achei que era uma boa ideia entrar nessa "piscina" com um livro único. O marketing me comprou, a supremacia de opiniões positivas em todas as plataformas ajudou no convencimento.
Puts...
A escrita desse livro não é boa, me incomodou ao longo de toda a história. Algumas coisas são simples, como a flexão de palavras para o plural, a fim de acompanhar o sentido geral das frases, o que uma revisão mais atenta consertaria. Mas também há momentos em que a construção das sentenças não faz sentido. Exemplo, do capítulo 28: "O rei se encostou na cadeira e com o braço acomodado sobre a mesa, segurando o cálice de vinho tinto e seco." A frase é escrita exatamente assim. Que construção é essa? A autora utilizou o E como conjunção, mas uma vírgula ali traria sentido pra frase (sentido, aqui, inexistente).
Outro exemplo, do capítulo 53: "Ambi parecia não entender a gravidade daquilo, mas o sangue das criaturas era conhecido no mundo bruxo como um dos elementos mais raros e sombrios." A Ambi não entendia, muito menos a gente. Uma inversão na estrutura, primeiro apresentando a informação e depois citando a ignorância de Ambi, ficaria muito melhor; a construção de muitas frases é muito pobre.
A linguagem também me causou certo estranhamento; às vezes parece que a autora imaginou em inglês e traduziu simultaneamente para o português enquanto escrevia, e aí temos frases como "Quem p0rra são vocês!" (who the f0ck are you?). Eu entendo que o universo é inédito, e que a linguagem e os costumes dele são criados pela mente da autora, mas no fim do dia ainda estamos falando de literatura nacional. Eu não sei de onde a linguagem utilizada aqui é derivada, quais regras ela seguiu. Temos elementos de época (costumes, sistema político, vestimentas), mas também temos boates, liberdade sexual e linguagem coloquial estranha.
O que me leva ao principal problema: a construção de mundo não é sólida. É muito promissora na primeira parte, mas as informações são mal distribuídas, e talvez isso seja culpa do narrador em terceira pessoa. Terminei o livro sem entender como a magia ou a alquimia funcionavam, quais os limites dos poderes dos personagens, porque os dois povos principais entraram em guerra anos atrás, a geografia do mundo em que viviam... Me perguntava constantemente se a culpa era minha, se a burra era eu. Foi muito detalhe objetivando criar uma mitologia sólida que no final eu sinto que tudo virou uma bagunça.
E sobre o casal... O slow burn ele precisa te conquistar de alguma forma pra se sustentar até o final. Não existe slow burn aqui. Existem duas pessoas que não entendem o que sentem, dizem se odiar, mas o ódio não se sustenta, SUPOSTAMENTE possuem uma química incontrolável que ninguém sente, são dois chatos INSUPORTÁVEIS, não fazem o menor sentido juntos. As cartas que o Astero escreveu, escreveu pra quê se tacou fogo depois? Como a Zália passa o primeiro capítulo todo sentindo que está cumprindo o dever para o qual foi criada ao se casar, mas se afasta desse dever durante dois anos sem qualquer tipo de problema?
Fora que o capítulo 52 foi a pior coisa que eu já li na minha vida. O casal ao longo do livro todo não criou intimidade alguma, não se conhece em nenhum aspecto; mesmo assim a cena foi MUITO suja (o que não é um problema, se fizer sentido) e CLARO que o cara ia ser imenso e fazer a mocinha ver estrelas pelo menos cinco vezes. Eles são o amor da vida um do outro, né, gente?
Houve muito esforço na construção de mundo, nenhum na construção do casal, mas o livro ainda é vendido como um romance enemies to lovers slow burn age gap blablabla.
Por fim, fiquei muito curiosa pra entender a justificativa do intervalo de dois anos com o qual nos deparamos no início da parte II. No fim das contas achei que não serviu pra construir a relação de personagem nenhum, ou pra justificar qualquer coisa da história que veio após. Muito mal pra nos tentar engolir garganta abaixo que houve algo mal resolvido entre a Ônix e a Ambi - que é outro casal que não tinha porquê existir, não fez sentido algum, não foi construído de fato, nem bem trabalhado.
Ao final, a impressão que tenho é que a autora escreveu uma fanfic de alguma outra fantasia e está presumindo a todo o momento que já conhecemos os personagens que ela apresenta, daí não precisa perder o tempo que dedica descrevendo paisagem, moldando as personalidades de cada um deles.