Não me relaciono pessoalmente com a maior parte da personalidade da PPF (personagem principal feminina), a Mel/Melissa.
Acordar às 6h da manhã para ir ao ginásio antes de ir trabalhar? E depois beber uma garrafa inteira de vodka em dois dias, todas as semanas, num ciclo sem fim... Essa foi a única forma que ela encontrou para lidar com o sofrimento em que vivia. São rotinas com as quais não me identifico.
No entanto, compreendo os ataques de pânico e a batalha dela com a ansiedade. A história, no geral, é bastante previsível.
SPOILER ALERT
A Mel é ingênua e superficial. O problema dela também é bastante clichê — sem querer desvalorizar.
Ela é a típica filha de uma família rica e de reputação em Lisboa. O pai e o avô eram juízes, então ela deveria seguir a mesma carreira e tornar-se juíza no futuro também. Na história, ela é advogada.
Trabalha num escritório onde os clientes são os ricos, famosos e políticos de Portugal.
E, como é bastante típico, ela odeia a sua vida, odeia o trabalho e queria ter seguido artes.
Mas escolheu advocacia por pressão da família. Poderia fazer arte nos tempos livres, mas não tem tempo livre porque trabalha 14 horas e ainda vai ao ginásio. Os dias dela têm 16 horas; ela chega a casa e só dorme.
Depois, passa os fins de semana em depressão, bebendo vodka, porque as amigas casaram e têm filhos e já não têm tempo para ela como antes. A única diversão casual que ela tem é ir beber com um rapaz que claramente se aproveita da relação deles, que é apenas uma situationship — basicamente, amigos com benefícios. No entanto, ele fala como se fossem casar, mas ao mesmo tempo deixa claro que isso não vai acontecer tão cedo porque é piloto em voos internacionais e só consideraria casar quando passasse a fazer apenas voos europeus. Mesmo assim, ela diz que aceitaria casar na situação atual...
Eventualmente, entra um colega novo no trabalho que começa a fazer bullying com ela e consegue manipular os outros colegas para excluí-la. Ela não conta nada ao chefe porque não quer ser "queixinhas".
Enfim, vale lembrar que estamos a falar de uma rapariga rica, filha de um juiz, que poderia até abrir o próprio consultório, levando milhares de clientes com ela. Mesmo que isso não fosse possível, ela ainda teria a opção de trabalhar noutro lugar ou abrir o seu escritório. Coisas que ela nunca considera na história. O plano dela é sempre aguentar, calar e fingir que nada está a acontecer. Chega até a desmaiar no supermercado com um ataque de pânico, o que não foi nada surpreendente, considerando o dia a dia que leva. Nunca confronta o seu bully a sério, nem faz queixa dele. Não conta nada a ninguém — nem aos amigos, nem aos pais, nem ao chefe.
Eventualmente, ao acordar no hospital, os pais sugerem interná-la numa clínica. Ela não aceita, mas decide tirar umas férias. Vai para os Açores, visitar a tia. Lá, conhece o novo interesse romântico, embora não o veja dessa forma durante muito tempo, porque está cega pelo Rodrigo, o piloto que diz que quer casar mas nunca agora.
É tudo bastante previsível, mas, eventualmente, ela percebe que o Rodrigo não quer nada sério com ela e que o Carlos realmente se importa. Também começa a entender por que a tia vivia afastada da família de Lisboa.
Por fim, ela faz terapia e decide ir atrás dos seus sonhos, estudando artes em Paris...