“…o fascismo tinha sido uma infeção, um fungo. um ódio aprendido de cor, palavras sem conceito. e, no entanto, surgia-me a dúvida de que, mesmo que Mussolini tivesse sido pendurado pelos pés, não tinha sido completamente extirpado. e talvez não fosse suficiente mantermo-nos vigilantes. esse mal ainda estava ali, à espera sob a terra e sob a pele como um tumor. assumiria outras formas, outras faces. e autoproclamar-se-ia sempre de justiça, de tradição, de moralidade.”
1930/1940. Monza, Itália. Um país dilacerado pelo fascismo e pela participação na guerra. É este o cenário para a continuação da história de Maddalena e Francesca, a confirmação da amizade e da rebeldia.
Quatro anos após o internamento de Maddalena, Francesca continua a sentir culpa pela situação em que se encontra a amiga, de quem nada sabe. Ao descobrir que todas as cartas que lhe escreveu não foram enviadas pelo pai, Francesca sai de casa e vai viver com Noé. Desde o início, as amigas, agora jovens mulheres, continuam a desafiar os cânones: uma está internada por ousar ser diferente, a outra ousa emancipar-se e ir viver com um homem antes de casar. É a partir deste ponto que a história das duas amigas recomeça, as rebeldes que devem obedecer ao regime, mas que resistem, arriscam e lutam por um país livre do fascismo.
À semelhança do primeiro livro, este é um livro envolvente e cheio de verdade. É notável o trabalho de pesquisa da autora, que consegue ligar a história do seu país com a condição feminina, explorando de forma muito real a condição das mulheres na Itália fascista. É um livro sobre mulheres, sobre a resistência feminina, sobre resiliência e coragem. Gostei da forma como a autora conseguiu transmitir o crescimento das duas amigas, profundamente marcadas por tudo o que vivenciaram.
Maddalena continua a ser a misteriosa, o espírito rebelde, a corajosa que ousa desafiar o mundo. Francesca cresceu, e é agora uma mulher emancipada, autoconsciente. Neste livro, Francesca é uma personagem muito importante para a narrativa, ao explorar a condição feminina e os caminhos para a emancipação.
A relação entre as duas amigas, apesar dos anos em que estiveram separadas, é profunda e cheia de significados diferentes. São ambas marginalizadas pela sua forma de ser, e gostei particularmente da forma como a autora revestiu Francesca de uma coragem que lhe permitiu continuar a ter Maddalena como modelo, descobrindo que tem também muito de “malnascida”, mas que lhe permitiu encontrar a sua essência e ir contra as expectativas sociais. A amizade entre as duas espelha de forma muito terna a solidariedade feminina, sendo refúgio e alavanca contra a injustiça. Representam a cumplicidade que esconde um amor impossível, na luta comum pela sobrevivência e pela liberdade como direito universal.