Primeiro contato que tenho com Camatte, marcado por altos e baixos.
A análise de Camatte por vezes é precisa, por vezes extremamente equivocada. Acho curioso como a proposta do livro, de quebra com o marxismo e crítica dos equívocos de correntes marxistas, por vezes se torna tão geral que não consegue sustentar a própria posição. A virada primitivista de Camatte, me parece, é sintoma de um diagnóstico mal calculado e uma previsão errada sobre o desenvolvimento do capitalismo. No momento onde o neoliberalismo surgia, Camatte cometia equívocos enormes ao analisar a conjuntura do processo e ao remanejar os conceitos de Marx. Se posso deixar algum conselho, é ir à análise de Debord, que referenciarei em alguns momentos aqui.
O primeiro ponto que deve ser levantado é como Camatte acerta (em partes) na sua crítica a forma pela qual a organização política tende a interiorizar as próprias hierarquias que ela busca se opor, além de sustentar uma oposição dentro-fora que torna problemática a tarefa de autocrítica (não à toa, como o próprio livro fala, a invariância de Camatte varia por demais - uma variação que, diferente da autocrítica, me parece autoflagelar-se). Camatte está certo sobre essa tendência da organização, mas não apresenta nenhuma alternativa coerente. A insistência no partido histórico em oposição ao partido formal é interessante, assim como seu alinhamento com a teoria das classes de Luxemburgo (contra o vanguardismo e a "auto-educação das massas"), mas sinto falta de um desenvolvimento mais coeso sobre esse "retorno" à posição de Marx - como isso funciona politicamente no capitalismo tardio? Ficamos a imaginar.
O ponto seguinte é mais sensível: Camatte entende mal o processo de desvalorização (dessubstacialização do valor pela redução do trabalho produtivo). Ele propõe que o momento que o capital atravessava na década de 60/70 era já uma superação da lei do valor devido a passagem da dominação formal para a dominação real do capital, o que é um problema por alguns motivos: 1. conceber que os processos de intensificação do capital fictício e incorporação da classe trabalhadora a lógica consumista-espetacular significariam o fim do proletariado, o que é um equívoco enorme; 2. acreditar que seria possível, no modo de produção capitalista, uma autonomização do capital ao ponto em que ele se emanciparia completamente do trabalho (a substância do valor), o que é uma incompreensão do que significa uma lei tendencial - pelo contrário, pouco depois o capital operaria um deslocamento de seu limite relativo com o período neoliberal que se alastra até hoje, o que dá um novo fôlego entorpecido ao capital (algo que Camatte entende como possível, de certo modo, no final do livro ao falar do problema da inflação e a tendência de controle sobre os salários e preços), ou seja, o capital não pode se emancipar completamente, mas apesar operar deslocamentos de seus limites relativos, algo que Camatte não parece entender; 3. apostar que tal momento de declínio do welfare state poderia se sustentar com uma generalização da condição de classe média a toda humanidade, "by achieving domination through the mediation of labor, capital brought about the disappearence of classes" - o que é um absurdo, ainda mais ao propor o fim da sociedade burguesa: a proletarização pela universalização do trabalho assalariado é complementada pelo desenvolvimento do espetáculo e da intensa inclusão na lógica consumista com a expansão do setor de serviços, o que não implica de forma alguma no que Camatte propõe - pelo contrário, tal condição já aponta pra conjuntura neoliberal que se consolida na década seguinte (algo que Debord já indica, mas Camatte alguns anos depois não entende). Alguns pontos específicos, sobre a representação do capital e a fuga do capital são interessantes e por vezes bastante precisos, mas o conjunto geral parece mal articulado, nos diversos momentos que eles aparecem no livro. A insistência nesses três pontos críticos é um problema ao longo do livro, uma insistência em uma argumentação porosa que se entende como já justificada. Outro momento fica inconclusivo: a oposição crítica tanto a glorificação do trabalho quanto a abolição do trabalho é estranha, a argumentação em nota de rodapé não convence; assim como o debate sobre violência, que se opõe a duas posições extremas e se situa num meio termo mal justificado. A crítica a teoria do proletariado é interessante e a mobilização de tal grande identidade deve ser pensada nos processos políticos concretos, mas a conclusão de Camatte acaba sendo infectada pelos equívocos anteriormente citados.
Os momentos de debates internos à obra de Marx são ricos, tornam a leitura bastante estimulante. Já as questões sobre a consciência repressiva e o comunismo como um restabelecer da Gemeinwesen trazem bons pontos mas não compro a proposta de "retorno" que habita o texto de Camatte: o produtivismo deve ser criticado e a lógica da representação capitalista deve ser superada nas propostas revolucionárias, mas a imaginação artificial de um passado que contenha elementos recuperáveis é um problema. Se há algum primitivismo que tem elementos politicamente interessantes (porém, para mim, limitados aparentemente) é o de Viveiros de Castro; o de Camatte falha em me convencer. Por fim, acho que as críticas de Camatte ao humanismo são boas, mas ele insiste em referir-se à humanidade em abstrato a todo momento, o que explicita a sua errância conceitual (por insuficiência, e não por excesso).
Apesar dos grandes problemas de análise, a leitura é cativante. Quando Camatte traça considerações sobre os movimentos da esquerda, sobre a revolução, sobre domesticação, as interações com Bordiga - apesar de alguns equívocos, o texto exige um engajamento ativo que convida o leitor a entrar nos tortuosos caminhos da proposta teórica de Camatte, um entusiasmado convite a "ver até onde isso vai". Por isso gostei do livro. Felizmente, o livro termina em um ponto alto: a análise da New Right e de Alain de Benoist, uma análise em geral bastante precisa de Camatte que acerta em alvos que excedem suas considerações imediatas. O único incômodo (não apenas nesse capítulo, mas que ocorre em outros pontos do livro - por exemplo com os termos "community") é o encaixe sucessivo de um conceito em contextos absolutamente díspares, por pura conveniência do texto: nesse capítulo, nominalista assume esse lugar - boas críticas a de Benoist, mas o ponto sobre Marx como um nominalista (que toma o conceito sem rigor nenhum) é só engraçado mesmo.
Minha conclusão é: Camatte equivocou-se sobre a conjuntura de sua época e revisou conceitos baseado em conclusões mal formuladas. Mas em suas interações locais, e mesmo em seu relacionamento complicado com Marx, Camatte nos faz pensar os problemas do capitalismo tardio num texto extremamente envolvente - ainda que sua posição, para mim, não seja possível de ser assumida atualmente. Enfim, leitura prazerosa.